Quando me descobri negra por Viviane Duarte

Minha família é uma mistura de raças: portugueses, cearenses, libaneses e negros. Meu pai, branco de olhos azuis. Minha mãe, pele clara e cabelos enrolados. Minha irmã, branca. Meu irmão, também. Eu: sempre fui chamada de “moreninha jambo.” “Indiazinha.” Tudo, menos negra. E quando questionavam minha cor, que sempre se destacava da minha irmã e dos outros membros da minha família, eu sempre ouvia a explicação de um adulto que dizia: “ela tinha um bisavô que era negro e sua bisa foi catada a laço no sertão — era cabocla.” Eu ficava imaginando com minha cabecinha de criança o que tudo aquilo significava. Porque sempre que alguém questionava minha diferença étnica havia aquela explicação. Às vezes, dizia que queria ser da cor dos meus pais só para ninguém ficar ali perguntando e apontado para mim como se estivesse dizendo: Olha, tem uma estranha no ninho! Mas minha mãe sempre me encorajou a gostar de quem eu era e como era, mesmo sem refletir sobre questões como o racismo. Cresci.

Corta para 36 anos depois e uma pergunta que mudaria meu jeito de me ver no mundo:
- Vivi, você sabia que você é preta, né? Amiga, você é preta! Uma preta em lugares de fala importantes na sociedade! Você precisa saber: você é preta!
Estávamos num papo à base de vinho e reflexões sobre negócios, empreendedorismo, oportunidades e concorrência. Eu, mulher que veio do subúrbio, sem privilégios — que precisei passar por muito perrengue para estar no lugar de fala que estou hoje, NUNCA havia considerado que além de mulher e suburbana eu era NEGRA.

Precisei de uns segundos para digerir o que estava ouvindo. E no rebote, respondi o que ouvia há anos dos adultos da família explicando sobre mim: 
- Meu bisavó era negro e minha avó era cabocla. Mas minha família é uma mistura.
- Tá, e você é negra! Você carrega a ancestralidade deles na sua cor, nos seus traços, no seu cabelo cacheado. Entende isso? Sua luta para conquistar seus planos sempre será mesmo mais intensa. Você precisará ser cinco vezes mais para alcançar o resultado que deseja. E tudo isso porque você é negra. Estar aonde você conseguiu estar é um privilégio e para poucas mulheres como você.

Eu não entendia. Na verdade, não queria entender como não havia cogitado isso. Como nunca havia parado para pensar sobre. E o fato é que minha família — inconscientemente — clareou a negritude com as misturas de raças. De geração em geração. E estou aqui hoje, com esta cor e este cabelo, para provar a força e a resistência de meus ancestrais. Um preta no ninho!
Me reconhecer como mulher negra não foi um processo fácil. No início eu resistia por conta da minha vivência e experiência da infância e todas as justificativas que vinham para explicar meus traços e cor.

Hoje me reconheço e ocupando espaços importantes na sociedade, pude rever muitas coisas, especialmente minhas escolhas e posicionamento diante do mundo.

Passei a prestar muito mais atenção na causa de nós, mulheres negras. Passei a buscar ainda mais diversidade em meus negócios e questionar clientes e fornecedores: AONDE ESTÃO AS MULHERES NEGRAS?
Até porque, quando falamos sobre mulheres na liderança, mulheres nos cargos de conselho das empresas, mulheres na política e outros espaços de poder: de que mulheres estamos falando?

Me reconhecer negra está transformando minha visão de mundo e me levando a buscar iniciativas para que mais e mais mulheres negras ocupem espaços de fala e realizem seus planos. Para que elas sejam líderes e estejam no lugar que quiserem estar. Ocupando os espaços que são nossos por direito.

Nas consultorias com o Plano Feminino tenho buscado além de quebra de estereótipos, mais representatividade e presença das mulheres negras na publicidade, como consumidoras.

Quero ver mulheres negras nas mesas das reuniões que frequento. Quero vê-las para além da figuração, da copa e cozinha. Estes espaços têm o seu valor, mas as mulheres negras não nasceram apenas para estarem ali.

Negros são minoria absoluta em cargos de chefia no Brasil e se falarmos da mulher negra, o cenário é ainda pior.

As 500 maiores empresas do país que foram avaliadas pela pesquisa do Ibope Inteligência no último senso sobre o tema, mostraram que não têm negros em suas equipes e um número chocante: dos 1162 diretores, apenas 62 eram negros. E desses, apenas 06 eram mulheres negras.

Falta acesso à educação de qualidade. Falta oportunidade. Falta receber a quitação de uma dívida de 300 anos de escravidão pra fechar a conta, em um país com 54% de uma população que se declara negra com alto poder de consumo e que se mantém racista e conivente com a desigualdade racial ao seu bel prazer. Todas estas questões me incomodam hoje e sou grata por isso. Por enxergar meu privilégio e poder de alguma forma buscar transformação.

O Plano de Menina, projeto social que decidi criar no início deste ano é uma forma de projetar um futuro de protagonismo para as meninas das comunidades — especialmente as meninas negras. É na base que vamos promover a consciência de ser quem somos e ocuparmos nossos espaços com luta, resistência e ousadia para sermos quem quisermos ser.