DESABAFO NO MONTE CÁUCASO

Um dia desses, quando claramente eu estava bem mal
 — DE NOVO — ,
 em meio a um papo desses de rotina,
cheio de desânimos e carente de novidades,
me falaram, em aparente sinceridade
e com o coração (pelo menos em parte) aberto:

Eu tô aqui pra te ouvir. Desabafar ajuda. Não quer falar sobre isso?

E eu, obviamente,
vendo alguém se dispor a me socorrer
das trevas que me consomem 24/7, 
dos meus corvos de Prometeu,
cogitei o grito.

Me escute, sim, por favor!”, pensei.

Até lembrar que 
as águias de hoje
são as mesmas 
daquelas de ontem, 
que são iguais 
ou muito parecidas
com as da semana passada. 
E que, quase com certeza, 
sem muita ou qualquer dúvida,
em todo esse meu aviário 
provavelmente não há sequer 
um pássaro com menos de 10 anos de idade.

Pois sim: dos castigos que me dilaceram os órgãos internos, 
não há quase nenhum que não me torture há mais de uma década.

Uma década! 
Você sabe quantos pássaros novos dá pra criar nesse tempo? 
Quantos já deveriam ter morrido? 
Não que eu seja um especialista em animais, 
mas sinceramente,
não consigo largar a certeza de que 
uma gralha que só me grita

“SAIA DA CASA DOS SEUS AVÓS!
SEUS PAIS JÁ MORAM AÍ E NÃO DEVERIAM!
NINGUÉM AÍ RESPEITA PRIVACIDADE,
E VOCÊ PRECISA DISSO!”

já era pra ter morrido
há pelo menos uns cinco anos,
se não mais.

Mas vou falar isso? 
Vou falar disso?
Não. Não mais. Pra ninguém.

O problema dos desabafos,
em casos assim,
é que, quando você fala de aves o tempo todo, 
a atenção de quem se presta a te ouvir
vai embora voando.

É ele falando daquilo outra vez.
Lá vem ela, reclamando disso de novo.

O lance com desabafos desses
é que, quando você reclama demais de algo
 — quando você reclama por tempo demais de algo — , 
as suas correntes já não parecem 
tão pesadas pros outros
quanto elas, de fato, são.

Chego a me perguntar: 
será que eles imaginam 
o peso que o tempo dá?

O difícil com esses desabafos
(e esse só quem está preso aos tais “problemas de sempre” sabe)
é que, a cada vez que você fala das tuas merdas, 
ao invés de se ver livre de um fardo,
na verdade só se vê mais preso à elas.

É quase como ser obrigado 
a ver como sua vida ainda é limitada
por aquelas amarras de sempre.

É ser derrotado de novo
por um inimigo velho
toda vez que alguém que você ama 
tenta te salvar dele.

Por isso,
amigo, amiga, paixão e família,

quando digo que não quero falar nada,
quando deixo de compartilhar minhas dores,
quando meu choro é quieto ou escondido,

entendam:

o problema não são vocês,
e a intenção é apreciada.
Mas a cada desabafo feito
meu fígado leva uma nova fisgada.