Minha história com o bordado

Texto escrito para o início de uma série de relatos na página da Nectarina.

A vida toda assisti a minha avó materna bordando. Nas situações onde todos estavam juntos, em família, conversando, curtindo: ela bordava. Segundo ela, aprendeu a bordar na escola, na época em que as moças faziam ginásio para dois destinos: serem donas de casa ou professoras.

Eu sempre fui aquele tipo de criança curiosa. Não ficava perguntando coisas mas ficava de olho, encarando, na volta de quem estivesse fazendo algo que me interessasse. Não lembro com precisão a idade (imagino que por volta dos 9 anos) comecei a ficar assistindo mais de perto a minha avó bordando a ponto de deixá-la desconfortável. Em um momento, de saco cheio da minha curiosidade, ela resolveu ensinar .

Em uma fronha de algodão, com um desenho de uma menina, umas flores e uns patinhos, fiz meus primeiros pontos. Minha avó me ensinou o ponto corrente e com ele fui fazendo o possível. Até hoje ela chama os pontos de formas aleatórias, nomes que eu nunca achei equivalentes em livros ou na internet. Então, fora o ponto corrente, não saberia dizer que outros pontos ela me ensinou na época. Lembro sim de tentar fazer o rococó e estragar muitas linhas tentando imitar os movimentos dela com a agulha.

Pouco tempo depois começou a moda do Ponto Cruz (ah, os anos 90…) e minha madrinha começou a bordar. Ela aprendeu a técnica comprando revistas de artesanato e não demorou muito até eu insistir para que me ensinasse. Meu primeiro ponto cruz foi uma toalha de mão, com flores em azul marinho e bordô. Lembro até hoje que errei na contagem e fiz a última flor no lugar errado — já começava aí o meu discurso de aceitar os erros do bordado, vendo cada um deles como parte do aprendizado.

O único curso de bordado que fiz foi no final dos anos 90 em uma loja de artesanato que ficava na Cidade Baixa. Aprendi o avesso perfeito em ponto cruz com uma professora bem malvada que me fazia desmanchar tudo que estivesse na horizontal. Nessa época fui apresentada as canetas que riscavam em tecido e que saíam na primeira lavagem — hoje qualquer canetinha faz isso.

Com o ponto cruz fiz muitas peças: panos de copa, toalhas de mesa, de mão, de rosto e de banho, que foram presenteadas ou vendidas. Fui tão pilhada com bordado que na sexta série já queria ensinar minhas colegas de escola (a Nana é testemunha ❤). Tanto bordei que, segundo a minha mãe, ajudei a pagar minha festa de 15 anos com essas vendas. Não tenho recordação disso, mas se ela diz eu não duvido.

Por volta dos 17 anos, com a pressão do vestibular se aproximando, acabei parando com o bordado. Depois de adulta lembro de buscar pelo material só quando queria presentear alguém e sabia que teria tempo para fazer algo legal, personalizado, que fosse de fato agradar.

Hoje, lembrando algumas escolhas da vida, reconheço a presença do bordado mesmo depois da febre ter passado: o primeiro curso que considerei fazer vestibular era artes plásticas/visuais — acabei não fazendo por medo da prova prática de desenho e me arrependo; cursei técnico em decoração de interiores — e abandonei o curso para estudar para o vestibular; teoria das cores, composição, regra dos terços, muitas teorias que depois vim reaprender e usar na fotografia eu já sabia lá do bordado.

Em 2015 uma amiga pediu que ensinasse bordado a ela e o resto da história vocês já sabem.

Sobre minhas professoras: Nos últimos meses um problema de visão acabou forçando uma parada nas atividades de bordado da vó, mas até o início desse ano (2016) ela ainda fazia babeiros para recém nascidos em cambraia, com pontos miudinhos em linha varicor. Minha madrinha parou com os bordados faz uns anos.

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