Violência

A vida bate forte, ela é cruel. Me sinto mal, ela me achou em um beco escuro, eu só estava indo pra casa, caminhando meio que embriagado, tonto, desnorteado, sem caminho, pra mim qualquer lugar servia, mas eu queria ir pra casa.

Eu caminhava a passos curtos e tortos, e quando olhei para trás, vi que ela me seguia como uma sombra, já não dava tempo de escapar ela me pegou. E a vida bate forte, ela é cruel e piedade não existe no seu dicionário. Ela me jogou no chão, fortemente me bateu e me amordaçou, eu não poderia gritar, estava amarrado nas mãos, eu só podia espernear. Mas como? Pra quê? Ela era bem mais forte que eu, e caiu sobre mim.

Meus olhos nesse momento lacrimejavam, ela me deixou despido, e ironicamente me beijava, e sussurrava no meu ouvido, perguntava se eu sentia prazer com a dor e disse que era apenas o começo de uma tortura. Ela violentou meu corpo, fui estuprado.

Meu psicológico já não era então o mesmo eu achei que nada poderia piorar, eu chorava sem poder gritar, minha respiração estava ofegante e cada vez mais ela se deliciava com minha dor. Não era um ato físico, ela destruiu minha mente e meus sentimentos de orgulho e dignidade.

E ainda assim, ela não se satisfez. E a vida bateu mais forte, foi mais cruel, sua loucura para me destruir não tinha fim. Resolveu me desamarrar e me deixou criar a esperança de que eu iria fugir, ou estaria livre e que aquilo tudo já era o suficiente. Mas não.

Me soltou e não tirou minhas mordaças, ainda despido me mandou correr o mais rápido que podia, e eu juro que tentei, mas eu não sabia onde eu estava, onde quer que eu fosse ela já estava lá me esperando, me fez cansar. e eu caía no chão, levantava querendo lutar, mas era desleal, tava escuro eu não estava em casa.

Então tentei pegá-la, tentei matar a vida, e ela me cortou dedo por dedo, esmagou os ossos da minha mão e me tirou a capacidade de lutar. Eu sangrava muito, estava frio, gelado, não consegui acreditar que estava acontecendo, ela não precisava mais me amarrar pra me fazer sofrer, eu já podia reagir. Eu só poderia pensar em fugir.

Mas ela percebeu, que eu não queria mais aquilo, que eu buscava fugir dela. E a vida me bateu mais, ela já havia me estuprado, cortado meus dedos das e esmagados meus ossos das mãos, tudo que eu tinha era dor. Ela não satisfeita, não poderia me deixar fugir, mutilou minha pernas, bem abaixo do joelho, e me fez ver todo meu sangue saindo de meu corpo, eu sendo destruído.

E gritou com orgulho do que fazia. Eu estava impotente, arrasado, e ela me tirou a mordaça e começou a puxar minha língua antes que eu desse o primeiro grito, sem braços pra lutar e pernas pra fugir, sem vontade de viver, ela arrancou-me a língua e me deixou sem a capacidade de falar, ainda depois disso me furou os olhos, e dessa parte eu acredito que gostei pois preferia não ver a situação que eu estava. E preferia morrer. Nesse instante eu acreditava que a morte era a boazinha da história, pois ela aliviaria pra sempre o sofrimento que a vida me deu.

E notei que ela foi embora, ou pelo menos parou de me torturar. E pessoas chamavam meu nome, e em meu pensamento eu me perguntava quem eram, e notei a voz de alguém que eu sempre conheci. Mas ele não ficava surpreso com minha situação, logo percebi que era um velho amigo e que tudo que me ocorreu, aconteceu na porta da minha casa. Eu não sabia. Doeu mais ainda. A vida me humilhou na frente da minha casa, me cuspiu e me maltratou.

Aos poucos comecei a notar que eu estava me reconstruindo, minhas pernas cresciam de novo, minhas mãos e dedos, meus olhos voltavam a ver, e sentia como se tivesse readquirido minha honra. Logo eu estava de pé outra vez, e só me restavam os traumas.

E ao longo de muitos anos percebi por experiência que, a vida voltava sempre, e acontecia tudo de novo, igual. A vida bate forte, ela é cruel, sem piedade, louca, insana, e talvez o único objetivo dela seja ver, a quantas noites perdido de casa e sem rumo eu posso encontrá-la no caminho e sobreviver.

Anos e anos tentando ficar vivo, pedindo pela morte, escrevendo meus lamentos, sendo torturado, maltratado, sobrevivendo, enfim… A noite já cai, preciso ir pra casa, e no caminho de novo me encontrar com a vida, e talvez mais uma vez aprender a viver.