A Obsessão e o Feitiço do Tempo

Argentina, Buenos Aires, Semifinal da taça libertadores da América, 1999. Um jovem de 24 anos não dormiu na véspera, e no dia do jogo não parou de pensar na peleja. Da Argentina a torcida palestrina importou o “y dale alegría alegría mi corazón, la Copa Libertadores es mi obsesión”, e era mesmo: O Palmeiras fez a segunda final da história da copa continental da América do Sul em 1961, perdemos para o Peñarol; em 68, derrota também na final para o Estudiantes de Luis Artime, o “vendo goles”, nosso velho conhecido. Trinta e um anos depois, a chance de uma nova final. Para os outros, o discurso era: vai ser muito difícil, já derrotamos o timaço do Vasco, atual campeão, e ainda por cima despachamos o nosso maior rival, já valeu. Por dentro, a sensação angustiante de: “Tem que ser agora, se não for com Alex, Paulo Nunes, Arce, Marcos e Scolari, não venceremos esse — maldito — torneio. E aquele River Plate era um escrete dos mais temidos: Sorín, Gallardo, Saviola… Era o atual campeão do apertura, e pela maior tradição no torneio, já sendo bicampeão naquela altura, era considerado favorito no confronto.

O Monumental de Núñez me assustou, na época não era possível acompanhar semanalmente o futebol argentino como se faz hoje, e eu não tinha noção da festa que os argentinos costumavam preparar nessas decisões. Naquele momento eu só pensava no nosso Marcos — súplicas ao santo — e tive a certeza que perder de pouco seria uma vitória. Galvão Bueno estava em seu auge, e conseguia interpretar aquela tensão de modo fenomenal: não pisquei por 90 minutos. O jogo foi exatamente como eu imaginava, e como eu imaginava, nosso santo jogou por nós — Marcos garantiu a nossa “vitória”: a sobrevivência.

Quase 20 anos depois, eis-me aqui, acordando em 19 de maio de 99, apesar de toda a tentativa de manter a calma, e a parte de todo o sentimento de revolta com a CONMEBOL, desperto nesse dia cinzento revivendo os meus 24 anos com toda a tensão que tentei evitar. Nessas horas nos lembramos do significado de “inexorável”.

Hoje é guerra para o Boca, esqueçam o jogo da fase de grupos, podemos vencer, mas precisamos, sobretudo, sobreviver. Que São Marcos interceda por nós, agora utilizando-se da metafísica, e que Luiz Felipe nos conduza de volta a São Paulo com a esperança da vitória.

Avanti.