Review do Tozinho #6–20 anos do Rei Leão

O Rei Leão (The Lion King)

Sem a Disney, minha infância não teria sido a mesma. Sou da geração de 1994 — ano do lançamento de “O Rei Leão” — e acredito ter sido privilegiado por vivenciar a chamada “Era de Ouro” da Walt Disney. A empresa alavancou assustadoramente a qualidade de seus filmes em 1989 com o lançamento de “A Pequena Sereia”, um clássico que muitos assistiram. Assim que os anos 90 chegaram, a Disney começou a criar um filme melhor que o outro. Foi assim com o impecável “A Bela e a Fera” — um dos meus favoritos da Disney, depois com “Aladdin”, “O Corcunda de Notre-Dame”, “Hércules”, “Mulan” e “Tarzan”. Entretanto, apesar de serem filmes excelentes, nenhum conseguiu atingir o grau de sucesso que “O Rei Leão” conquistou. Hoje é considerado um clássico. Suas cenas definiram uma linguagem inédita e as músicas tornaram-se inesquecíveis. Definitivamente, uma obra-prima de uma nova era.

O sol nasce no horizonte da savana africana. Os animais acordam e começam a se mobilizar. Um dia histórico está para acontecer. Chegando a Pedra do Rei, a cerimônia para comemorar o nascimento do leãozinho Simba, o filho do rei, começa. Tudo se aquieta novamente. O ciclo da vida continua. Mufasa confronta Scar, seu irmão traiçoeiro e pede explicações sobre sua ausência na cerimônia. O leão ignora a afronta de seu rei e continua a bolar uma tramoia para ocupar o trono de Mufasa. Alguns meses se passam e Simba cresce, mas continua filhote. Scar sabe que para assumir o posto de rei, precisa eliminar pai e filho. Enganando o pequeno sobrinho, o leão pede que espere no desfiladeiro para presenciar uma surpresa. As hienas, aliadas do vilão, estouram uma manada de gnus que correm direto ao encontro de Simba. Para tentar salvá-lo, Mufasa dispara em direção ao desfiladeiro e acaba assassinado pelo próprio irmão. Seu filho consegue fugir, mas graças a alguns acontecimentos durante os anos de seu exílio, Simba jura retornar e salvar a Pedra do Rei do governo tirano de seu tio.

A história que encanta gerações

O roteiro de “O Rei Leão” é um caso surpreendente de cooperação. Pasmem, mas foram vinte e nove envolvidos para entregar esta história inesquecível. Porém, os responsáveis pela adaptação da narrativa para as telonas foram três, Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton. O que sempre me encantou nas histórias dos filmes da Disney eram seus temas-base. Não importava se fosse uma adaptação brilhante de um romance como “A Bela e a Fera” e “Pinóquio” ou se fosse uma visão mais romântica de um ditado/senso-comum como neste caso — o leão, o rei da selva.

Os filmes da Disney sempre tiveram uma característica muito interessante. Até hoje, auxiliam na formação da ética, moral e dos valores do espectador juvenil. Mufasa é a introdução perfeita para isso. O personagem sempre mantém um discurso didático durante o filme. As lições de vida que ele dá para Simba refletem diretamente na plateia — “O Ciclo da Vida” também serve para todos nós. Os roteiristas também sabem fluir a história com maestria. Não perdem tempo com muitos conflitos na narrativa. A ousadia marca o texto do filme. Esta foi a primeira vez que a Disney abordou a morte de maneira tão explícita e sensível — em “Bambi”, a morte da mãe do protagonista é sugerida para o espectador que toma aquilo como verdade.

A subjetividade também marca o texto de “O Rei Leão”. Ao retirar Mufasa da narrativa, deixam implícito que, mesmo com a posição social, a bondade, a paternidade e, principalmente, a invulnerabilidade do personagem, a morte não faz distinção entre valores e riqueza ao dar seu abraço fúnebre. A partir de então, a história se baseia na tragédia e, mesmo assim, a alegria e a superação aparecem. Isso acontece com a introdução tardia de Timão e Pumba na história, que conseguem inserir a comédia inesquecível dos personagens. Porém, o reerguer emocional de Simba também acontece por causa da dupla, deixando claro que a superação das piores adversidades só é possível com o afeto e amparo dos amigos mais queridos.

