O Monstro, o Demônio e o Homem

“Em mim mesmo me confundo. Nada me perturba mais do que meus pensamentos. Sou o dono do monstro que habita no meu interior. Sou mais que um gerente das minhas loucuras, sendo eu a casca para meus devaneios. 
 Sou meu próprio criador.”

O Monstro

Noite de domingo, é tudo que sei. As coisas passam pela minha frente estou meio dislexo, relaxado, vejo tudo rodando, os carros, as árvores, a rua. Sinto uma leve distorção no tempo, não sei o que houve, não sei o que fiz não sei quem sou.

Vejo uma rua estreita, becos escuros, nada muito nítido, nada com muita cor, os sons existem, mal escuto meu próprio pensamento, nem sei se estou pensando. Não tenho muita noção de onde estou a não ser pelo fato de que sei que estou no chão.

Vejo flashes na minha memória, não sei se são lembranças ou alucinações, espero que isso acabe logo, não estou em condições de sobreviver. Está ficando mais escuro, meus olhos estão fechando, parece que agora consigo me lembrar…

Quem fui eu nessa vida? Um ser humano comum, ou quase isso. Apenas mais alguém que sabia da existência dos seus próprios demônios e não fazia questão de controlá-los. Com isso, você é claro que entende que estou falando dos meus problemas e meus lados ruins. Mas quem disse que no ser humano existe um lado bom?

Era segunda-feira de manhã, eu estava trabalhando como em todos os outros dias, era um dia comum, ou era pra ser, as coisas começaram bem difíceis, logo pela manhã, o chefe da fábrica pediu para que acelerássemos a produção, isso significa mais trabalho. Nunca me conformei com nada errado, mas era obrigado a aceitar, precisava do dinheiro. Trabalhei duro o dia inteiro, fui descansar depois.

Era tarde, cerca de 18h, saí, fui para um barzinho, sozinho, sempre sozinho, companhias me desagradavam, nunca cri no conceito de amizade, pra mim era apenas troca de interesses. Pessoas são como peças de xadrez, seus valores são pelas suas posições e não pelo que são feitas, afinal somos comuns, o que vale é quantos estão embaixo de nós, isso diz quem somos.

Mas voltando, tomei algumas bebidas, queria esquecer aquele dia estressante e me preparar para o próximo. Adormeci e amanheci em casa, talvez o dono do bar soubesse onde eu morava e tivesse me levado pra lá, isso não foi bondade, foi troca de interesses, ele sabia que eu voltaria lá para beber. Pena que se enganou.

Como disse, amanheci em casa, 4h30 da manhã, despertador com um som irritante de um galo, só assim acordaria disposto, eu tinha raiva durante 24h por dia. Levanto, me olho no espelho e vejo a face mais comum que já vi na vida, a minha, a do homem, a de um louco. Barba crescida, cabelos embaraçados e crespos, sobrancelha grossa, olhos castanhos claros com olheiras de quem já não dorme de propósito a muito tempo. Um olhar frio, inexpressivo, sem reação, um robô.

Terça-Feira 6h da manhã, entro na fábrica, começo a trabalhar meia hora depois. Em uma esteira, faço o mesmo que nos outros dias: Coloca a tampa, fecha, passa, e de novo e de novo e de novo e de novo. Algo acontece comigo, começo a trabalhar com mais velocidade, num ritmo que não era necessário, meus olhos começam a piscar sem intervalos, minhas mão tremem, todos param na linha de produção e me olham, lembro-me de perguntarem se eu estava bem, eu não era capaz de responder, gritei e assustei a todos:

SAIAM, SAIAM DE PERTO DE MIM, SEUS INÚTEIS IMPRESTÁVEIS, CONFORMADOS COM ESSA VIDA DE MERDA, SAIAM, NÃO É POSSÍVEL VIVER DE REPETIÇÕES.

Joguei tudo no chão, quebrei as prateleiras e virei as esteiras, cuspi na cara das pessoas que estavam ali, eu era um animal. Cai no chão desmaiado, acordei com todos me olhando no chão, isso hoje é rotina, vi aquelas caras aterrorizadas, como se alguém tivesse quebrado o mundo perfeito deles, como se alguém tivesse os feito pensar na vida que tinham.

O Demônio

Fui acusado de estar louco, me internaram, disseram que o stress tinha comido meu juízo. Eles ainda não tinham visto nada. Muitos dias se passaram, eu estava preso naquele local branco, tudo igual, parecia uma ironia, saindo de uma rotina para outra, nesse mundo os diferentes estão errados, aceita ser igual ou morre como louco. Eu precisava sair dali.

