Cante para mim

Cante-me, Iracema. Tenha em teus lábios uma canção que me faça menção pra eu saber que nunca me esquecerás. Eu te carrego agora em meu peito como elemento essencial à vida, como natureza de mim. 
Cante-me, mulher tão simples. Rogai por um reencontro nosso, pois sei que tua prece deve ser atendida. Afinal, que santo recusa a oração de um anjo entoada em canção? Não há no mundo voz mais bela, me tenha em teus lábios como uma certeza de que vou voltar.
Foi por te ouvir que essa noite foi tão longa, um sonho debaixo do céu estrelado, ao relento fiquei ao teu lado, e por minutos pensei haver só nós dois, que cantavas só pra mim. 
Cante-me, como quem galanteia navegantes ao mar. Pois preciso dentro de mim ter a certeza, preciso imaginar convicto que, nessa noite me amou.
Cante-me sem cantar à mim, cante mais pro mundo ouvir o que ouvi por uma noite. Cante com voz potente, rasgante, penetrante, tal qual desta vez que me enlouqueceu, igual ao momento que pensei ser seu, minutos antes de ter que partir.
Cante-me, ó simples mulher Iracema. Cante-me como canto teu nome esperando voltar, esperando o dia de rever e de novo escutar o canto da despedida, o canto que me jogou ao mar. Enquanto isso, acredito sozinho que teu canto era meu e que meu nome saiu mais do que em teus lábios, ele habitou teu coração. Cante-me mais, que eu volto pra te ouvir.