Com a companhia de Timão e Pumba, Simba vive sua adolescência — idade perfeita para o “Hakuna Matata”. Essa falta de amadurecimento é evidente na dupla de amigos. Timão é arrogante e orgulhoso ocasionando uma espécie de guilty pleasure no espectador, porém é companheiro, leal e protetor. Já Pumba é ingênuoem excesso. Se não fosse por Simba, os dois continuariam desamparados e renegados pela sociedade — outra crítica expressiva do roteiro apaziguada pela comédia. Entretanto, o personagem mais impressionante do filme inteiro é o macaco Rafiki. Através dele, os roteiristas passam a mensagem mais bonita do filme inteiro. Ensina Simba a lidar com a dor e a morte e, consequentemente, a superá-las, inclusive a grande culpa que acompanha o protagonista. Entretanto, isto tem um custo. Repare que o protagonista segue um caminho cheio de obstáculos ao atravessar um bosque lotado de árvores velhas para sofrer a epifania necessária. Assim como quando Luke enfrenta seu maior medo na caverna de Dagobah, Simba encontra o pai para achar sua redenção. É exatamente esse o maior trunfo do roteiro. Essa interdependência entre os personagens retrata uma sociedade em perfeita harmonia e cooperação.

A história do filme é baseada na tragédia “Hamlet”, escrita por Shakespeare em 1599. Enquanto os outros animais vivem em paz, a família de Mufasa é perturbada pelo maléfico Scar. O conflito familiar entre os dois irmãos é deslumbrante apesar de ser introduzido apressadamente. Scar apenas anseia pelo poder “monárquico” do irmão e tenta de todas as maneiras consegui-lo. O maniqueísmo exacerbado sempre foi uma característica notável da Disney. Repare. Os protagonistas bondosos sofrem uma perda significante, amadurecem e resolvem seu conflito interno e externo. Já os antagonistas são caricaturais em excesso, além de sempre apresentarem os piores aspectos da natureza humana. Tomemos Scar como exemplo, então. É egoísta, oportunista, hipócrita, cruel, traíra, desonesto e preguiçoso. Ele se aproveita do sobrinho ingênuo e das hienas famintas e ignorantes para atingir seus objetivos. Entretanto, mesmo perspicaz e esperto ao conseguir saciar seu desejo de poder, Scar não consegue manter o equilíbrio no ecossistema da Pedra do Rei graças ao predomínio de predadores.

É inacreditável o nível de subjetividade que essa história contém. Se o espectador comparar o reinado de Scar com o de Mufasa, perceberá ideais muito claros. Mufasa é capaz de manter a ordem no vale através do equilibro perfeito entre sua coerção e consenso. Os animais se respeitam mutuamente e entendem sua participação no “ciclo da vida” garantindo um sentido praticamente utópico ao governo. Porém, Scar, mesmo gracioso em manipular terceiros, é incapaz de governar sem o auxílio de leis, exprimindo uma grande falta de pulso e percepção da realidade. E mesmo assim, o antagonista é incapaz de recuperar a devastação que seu governo causou ao ecossistema.

Apesar de não contar com personagens antropomorfizados, a história de “O Rei Leão” nunca deixará de ser uma fábula. Os roteiristas miscigenam diversas emoções humanas com a natureza selvagem dos animais. A empatia que os espectadores desenvolvem com os personagens é proveniente disto. A forte paixão entre pai e filho, o primeiro amor, a misericórdia diante do inimigo, a amizade dos amigos, a adaptação a novos ambientes, o medo da perda e da dor, o abraço terno e o protecionismo paterno são meros exemplos disto. Interessante foi a decisão de dar pouco destaque para as personagens femininas da história. Sarabi, mãe de Simba, é irrelevante e Nala funciona como um catalisador para a breve epifania do protagonista.