Eu já não estava amarrado a uma cadeira com uma camisa de força, eles achavam que eu estava quase normal, achavam que eu tinha aceitado o sistema, que poderiam me manipular. Fui solto, fingi muito bem estar de volta ao padrão que eles queriam. Comecei a por em prática meus pensamentos verdadeiramente lunáticos, eu queria mudar o mundo, eu queria mudar a vida, não sabia que nadar contra a corrente é estar a favor do vento… Para o meio do redemoinho.

Os meus demônios passaram a ser incontroláveis, eu era agressivo com as pessoas de maneira verbal e era esnobe com minhas ações, sempre achei que elas não entendiam a vida como eu, afinal, quem saberá os pensamentos de um louco. Eu ouvia vozes, que com o tempo aprendi a ouvir melhor e fazer o que me diziam. Aprendi a dar sorrisos amedrontadores, meu olhar de frio, virou intimidador, eu não tinha um conceito de realidade, tudo era um quadro branco riscado todos os dias e apagado durante a noite.

Um dia resolvi discutir com minhas vozes, meus pensamentos sombrios, e brigamos feio, quebramos toda a casa, os vizinhos tinham medo, porque a casa nem era minha… Passei a não só ouvir, como ver as coisas, materializadas em pessoas as vozes agora andavam do meu lado, onde quer que eu fosse, tínhamos que estarmos em concordância, até que sabia dominá-las, era o que eu achava.

Minha insanidade foi aumentando e aumentando até o dia em que explodiu. Boom, não era mais eu.

Sai de dentro da casa que eu estava, correndo pelas ruas, em plena manhã, de jaqueta de couro preta e um olhar assassino e cruel, espanquei as pessoas que estavam indo aos seus trabalhos, matei três delas por puro prazer, quanto mais sangue eu via mais eu queria ver, eu tinha em minhas mãos um punhal afiado, e um pé de cabra. Todos corriam de medo, em meia hora, eram três mortos, cinco esfaqueados, mulheres, crianças, eram todos iguais, eu não sabia distinguir.

Corri depressa, tentei me controlar, vez ou outra eu caia de joelhos com as mãos da cabeça, mas era mais forte, minha vida já não era minha eu precisava fazer algo. Vi uma criança negra fugindo, sem pensar duas vezes corri até ela, era como um predador com fome, e enfiei a faca em suas costas e rasguei de uma extremidade a outra.

Tentando me controlar não vi outra saída, enfiei a faca em minha garganta, cai ao som dos prantos, ao gemido de agonia dos pais, das pessoas, dos normais, dos comuns. Eu nunca fui conformado com o que eu era, mas nunca quis ser um monstro.

De repente eu não via mais nada, era só escuridão. E uma voz conhecida começou a falar:

- Gotas caem ao chão, como uma torneira não fechada totalmente. Ouça… O som muda sorrateiramente, não mais gotas caindo o asfalto ríspido, agora já é possível identificar os pingos formando uma pequena poça. Ouça…
- Agora o som do gotejamento e distancia um pouco e se mistura com os leves pingos de chuva que caem sobre os telhados feitos de barro, a sinfonia é linda. Ouça… Não se confunda com os sons, a torneira ainda está aberta, é apreciável.

A medida que a voz ia falando eu sentia e ouvia igual, parecia a criação de um mundo, de um local, eu não sabia de nada, era como se aprendesse de acordo com a voz. E continuou:

- As cores começam a se formarem, a vista ainda é turva, compreendo, mas vamos, veja o preto e as suas sombras ao longo desse beco logo à frente. Esse mesmo beco recebe tons alaranjados, meio fracos ainda, mas existentes, eles vem de altos postes cinza, é uma maravilha. Veja…
- Olhe, olhe uma criança! Que belo ser. É assim que vocês chamam seus semelhantes menores e mais inocentes não é mesmo? Ela está sob as cores de poste, por hora escura, por hora alaranjada. Ela começa a caminhar para cá, bem devagar, roupas velhas e rasgadas, não identifiquei se era macho ou fêmea, mas olhe ela está vindo. Veja…

E eu via tudo se formando diante dos meus olhos, não acreditava, mas não podia dizer nada, eu não sabia falar, até agora não conseguia, mas entendia o que a voz dizia, era tenso, parecia um local conhecido, que se formava a minha frente, mas eu não identificava. Foi quando a voz gritou:

VEJA TUDO

O Homem

Então as coisas se formaram rapidamente, parecia que ela sempre teve aquele poder, mas só queria me mostrar o processo das coisas sendo criadas, e surgiram bueiros para os quais as águas da chuva escorriam sujas, via criança na minha frente, vi os becos e vielas, todos em tons escuros e alaranjados, como se tivessem um filtro, quando me dei conta era o meu bairro, meu mundo, minha rua, e a criança era o garoto negro que eu…

Homem maldito!

Exclamou a voz.

