SKYLINE

Quando entrei na empresa não existiam aqueles prédios ali em frente. Só vista livre num horizonte longe e, geralmente, verde e azul. No espaço de um café curto, o primeiro prédio brotou, como um cogumelo brota num espaço quente e úmido, e expeliu seus esporos no que ,uma dia e uma xícara depois, um dia foi minha vista geralmente longe, verde e azul.

Eu em minha cadeira, que num respiro já foi nova e hoje traz um rangido que já é silencio, não percebo o sumiço da vida fora dos limites da prisão de vidro. Quando me viro nos tempos de tempos recomendados para a sanidade, vejo mais e mais prédios, avançando em blocos, em marcha militar. Eu me viro e respiro. Encaro com determinação o que surge em minha mesa na expectativa de, quem sabe um dia, redescobrir a cor do tampo da minha própria mesa. E me permito mais um café defronte a barreira de vidro que me separa do horizonte de hoje, não tão mais longe, sem quase verde e azul distorcido e ilusório de mais vidro que ainda espelha um resto de céu, que no fim da xícara de café, num ultimo repouso em seu pires, espelhará mais prédios. E quem sabe, num próximo segundo, tudo esteja tão perto que eu me veja e não me reconheça, grisalho no reflexo de outro prédio. E morra ao perceber a sincronia nos movimentos. E morra sem antes apoiar a xícara no pires e tudo isso numa mesa quem nem sei se ainda tem tampo.

Não giro mais minha cadeira. Evito os cafés. Me recurvo sobre meu trabalho. Fixei, à altura dos olhos, um postal de um horizonte desbotado que encontrei numa gaveta… fixo.

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