
Arte de rua: a voz dos muros da cidade
Graffiti e outras técnicas de pintura são usados como forma de reivindicação intervenção
Intervenção. Essa é uma palavra usada por muitos artistas para descrever o objetivo do grafite — uma arte urbana que consiste em pintar espaços públicos em superfícies que não foram criadas para isso, como paredes e muros. Por ficar exposta em lugares de fácil acesso, ela pode transmitir mensagens para muitos. Por isso, muitos artistas fazem uso dessa técnica para intervir no cotidiano das pessoas, com desenhos que alegram, instigam, reivindicam, protestam, empoderam. De diferentes cores, tamanhos, traços e temáticas, o grafite está presente nas ruas de Joinville.
A arte urbana tem um papel fundamental de transformação social, pois é uma forma mais fácil e rápida de propagar uma ideia. É nisso que o artista e tatuador Roberto Loffler (conhecido como Betinho RL) acredita. Betinho, que sempre teve facilidade para desenhar, começou a se interessar mais por isso aos 16 anos. Hoje, com 28, ele faz parte de um coletivo muralista de Joinville, o Pinte e Lute, e os desenhos têm como referência os murais chilenos — traços grossos, com bastante presença das cores vermelha e preta, que abordam temáticas sociais. Os artistas do coletivo pintam temas pontuais e políticos, como críticas à redução da maioridade penal, à terceirização do trabalho e à violência de gênero.

Betinho contou que é comum a polícia parar quando está grafitando, então ele costuma pedir autorização para pintar alguns muros. “Mas nem sempre conseguimos a autorização, dai é meio que na sorte mesmo”, explicou. Para ele, uma das dificuldades de fazer grafite é o incentivo do governo. “Quase nunca rola. Quando há uma possibilidade, rola muita burocracia, é sempre uma chatice pra conseguir”, desabafa. Por isso, ele conta que é melhor não esperar ajuda do Estado, pois a cidade sempre tem lugar para pintar. “Mas rola um incentivo quase sempre positivo por parte da população para com a arte, e isso é o que incentiva mais”.
Em Joinville, uma das formas de conseguir apoio financeiro do governo é pelos editais do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (SIMDEC). A Fundação Cultural de Joinville lança os editais anualmente, e os interessados em participar inscrevem seus projetos e concorrem à verba. De acordo com a lei Nº 5.372 (dezembro de 2005), os projetos precisam ser das áreas de artes gráficas, artes plásticas, artesanato e cultura popular, bibliotecas e arquivos, cinema e vídeo, circo, dança, edições de livros de arte, literatura e humanidades, literatura, museus, música e ópera, patrimônio cultural, radiodifusão cultural ou teatro para receber os benefícios.
“Eu acredito que a arte urbana tem a capacidade de tirar as pessoas do cotidiano muitas vezes tão cansativo. De te fazer refletir sobre o mundo”. Essas são as convicções da artista Alice de Aguiar, de 27 anos. Ela começou com o grafite há um ano, e costuma fazer desenhos utilizando tinta spray e acrílica — principalmente rostos e flores. Alice afirma que a arte de rua é acessível a todos: ninguém precisa comprar ingresso para apreciar. Por isso existem trabalhos de alguns grafiteiros que são extremamente políticos — muitos até censurados. “Quem faz graffiti geralmente tem esse intuito: manifestar-se através da arte e levar uma mensagem positiva ou crítica para quem for aprecia-la”. A artista problematiza também a questão do pixo, que é muito desvalorizado. “Há quem o defenda, pois é a forma de manifestação que algumas pessoas encontram. É feito geralmente por pessoas mais humildes”, explica.
“Eu acredito que a arte urbana tem a capacidade de tirar as pessoas do cotidiano muitas vezes tão cansativo. De te fazer refletir sobre o mundo”. Alice de Aguiar
Alice, que é mãe de duas meninas, não costuma receber muito apoio na hora de grafitar. Ela conta que, quando os grafiteiros são convidados a pintar num comércio ou num evento, às vezes recebe em dinheiro. Ela só recebeu uma vez, em tinta. Por isso, não consegue fazer da grafitagem uma profissão. “Eu deixo minhas pequenas em casa, já passei alguns fins de semana me dedicando num muro e não recebi nada em dinheiro”, afirmou. Mas a artista sabe que alguém vai passar pela pintura, parar e captar sua mensagem. Para ela, saber que pode fazer a diferença na vida de alguém vale muito. “Sem falar na atmosfera do graffiti. Só quem já pegou um muro num sábado de sol, junto aos amigos e passou a tarde toda se sujando de tinta sabe que isso não tem preço”, declarou.