A estética da animação é perfeita. Absolutamente todos os cenários ou no termo mais apropriado, landscapes, são belos e majestosos. Sempre enormes, metaforizam o ego inflado do jovem príncipe. Após a morte de Mufasa, tornam-se menores, além de contar com um excesso de elementos no jogo de cena. O espaço fica reservado e levemente claustrofóbico. Essas interessantes características denotam a retração e insegurança de Simba que não encontra saída para seu conflito. Entretanto, depois da epifania catalisada por Rafiki, os landscapes da Pedra do Rei continuam grandes, porém fotografados em planos bem menores onde nunca é possível avistar o horizonte. Somente no final do longa, os cenários grandiloquentes retornam.

“O Rei Leão” marcou época por utilizar diversas técnicas novas em sua animação e algumas características fotográficas pouco habituais em desenhos animados. A Disney apresentou a maior gama de expressões faciais em uma animação até então. São feições extremamente bem construídas, fluídas, naturais e competentes em transmitir as emoções dos personagens. Fora isso, os animadores têm um cuidado notável ao tratar expressões de muitos personagens ao mesmo tempo. O uso da computação gráfica ganhou destaque e prestígio no campo das animações após o sucesso gerado por “Toy Story” em 1995. Poucos sabem, mas “O Rei Leão” foi um dos pioneiros ao introduzir a utilização de CG em suas cenas.

Cinco animadores especializados em computação gráfica trabalharam por mais de dois anos para criar apenas dois minutos e meio de animação da cena em que os gnus disparam movimentando-se de maneira imprevisível no desfiladeiro. Os animais eram totalmente digitais. O truque para não deixar a animação virtual explícita foi a introdução inteligente de filtros cel-shaded nos corpos dos bichos. O resultado de todo o trabalho dos profissionais foi espetacular. A cena entrou para a história do cinema graças à perfeição de sua técnica tanto artística quanto tecnológica.

Agora a vez de comentar sobre o genial Elton John chegou. Não é surpresa que a maioria das trilhas que este cara participa entre para a minha lista dos “favoritos”. A maestria apresentada em “O Rei Leão” apareceu novamente nas canções de “O Caminho Para El Dorado”. As canções escritas por John e Tim Rice conquistam gerações de fãs e tornam-se músicas que relembram a infância de várias pessoas. As letras poéticas e criativas completam o fundo musical estupendo.

O interessante é que Elton John arranjou duas versões com letras diferentes de “Circle of Life”, “I Just Can’t Wait to be King” e “Can You Feel the Love Tonight”. A versão cinematográfica é bem distinta da apresentada no álbum do filme, mas ambas possuem uma qualidade extraordinária. A versão apresentada no filme de “Circle of Life” é mais bonita do que a do álbum. Isso acontece por um simples motivo, a voz de Carmen Twillie expressa mais emoção que a de Elton. Além do fato dela contar com o auxílio do backing vocal africano sensacional.

“O Rei Leão” ganhou dois Oscars, Melhor Trilha Original e Melhor Canção Original — “Can You Feel the Love Tonight”. Não há dúvidas que a música do longa é um de seus maiores méritos. Transcende gerações e te conquista para sempre. A prova viva disto é a excelente “Hakuna Matata”. Uma canção que você precisa ouvir somente uma vez para se lembrar pelo resto da vida.

O Retorno do Rei

Sem sombra de dúvida, “O Rei Leão” é um dos melhores filmes da Walt Disney. Sinto orgulho por ter tido a oportunidade de aproveitar uma das melhores fases da Disney. Se não fosse pela magia de seus filmes, minha infância não teria sido tão fantástica como foi. Ele foi remasterizado recentemente com a edição imperdível em Blu-ray. O filme ficou ainda mais emocionante, colorido e vivo do que nunca. Imagino que a versão em 3D já deve ter saído de cartaz, infelizmente. Mas você ainda pode conferir esta versão caso tenha uma televisão compatível com essa tecnologia. “O Rei Leão” é um filme que encanta gerações com sua história maravilhosa e com suas canções que são relembradas até hoje. Ele conta com um grau de subjetividade ferrenho e influi, de alguma maneira, na educação do espectador. Este é um dos filmes que eu terei gosto de apresentar para meus filhos. Agradeço aos que esperaram pacientemente pela análise, mas creio que a espera valeu a pena. E lembre-se: hoje à noite, aqui na selva, quem dorme é o leão.

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