Olá, Carol. Parabéns pelo texto e pelo estímulo a discussão do tema. Na verdade, não estava interessado ou procurando por ele, mas usamos uma tag em comum e seu texto apareceu relacionado ao rodapé do meu (nenhuma conotação ou malícia aqui, estou apenas descrevendo como cheguei aqui) e, ao ver o título, fiquei interessado em ler. Em especial, porque não estou “antenado” no que está “bombando” em redes sociais. Portanto, não tomei conhecimento de algumas situações relatadas.
Li, na íntegra, seu post, todos comentários e textos dos links relacionados. Não tenho intenção de desqualificar seu texto, nem sua posição. A seguir, quero apenas fazer algumas observações e apontamentos sobre alguns argumentos.
Até que demorou para esse bebê começar a chorar, eu odeio criança em avião.
Na citação acima (que não faz parte de seu texto, mas de uma matéria do Estadão que você “linkou”), posso estar enganado, mas parece se tratar de ódio à uma situação, não necessariamente à criança. Quantas vezes já não falamos para (ou ouvimos de) uma pessoa que amamos “odeio quando você faz x!” ?
É importante fazer um parênteses aqui pra explicar o que é o childfree: começou como um movimento que pretendia questionar a obrigação social de ter filhos que é imposta a todas as pessoas. No Brasil (não sei como é no resto do mundo), o movimento foi se modificando e hoje fala sobre não gostar de crianças, como se isso fosse uma coisa normal e aceitável — imagina falar que não gosta de pessoas negras ou com deficiência?
Sem entrar no mérito sobre o grupo chamado Childfree, achei que tal comparação em destaque não foi muito feliz. Ser criança é uma condição transitória, enquanto ser negro ou deficiente é uma condição permanente e/ou de tempo indeterminado.
A observação, porém, mostra que adultos cobram de crianças um comportamento que não existe nem entre eles. Um grupo de adultos em um bar faz mais barulho do que um grupo de crianças brincando. Uma mesa de adultos em um restaurante pode ser mais incômoda do que uma mesa com crianças. A cobrança de perfeição e não incômodo é feita apenas para as crianças.
Aqui, vejo algumas inconsistências. Aliás, o texto me soou um tanto antagônico em relação aos adultos em geral. No caso da citação acima, me pareceu um tanto generalizante: “Adultos cobram de crianças um comportamento que não existe nem entre eles”. Onde? Quando? Será que estes adultos, especificamente, que teriam cobrado tal comportamento das crianças, realmente não se comportam como pregam?
Quanto a afirmação “Um grupo de adultos em um bar faz mais barulho do que um grupo de crianças brincando”. Não vejo uma relação. Ambos fazem barulho, mas um adulto fazer barulho em um bar é algo esperado, assim como uma criança fazer barulho em um playground ou parque.
E a respeito de “Uma mesa de adultos em um restaurante pode ser mais incômoda do que uma mesa com crianças. A cobrança de perfeição e não incômodo é feita apenas para as crianças”. Não acredito que uma coisa esteja relacionada à outra. Falando, especificamente, de alguém que (comprovadamente) odeie crianças, pode até acontecer. Porém, da forma como foi argumentado, acredito que qualquer pessoa que se incomode no restaurante com barulho de crianças, irá se incomodar com barulho de adultos também. Mais uma vez, ressalto: a questão, muitas vezes, não é ódio à pessoa e sim à situação, no caso, o barulho.
Adultos são preguiçosos e acham que tudo tem que vir pronto. Agimos como se pessoas fossem comandadas por controle remoto e esperamos que elas ajam de acordo com nossos desejos. Esquecemos como é doloroso o processo de aprendizado e de como é assustador entender as normas sociais que regem a convivência.
Concordo, em partes, trocaria adultos por “pessoas” ou por “muitas pessoas”. Isso acontece mesmo, não exclusivamente em relação às crianças, mas também com algumas pessoas mais velhas que estão começando a utilizar internet e redes sociais. Muitos não têm paciência com as pessoas mais velhas que não tem traquejo com a tecnologia e estão aprendendo a utilizar redes sociais. Vale a pena refletir sobre isso também. Todos, de alguma forma, em qualquer fase da vida estão aprendendo algo. A vida é um constante aprendizado. Mas ninguém está isento ou blindado de críticas.
