Pai, não me esqueço de você!

Quando alguém me pergunta sobre meu pai, digo que convivi muito pouco com ele, e isso é a pura e dolorosa verdade.

Francisco nas categorias de base da Portuguesa (anos 1950)

Perdi meu pai para o vício dele com o cigarro, aos 49 anos de idade, quando ele poderia ter toda uma vida pela frente. Não foi fácil para mim e muito menos para a minha mãe, mas sua morte chegou como algo há muito esperado.

Os últimos cinco anos de vida do meu pai, de 1987 a 1992, foram de um sofrimento contínuo para ele. O péssimo hábito de fumar, que trazia desde jovem, fazia com que ele fumasse até três maços por dia. Era o amigo (da onça) inseparável dele.

Lembro-me de uma consulta médica que o acompanhei onde o cardiologista disse ´se o senhor trocasse o cigarro pelo álcool, ia viver um pouco mais´. Mas a sugestão foi em vão.

Minha mãe dizia que antes de eu nascer que meu pai, por ter problemas de fertilidade, havia prometido que quando eu viesse ao mundo pararia de fumar. E parou! Durou uma semana…

E as promessas pelo fim do cigarro o acompanharam por todo o resto de sua vida, sem jamais ter obtido qualquer êxito.

Quando adolescente não combinava muito com as ideias de meu pai e vivíamos às turras.

No futebol magoado com a Portuguesa, que o dispensou quando se contundiu, torcia para o Corinthians. Já eu seguia (e sigo até hoje) a tradição lusitana da família e me mantinha fiel ao time de meus avôs. Eu era proibido de frequentar o Canindé quando criança.

Na política meu pai era de direita, gostava dos militares e era fã de Maluf e Jânio Quadros. Eu, por outro lado, tinha fascinação pela União Soviética.

E as diferenças não eram só essas, tinham muitas outras que nos levavam muito ao conflito, para a angústia de minha mãe que era o fiel da balança da relação.

Apesar de todas essas crises e confrontos posso dizer que meu pai foi meu primeiro super herói.

Meu pai (lado esquerdo) quando era mecânico na fábrica da Vigor (leite)

É preciso ser um verdadeiro herói sem campa para lutar oitos contra a infertilidade só para que eu pudesse vir ao mundo. O tratamento no final dos anos 60 era importado da Holanda e custava tão caro que custou a venda de seu lindo Aero Willys zero quilômetro.

Depois chegou a passar grave crise financeira no início da década de 1980 e mesmo faltando tudo para ele, não deixou de pagar a minha escola — um colégio de freiras — para que eu não tivesse que ir estudar no Estado.

Depois para sustentar a família durante os recessivos anos 1980 fez de tudo um pouco, mesmo doente. Foi vendedor de café, vendedor de laticínios, dono de armazém, dono de padaria e de granja (que foi seu último trabalho).

Meu pai (ao centro) em sua padaria no bairro do Limão em 1983 (bons tempos)

A granja chegou em 1987 e foi o que nos tirou da crise financeira que assombrava a família desde 1981. E ai passamos a ter uma vida estável, mas meu pai não era mais o mesmo.

Consumido pelas doenças causadas pelo tabagismo, meu pai tinha apenas 30% de um pulmão ainda funcionando bem. Em decorrência disso tinha coração dilatado, problemas renais, circulatórios e até falta de oxigênio no cérebro vez por outra.

Sua caixa de remédios era uma mini farmácia de tantos os medicamentos que consumia, mas a cada comprimido que engolia era brindado com um novo efeito colateral. Nada parecia resolver.

As internações hospitalares, antes semestrais, passaram a ser mensais depois quinzenais, até chegar o dia em que meu pai foi e nunca mais retornou.

No final da década de 1970, quando era vendedor do café Moka

Foi em 4 de agosto de 1992, por volta das 16:00, que três paradas cardíacas seguidas levaram o pouco da precária saúde que meu pai ainda tinha. Era o fim do garoto que sonhou em ser boleiro, mas que morreria consumido pelo cigarro.

Talvez por isso eu nunca tenha fumado…

Aos 17 anos fiquei sem pai. Claro, a vida de quem cresce desde garoto(a) sem pai deve ser muito pior. Mas ser privado de um justamente no meio da caminho pra vida adulta me deixou cheio de dúvidas que eu não tive quem as respondesse.

Até hoje quando um acumulo um fracasso ou conquisto um sucesso me pergunto: o que meu pai diria ? Infelizmente desde 1992 que essa resposta não existe pra mim.

Nesse dias dos pais, se você o tem a seu lado abrace-o. Pois em muitas famílias haverão aqueles que jamais poderão fazer o mesmo que você.