O negro no Brasil não escova os dentes por Stephanie Ribeiro

A publicidade e a mídia brasileira dizem muito sobre um país que criou medidas para que a maioria da população fosse branca e até hoje “indiretamente” ainda cria. Porém essas ações não atingiram sucesso, a maior parte da população brasileira é de sujeitos negros, sendo a grande maioria de homens negros, seguidos pelas mulheres negras segundo o IBGE. Além disso, em mais de um estado da federação, nós negros chegamos a ser mais de 70% da população. Para desgosto de muitos, a Redenção de Cam não se concretizou totalmente nas famílias brasileiras e somos sim um país que se autodeclara e é negro.

Contudo para nossa infelicidade ao contrário do que se diz, ter maioria negra não quer dizer que vivemos todos muito bem numa democracia racial. Somos um país negro com a mentalidade fascista de um supremacista branco. Todos os nossos problemas, todas as nossas questões e todos os nossos ideais terão raça como um fator decisivo:

  • Não se fala de classe no Brasil de forma digna 
    se você não pensa em raça;
  • Não se fala de gênero no Brasil de forma digna 
    se você não pensa em raça;
  • Não se faz política pública no Brasil se forma digna 
    se você não pensa em raça;
  • Não se faz publicidade e propaganda de forma digna no Brasil 
    se você não pensa em raça.

Portanto, não falta negros no Brasil: o que falta mesmo é dignidade para assumir que somos racistas e não teria como ser diferente já que o país só existe pois europeus sequestraram, escravizaram, exploraram, desumanizam, mataram negros por mais de 300 anos por acreditar que eles eram inferiores. Somos talvez um dos países mais racistas e violentos que um sujeito negro pode viver. Acredito que é por isso que se Goebbels estivesse vivo a realização dele seria assistir a televisão brasileira, a qualquer momento do dia, em qualquer canal aberto ou até mesmo em qualquer revista, e ver uma maioria de pessoas branquíssimas, com olhos claros e traços tidos como europeus incentivando o consumo, protagonizando narrativas e sendo os agentes e os objetos principais de uma estética que vende a perfeição da brancura para uma população que é maioria não branca.

Isso não é só sobre usar apenas e em sua maioria pessoas brancas nas mais diversas mídias. É sobre essas pessoas brancas serem magras, serem felizes, serem ricas, serem cotidianamente colocadas como o símbolo do que nós deveríamos querer ser e a massa populacional não se incomodar, simplesmente fazer de tudo para atingir esse padrão. Hitler entendia a publicidade como uma das armas mais importantes para a difusão dos seus ideais. No Brasil, os pupilos nem sequer colocam negros em publicidades banais como de pasta de dentes, desodorantes e no dia dos namorados dificilmente negros namoram negros, pois dois negros por publicidade é “demais”. Inconscientemente grande parte da população que é negra, é educada desde de pequena a querer não ser negra e achar que não existe problema nenhum nisso.

Uma pesquisa do instituto Gemma feita de 1995 até 2014 mostra que NUNCA as novelas brasileiras tiveram menos de 80% dos seus personagens sendo brancos. Por 19 anos as pessoas assistiram novelas em que mais de 80% dos personagens são brancos e nunca se perguntaram se havia nada de errado com isso. Então sim, temos uma mídia brilhante no que diz respeito a empregar os conceitos supremacistas brancos que conseguiu fazer com que grande parte da população não queira ser o que é e naturalize isso a ponto de não se manifestar. Qualquer seguidor fascista estrangeiro teria muito o que aprender com os brasileiros que detêm o poder do capital, mídia e comunicação em suas mãos.

Dia desses fui convidada para estar com publicitários debatendo publicidade. Eu estava entre eles e era a única negra e também a única que não fez ou fazia publicidade. É muito importante falar sobre racismo, é mais importante dar espaço para não brancos falarem sobre suas experiências racistas, mas acho que o principal é contratar funcionários que estejam atentos às realidades e vivências de ser uma pessoa não branca no Brasil. Na cabeça do publicitário brasileiro o negro é um busto que enfeita suas salas de reuniões, enquanto eles definem qual será a próxima ideia de mau gosto que irão produzir para repercutir na mídia e ganhar alguns prêmios dados por outros publicitários que são como sempre maioria de homens brancos que dão nomes “exóticos” a suas empresas enquanto não fazem nem sequer o menor favor de contratar um negro pois aí já é demais.

Para mim a representatividade visual é importante, ter funcionários entendo e falando sobre racismo independente da sua identidade racial é extremamente importante. Porém o primordial é contratar e não silenciar pessoas negras nas agências de publicidade.

A representatividade de uma carteira assinada e direitos trabalhistas assegurados é a que negros mais precisam agora.

Eu queria muito estar entre publicitários e poder falar sobre qualquer assunto que não envolvesse raça diretamente. Mas eu queria muito mesmo não precisar falar de racismo nesses meios a todo momento pois a representatividade é nula. Os funcionários negros não existem? Os publicitários negros não existem?

Eu já cansei de marcas que entendem que negros são a maioria consumidora, que mulheres negras e periféricas detêm grande poder de escolha na compra de produtos, que nós mulheres negras queremos produtos para nossos cabelos, maquiagens para nossas tonalidades e bonecos para nossos filhos. E mesmo que fôssemos minoria populacional, se sentir representado é um direito básico já que está interligado com vários fatores como nossa autoestima, bem estar e inclusive nossa dignidade em saber que existimos e somos tão sujeitos quanto qualquer um. Deveria ter negros na mídia. Assim como deveria ter gordos, deficientes, transsexuais, etc. Deveria e não há nada de diverso na representação do real.

Eu, por muito tempo, acreditei que não existiam publicitários negros, que não existiam atores negros e que não existiam arquitetos negros. Cresci acreditando nessas “mentirinhas”. Até eu resolver ser uma arquiteta negra e entender que além de existir, nossa produção era tão boa quanto de qualquer outro grande nome, porém nosso apoio, visibilidade e reconhecimento é nulo. Conheci atores negros que também estavam cansados de só serem lembrados nas novelas sobre escravidão e para os papéis de malandro e doméstica. Então suponho que publicitários negros devem estar cansados de só lembrarem que eles existem em meses como novembro, quando talvez a “firma” resolva fazer uma campanha não tão escrota assim. Talvez profissionais negros e pessoas negras conscientes sobre a questão racial estejam cansadas de só eles se importarem em “não serem racistas” e terem sua saúde mental e esforço físico direcionados a educar as outras pessoas a não serem racistas sem nem sequer agradecerem por isso.

Eu realmente poderia ser mais afável, mas é cansativo ter que sempre falar para publicitários que eles não deveriam apenas representar o padrão estético branco. É cansativo pedir que se envergonhem e vejam o óbvio. Afinal, segundo a publicidade brasileira, negros nem sequer escovam os dentes.