Enfim, eu entendo seu ponto, mas acredito que consciente ou inconscientemente ele foi tendencioso em certos argumentos. O fato de ser tendencioso não é um problema, é seu ponto de vista, tem que ser tendencioso mesmo. Mas talvez isso tenha resultado em algumas falácias (não estou falando em sentido pejorativo) ou argumentos com sustentação fraca ou sem sustentação alguma em alguns trechos.
Também notei, pode ser apenas impressão minha, um certo antagonismo na questão, colocando sempre “Adultos versus Crianças” e, talvez, tentando colocar na maioria das vezes um exemplo de falha no comportamento de adultos para justificar ou isentar o comportamento de uma criança. Acho que este não é o caminho (se minha percepção foi correta).
Quanto às empresas citadas, a princípio, não acredito que estejam interessadas no Discurso do Ódio. O que existe é uma fatia de mercado dando sopa, pronta para ser abocanhada pelos marketeiros. As empresas se apropriam até mesmo de pautas progressistas, não necessariamente, por apoiarem determinadas minorias, mas por enxergarem que tais minorias consomem. Aliás, muitas empresas adoram crianças, mas devem odiar as leis de restrição de propaganda destinada ao público infantil.
Enfim, não estou dizendo que você está querendo manipular, que está mal intencionada, nada disso. Só achei que, talvez, o texto tenha algumas argumentações fracas ou falaciosas, não sei também se foi escrito em um momento de catarse ou algo parecido (não estou menosprezando, pois eu mesmo faço isso, às vezes).
Sobre a questão de educar a criança e de que essa seria uma tarefa não só dos pais, mas de toda a sociedade, isso me fez lembrar de um ótimo documentário chamado “O Começo da Vida”, que traz uma frase marcante algo como “é necessária uma vila inteira para criar uma criança”.
Acho interessante sua atitude da visita ao Museu com as crianças utilizando transporte público. É importantíssimo para a formação de um verdadeiro cidadão (Aliás, me recordo de uma vez, que vi um idoso e seu neto no ônibus. O primeiro o ensinando como dar sinal, a ceder o lugar para uma pessoa idosa ou com deficiência etc.). Assim como acho importante que a criança aprenda a ouvir “não”. Se ela não ouvir em casa, dos pais, com certeza ouvirá “lá fora”, da vida. E, quanto antes tiver consciência disso, melhor desenvolverá seus mecanismos de superação de adversidades, consciente de que não pode submeter todos à suas vontade, que existem limites para o convívio social salutar etc.
Não sei se você já escreveu sobre, mas outro tópico polêmico é a respeito da restrição de crianças quando uma família vai alugar um imóvel. Me recordo de uma notícia de uma mãe que passou a morar sozinha no imóvel e teve de deixar seu filho morando com a avó. Do ponto de vista legal, não se sustenta, mas é um prática existente.
Mas, fechando este comentário que virou “textão” (mas me dê um desconto, lembre-se que li “tudo”: post, comentários e links) acho que a respeito da questão maior que podemos chegar está em duas palavras citadas nos comentários da Marina e Bianca: Respeito e Empatia.
Assim como devemos respeitar e nos colocar no lugar destas crianças (lembrando que já fomos crianças um dia), também é necessário que a recíproca seja verdadeira. Pense nas pessoas que sentem a necessidade de silêncio, tranquilidade. Imagine um hospital com pessoas internadas que precisem de repouso. E a respeito da Empatia, deixo este trecho de “O Sol é para Todos” (Harper Lee), onde o advogado Atticus Finch ensina o conceito de empatia para sua filha, criança, Scout:
— Em primeiro lugar, Scout — ele disse — , se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo o tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.
— É?
— Precisa se colocar no lugar dela e dar umas voltas.
PS: E me perdoe, Carol, se porventura não tiver me colocado em seu lugar e dado algumas voltas, mas saiba que eu tentei.
