Totalmente (light) Demais

Quando me dizem que Totalmente Demais da Rede Globo é a “Malhação das sete”, eu respondo: é, e é por isso que ela é boa! Não por acaso, Rosane Svartman e Paulo Halm foram responsáveis pela Malhação Edição “Sonhos” e estão estreando no horário das 19h em Totalmente. Os autores trouxeram uma trama focada no público jovem adulto, recheada de juventude, de texto leve, temas engraçados e conectados com a atualidade. Tem romance inocente, tem disputa amorosa, têm bastidores de um concurso de beleza, tem humor, desencontros, ou seja, elementos mais do que suficientes para se fazer uma novela facilmente digerível.

Pois essa trama despretensiosa e leve, praticamente sem violência ou diálogos ríspidos, parece ser o que mais agrada ao telespectador atualmente. Mesmo quando aborda algum tema polêmico, Totalmente não se aprofunda em demasia, não tem a intenção de colocar na boca dos personagens grandes reflexões (como o abuso sofrido pela personagem principal Eliza ou a homofobia que o booker Max precisa enfrentar). Tenho lido muitos comentários de espectadores no Twitter saudando Êta Mundo Bão, atração das seis, justamente por ser uma novela “ingênua”, uma característica tão incomum nos dias de hoje. É como se o escapismo destas histórias mais amenas aplacasse a angústia de viver em um cenário tão turbulento que nos é apresentado diariamente pelos telejornais. Prova disso é que a audiência de Totalmente Demais vai muito bem, obrigado e só cresce desde fevereiro.

Um dos grandes méritos de Totalmente Demais diz respeito a Fábio Assunção, o conquistador Arthur, dono de uma agência de modelos. Quem foi criança ou adolescente nos anos 90 acompanhou a trajetória de Fábio como um dos galãs de sua geração, com posto garantido em papéis de mocinhos e praticamente uma unanimidade entre as meninas. Depois de alguns percalços da vida, Fábio voltou em Tapas & Beijos, mas foi esse seu retorno às novelas em Totalmente que trouxe novo fôlego para o ator. O carisma que Fábio Assunção emprestou para Arthur foi fundamental para dar humanidade ao bon vivant namorador. Mas, claro, o fato do personagem ser bem sucedido também se deve a competência dos autores em construir um Arthur sofisticado, culto e autêntico, amante da poesia.

Entre as referências literárias de Arthur estão Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, passando pelo cronista Rubem Braga. Adoro quando Arthur, para ilustrar qualquer situação ou embaraço romântico, sai recitando poesias. Um romântico incurável!

E ainda pra fechar questão nas referências (gosto sempre de procurá-las nas novelas, amo como a cultura pop vai se retroalimentando): a música de abertura foi uma grande sacada! Você pode torcer o nariz para Anitta, mas a repaginada “Totalmente Demais”, um hit do anos 80 da banda Hanói Hanói, é divertida e nos lembra do melhor (ou seria pior?) do oitentismo. Só pra lembrar que, no mesmo ano de lançamento desta canção do grupo, em 1986, Caetano Veloso não só a incluiu no seu primeiro disco ao vivo como nomeou o trabalho de “Totalmente Demais”.

Destaquei o personagem Arthur, mas também merece ser lembrada a atuação de Juliana Paes como Carolina Castilho, a jornalista de personalidade meio Miranda Priestly. No início da novela, a ambiciosa diretora da revista Totalmente Demais parecia ser um espelho da mulher contemporânea: preocupada com sua carreira profissional, líder exigente, competitiva, mas que vive o conflito do relógio biológico que desperta para uma vontade até então sequer pensada: a de ser mãe. Pena que esse dilema de Carolina foi meio que abandonado por hora na trama, tinha tudo para render bons conflitos. Por enquanto, Carolina tornou-se uma espécie de ex-namorada vingativa, que fica embarreirando o romance de Arthur e da mocinha Eliza. Ou seja, poderia ser menos clichê, né!

O comum seria comentar o papel da protagonista Eliza, vivida por Marina Ruy Barbosa, uma mocinha que de boba não tem nada. O carisma e talento de Marina carregam muito bem a personagem, então vou citar aqui os que mais me surpreenderam. Do elenco jovem: a ingênua e estudiosa Débora (Olivia Torres) e Jonatas (Felipe Simas), o íntegro mocinho que sobe na vida pelo esforço. Do elenco adulto: o divertidíssimo booker/melhor frasista Max (Pablo Sanábio) e o braço direito de Carolina, Pietro (o maravilhoso Marat Descartes, um ator de elogiada trajetória no cinema).

Totalmente Demais é puro entretenimento, uma novela que cumpre com competência o que se propõe: colorida, divertida e urbana, explora temas contemporâneos com a mesma agilidade com que transitamos pelos assuntos das nossas timelines. Como Lulu Santos já cantava há uns 30 anos “hoje o tempo voa, amor…”.

Beijos e até mais!

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