O avesso do avesso

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Saiu de casa atrasado, tinha que correr para tentar entrar na escola antes do primeiro sinal. Odiou ter que largar o livro que estava lendo, mas sabia que sair por aí com ele na frente da cara, na tentativa de ler mais uma linha, era uma imagem patética até para ele. Então, botou o livro embaixo do braço, talvez como um escudo contra o que estava por vir, o que vinha todos os dias. Não percebia, que ao invés de um escudo, o que carregava era, na verdade, um alvo.

Prontos para a zombaria, estavam aqueles que dividiam a sala de aula com ele. Não, não eram seus colegas. Amigos? Jamais.

Os motivos já escaparam ao garoto. Já foi pelo excesso de peso, já foi pelo cabelo, já foi a roupa, as boas notas, o gosto pela leitura. Sempre existira um motivo, que se acumulavam sobre ele, sufocando-o. Uma prisão sem grades. Ele se sentia comprimido, achatando um pouquinho, dia a dia, a cada risada maldosa, a cada dedo em riste.

Neste dia, o garoto havia corrido, e suado. É o que os corpos humanos fazem quando são aquecidos e precisam resfriar. As glândulas cumpriram sua função, encharcando sua roupa. Era evidente a eficiência de sua fisiologia, o risco escuro que marcava a camiseta branca, descia pela nuca, percorria as costas e terminava se alojando entre suas nádegas, marcando seu uniforme de moletom.

Piadas sobre seu rego molhado brotavam de todas as partes. Pareciam vir pela frente, por baixo, por cima. Pressionavam-no. E o garoto foi achatando. O sentimento de impotência, vergonha e humilhação o assolavam, e a cada palavra dita ele achatava ainda mais.

Então, rompeu em lágrimas perdendo o controle sobre si. O choro fez com que a classe aumentasse ainda mais o coro de chacotas. Riam, batiam palmas em regozijo, puro êxtase. E ele achatava, ficou tão comprimido, tão pequeno que emudeceu a todos ao seu redor. E ele achatava. Achatou um pouco mais, até que fez um sonoro “plopt”.

O barulho foi embora, assim como quase toda a luz. Junto foram também as imagens de dedos apontados e bocarras escancaradas em sorrisos ensandecido. Ele só via pele e cabelo em um grande, vermelho e pulsante invólucro.

De tão pressionado e achatado, ele virou do avesso. A cena do lado de fora era repugnante, mas do lado de dentro, pela primeira vez, o garoto se sentia feliz, pois, finalmente, encontrara seu lugar neste mundo.

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