Mais um Silva

Eu tinha um sonho de crescer, de ficar rico. Ajudar minha mãe meus parceiros antigos, mas sabe como é a vida, a gente cresce e tudo fica uma merda, nada da muito certo, nada é muito reto e eu, sou mais m torto nessa estrada.
Aprendi pegar numa arma aos 12 anos, eu sei, comecei tarde. Parece que não tinha Deus na minha casa, ou então os brancos covardes que andavam com a Bíblia não tinham coragem de falar pra mim. Quem queria conversa com o menino sujo da favela? Um cara quis, me deu segurança e disse que agora eu era o filho dele, o seu nome era China, dono do tráfico na minha quebrada. E eu que sonhava com um futuro de riqueza, aos treze já tinha condição de pôr o pão na mesa.
Cresci, virei um grande homem, um grande homem mau, sem coração, sem oração e sem perdão pra ninguém, matei muita gente por não ter o que fazer. Matei o China, foi a gratidão por ter me ensinado demais. Não quero entrar em detalhes, mas não foi falta de oportunidade, escapei de Satã mais de uma vez.
Hoje eu falo essa língua pesada, dou o papo que na minha quebrada quem manda sou eu. Mas não quero essa vida pra ninguém, hoje os homi tão chegando no meu barraco, estourou, a casa caiu pra mim, a casa caiu em mim. Eu era moleque e sonhei demais, quando acordei já tinha sangue nas mãos e uns polícia correndo atrás. Botei o pão na mesa, mas matei minha mãe de desgosto, meu pai nem olha meu rosto, cresci e fiquei rico, mas vejam só, é tudo uma merda mesmo, andei pelo caminho torto e hoje é o fim da estrada. Sonhei certo, mas corri errado, leiam essa carta no meu funeral. Sou um moleque sonhador que virou um marginal. E se der, me levem ao menos flores. Fui.

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