A dedicação dos artistas de rua é recompensada quando a população reconhece a importância dos seus desenhos. Uma das pinturas que mais impressiona o estudante Arthur Mallmann, de 19 anos, são os graffitis do antigo prédio da prefeitura, na rua Dr. João Colin. Ele gosta desses desenhos por causa da técnica — em 3D — e por juntar estilos diferentes de graffiti bem próximos. Arthur acredita que esse tipo de manifestação artística faz muita diferença em Joinville, pois cria uma identidade para a cidade. “Isso quebra a mesmice do concreto simples, dos canteiros e casas comuns a todas as cidades”, explicou. Já a estudante Bárbara Poerner, 18 anos, se sente representada, como se fizesse parte da rua e dos movimentos culturais que pulsam na cidade. Ela lamenta a quantidade de desenhos que Joinville traz, pois não é sempre que cruza com algum deles na rua. Entre suas pinturas preferidas estão os murais do coletivo Pinte e Lute. “A arte urbana reflete acontecimentos, lutas, o cotidiano. É um veículo de comunicação não verbal incrível e essencial”, finaliza.

Colagem também é arte de rua
Além do graffiti, existem muitas outras maneiras de produzir arte para a rua. Uma delas é o lambe-lambe — desenho que é feito primeiro no papel e só depois colado nos espaços públicos. O Coletivo Chá é conhecido em Joinville por colorir o cinza das construções da cidade. Composto por cinco artistas, o coletivo é a junção dos projetos artísticos das meninas e já ganhou um edital do SIMDEC, em 2011, para realizar oficinas de lambe-lambe em escolas públicas. As meninas do coletivo não costumam colar em espaços privados, por isso não precisam pedir permissão. A maioria dos desenhos fica nas caixas cinzas de telefone na rua, pois são pequenos.
A ilustradora e diretora de arte Fernanda Sponchiado, de 31 anos, faz parte do coletivo e costuma desenhar personagens de universos encantados, com olhar marcante e sonhador. Ela gosta de ilustrar seres que não existem para que as pessoas possam ver o mundo de um jeito mais criativo e lúdico e usa isso como crítica ao mundo cheio de problemas e preocupações. A ilustradora acredita que a arte tem o poder de transformar a vida de quem faz, de quem aprecia e também de mudar a paisagem urbana. “Um desenho é cheio de significados. Para mim, que colei, é como se eu repartisse um pedacinho de mim com outras pessoas que o recebem”, explica. Cada artista usa uma forma diferente para espalhar sua mensagem, mas todos precisam se expressar.
“Anônimos que enxergam no espaço público um meio de compartilhar seus pensamentos. A cidade só se complementa, pois é feita de pessoas diferentes, mas que estão imersas em assuntos comuns — e instigar a reflexão de diversos temas é sim uma transformação social”. Fernanda Sponchiado
A ilustradora Mariê Balbinot, que também faz parte do Coletivo Chá, acredita que a arte tem o poder de dar um momento de férias para o transeunte. “Através de cores e formas podemos proporcionar esperança em um sorriso provocado na interação com quem a percebe”, explica. Mariê desenha conforme o que acontece na sua vida, mas geralmente são cabeças de meninas ou animais — pois tem envolvimento com a causa animal. Ela não costuma assinar suas ilustrações na rua, mas afirma que seu traço é a assinatura.
Assim como Betinho e Alice, Mariê acredita que a arte de rua pode ser agente de transformação social. “Ela é democrática e seu publico independe de classe social. Está ali para todos”, explica. Mas ela e Fernanda reclamam da falta de incentivo à cultura. Apesar dos editais do SIMDEC, Fernanda acredita que o incentivo público é pouco se comparado ao tamanho da cidade. As iniciativas privadas é que vêm aumentando, com eventos que reúnem artistas e designers, como o Inconsciente Coletivo.