- As coisas se formam a sua frente você sabe onde está, no seu mundo, isso mesmo. Mais especificamente no chão dele, seu verme. Olhe para mim.

E vi que a voz saia da boca da criança, com um olhar negro e medonho.

- Olhe o que você fez. Eu gargalho com suas alucinações, me reconheça, sou os seus Demônios. Você jogou a culpa de tudo no seu stress, na sua loucura, no seu descontrole. O seu trabalho era bom, mas você não aguentou, foi me ouvir não é mesmo? As coisas aconteceram seu louco. Louco louco louco louco louco louco.

Nessa hora eu quis gritar de medo, mas minha garganta estava tapada com uma faca atravessada, e o meu sangue pingava como uma torneira que não fora fechada totalmente, eu não tinha forças, só podia ouvir e ver.

- Me deixe ser direto com você, ou comigo mesmo no caso. Sim, eu sou você. Eu sou aquele rosto cansado e robótico na frente do espelho, eu sou sua loucura e seu monstro, eu sou mais que um demônio, mais que uma legião, eu sou você.
- Você está agora não no seu mundo, mas numa representação do mesmo, só que dentro do abismo da sua própria mente. Você não entende, está louco, não pense que foi um super-vilão de quadrinho e que matou muitas pessoas em meia hora e que a polícia não chegou. Você não está num filme seu idiota. Você está sumido desde o ataque neurótico na fábrica, você está dentro do seu porão, conversando comigo esse tempo todo, com o pior lado de você.
- A desgraça que você acha que causou foi algo coletivo, você viu a vergonha de sua raça, você viu como é triste e horrendo ser humano e desistiu de sê-lo, em seus pensamentos, você subiu as escadas do porão correndo, foi pra rua e agiu como um animal. Tolo, idiota, nunca levantou dessa cadeira. Seu erro foi ligar a TV, e ver o sangue escorrendo dela, ver o monopólio de padrões, seu erro foi querer mudar, agora sofre por todos eles.
Louco louco louco louco louco louco.
- Todos os seres humanos convivem com seus demônios, consigo mesmos, e são felizes assim, mas você não se conformou, quis mudar tudo, quis gerar revolta. Seu internato também foi ilusório, só pra constar, você se internou na sua mente, nada foi real, você não existiu nos últimos três meses.
- MALDITO HOMEM, MALDITO VOCÊ.
- A única coisa aqui que é real é essa faca e sua garganta, seu sofrimento e sua dor, tentou acabar com seus instintos surreais de animal e acabou com sua surreal vida. Você não merece viver, mas sei que quer. Pra fazer tudo de novo? Não, não seria tão idiota. Se conforme, nada vai mudar, o sistema muda por si só, apenas alterando as opções que você tem.
- As pessoas estão te procurando, algumas estão lá na sua sala olhando pra verem se tem pistas de onde você se meteu. Você como um animal tem se alimentado dos seus próprios pedaços, bebia água quando eu mandava, não queria te ver morto. Vou permitir que viva de novo, você merece esse sofrimento. Sou sua força de vida, sou sua essência, sou seu demônio, sou você. Vou te derrubar dessa cadeira e eles vão ouvir o barulho e te salvarão.
- Os homens merecem viver eternamente, quem criou o inferno que viva nele, com todos os demônios dessa raça desgraçada. Viva no seu próprio inferno, viva seu monstro, você é um doente mental, e não conte nada disso a ninguém se não quiser ser internado de verdade. ACORDE LOUCO!

Nesse momento cai da cadeira com a faca na garganta, pessoas desceram o porão e me salvaram. Acordei com o som dos aparelhos que me mantinha vivo. Meus olhos arregalaram-se duma vez e puxei a respiração forte, era como se tivesse voltado à vida. Nada do que se orgulhar.

Eu sabia que o que eu tinha vivido era real, mas teria de ficar calado se quisesse ser aceito, convivendo com tudo que eu sabia existir, com os meus demônios, agora calados e apenas frescos na memória. Mantive-me vivo até hoje.

“Em mim mesmo me confundo. Nada me perturba mais do que meus pensamentos. Sou o dono do monstro que habita no meu interior. Sou mais que um gerente das minhas loucuras, sendo eu a casca para meus devaneios. Sou meu próprio criador.”

Domingo a noite. Deixo essas memórias. Passaram-se 15 anos de lembranças e de loucuras, nunca estive normal, é hora de acabar com isso. Não suporto mais o inferno dos homens, o demônio desse mundo somos todos nós, vou matar pelo menos um. Vou dar mais sangue pra TV. Eu me criei, eu me destruo, espero que não fiquem presos a tentar entender minha história, são devaneios. Adeus mundo, inferno, ou qualquer coisa, esse demônio morreu.