“O Homeostato Ausente” de Vincent Garton (tradução)

“Eu preferiria ir para guerra três vezes do que sofrer um parto uma única vez.”

Em seu livro de 2009, A hipótese de Medea, o paleontologista Peter Ward oferece uma teoria ecológica provocativa. Motivado pela descoberta das ciências do clima de que “há, certamente, situações onde a vida não melhora o ambiente para si mesma, mas, de fato, torna as coisas ainda piores”, Ward leva essa ideia a sua conclusão radical. Geologicamente, ele nota, as catástrofes que pairam sobre nós são dificilmente uma novidade. Extinções massivas atravessam a história do planeta: a destruição brotou de cada etapa da evolução, de cada máquina de matar que ela criou. Longe de ser um sistema estável de equilíbrio vital, de fato, a biosfera é um oceano de algoritmos agressivos, uma orgia borbulhante de morte que a todo momento ameaça devastar o frágil interregno na qual está contida. A figura grega que melhor caracteriza o ecossistema do nosso planeta não é Gaia, a cuidadosa mãe-deusa. É Medéia, a esposa de Jasão que matou seus filhos para se vingar de sua traição. O Zero é imenso e a Terra não suporta a sua prole.

Leo Löwenthal, em um ensaio sobre o poeta e simpatizante nazista Knut Hamsun, argumenta que, no seu trabalho, Hamsum hipostaziou a natureza em uma figura paterna, vingativa e autoritária, construindo assim um fascismo da natureza sobre a humanidade. A mesms tendência pode ser enontrada em muitos ambientalistas hoje, muitas vezes assumindo a forma de uma curiosidade classemediana desejosa de um passado primitivo imaginário e não-alienado. Isto pode, de fato, fazer sentido nos parâmetros da famosa teoria de Gaia de James Lovelcok, que sustenta que “o conjunto total de organismos vivos que constituem a bioesfera pode agir como uma entidade única”, um “sistema ativo de controle adaptativo”. Como um imenso homeostato, Gaia seria uma reguladora cuidadosa cuja ira recairia sobre aqueles que desafiam seu reinado. Mas, análises recentes descobriram que a hipótese de Gaia é insuficiente. O balanço da natureza não é só insuficiente; de fato, ele parece não existir. O desejo pelo retorno, nos diz Ward, está mal colocado. No lugar do sábio pai julgador, Medéia o substitui enquanto uma mãe enlouquecida. Não há esperança, não há proteção a ser encontrada na sua autoridade: a humanidade é apenas mais um vetor de extinção no meio de muitos, um em uma inumerável espiral de feedbacks positivos trazidos por Medéia para matar as suas crianças.

Matar crianças é, de fato, a coisa que a natureza faz melhor. É uma das leis mais fundamentais da física que a longo prazo, tudo tende — acelera — para o zero. A heterogenização ostensivamente neguentrópia, tanto da vida quanto da não-vida do capital em si mesmo, aumenta a entropia global, irradiando calor e desordem precisamente segundo a definição de entropia da termodinâmica. O sombrio Carl Sagan: “Nós somos um modo do Cosmo matar a si mesmo.” Neste sentido, há alguma coisa horrível na famosa questão de Heidegger: “Por que há antes o ser e não o nada?” A fala de Jean- François Lyotard sobre “a catástrofe solar”, o insuportável conhecimento da destruição longíngua da Terra pela inevitável perda de controle do próprio Sol, acompanhada pelo grito desesperado de Nick Land em A sede por aniquilação : “O espaço soa como um imenso túmulo, e ainda assim as estrelas queimam. Por que o sol demora tanto para morrer?… A morte em si mesma está tímida para com nós?” Filosoficamente, todas estas falas expressam a mesma conclusão: que o Universo está pregando uma peça em nós. Ele se mata não através de uma suave projeção da singularidade do Big Bang até o zero cósmico, mas através de infinitos, alucinados, excessos locais, ‘’partes almadiçoadas” que valsam em meio à gradientes de entropia, ocultando a pulsão de morte cósmica por trás de tudo isso. Longe de ser um termostato, o Universo ferve perversamente com espirais de feedback positivo. A expansão cósmica acelera, esquartejando-se. Buracos negros perfuram na direção oposta: a energia interna de uma estrela implodindo, gera, pela equivalência massa-energia, mais atração gravitacional, liberando mais energia, fortalecendo a gravidade, colapsando em uma singularidade exponencial….

Retornando à Terra, como a hipótese de Medea sugere, não é, certamente, apenas nas inimagináveis escalas da astrofísica que encontramos estes processos. O descontrole exponencial não é apenas uma característica pecular da modernidade tecnológica; a explosão-cognitiva é apenas uma categoria inteira de processos xenoecológicos. ‘A Singularidade’, então, não é a fuga da humanidade da morte, estes “balbucios idiotas de futurologistas”, ironizados por Metcalf em ‘Neo-futurismo’ — “você e eu: nós vamos viver para sempre.” A Singularidade é o ícone da insistente supremacia da morte ela mesma — máquias encarnando trabalho morto, máquinas encarnando a morte do humano como outra fase do processo — acontecendo não através do planejamento e intenções humanas, mas pelo reflexo negro profundamente inumano de um “truque da razão” identificado de várias formas por Kant, Hegel e Negarestani (ou como o aspecto providencial do Gnon no Land mais recente). O termo “Antropoceno”, neste sentido, é um nome equivocado. A humanidade não é o protagonista nesta história. Nossa contribuição para o feedback positivo do crescimento capital da explosão cognitiva, assim como nossas orgias de destruição, são todos encenados esponteaneamente pelos comandos sombrios encarnados nas próprias leias naturais do retorno exponencial. Georges Currier, o teórico fundador do catatrofismo do Sec. XIX, coloca isso da melhor maneira no seu Ensaio sobre a teoria da Terra: se parece aos humanos que a natureza é “nunca pertubada, exceto pelos ‘malefícios da guerra’ ‘’, na realidade, a natureza em si mesma possui inumeráveis”’guerras intestinas…a superfície do globo foi rachada por revoluções e catástrofes.” O desastre antropogênico é apenas um pequeno conujunto da panóplia de catástrofes triunfantes das quais a natureza serve a si mesma.

Talvez, parte da razão pela qual a hipótese de Medeia atraiu menos atenção do que deveria, em detrimento desta radical reavaliação do modo como nós percebemos o mundo, é que Ward não leva tais implicações longe o suficiente. Ele mantém uma fé humanista, antropocênica, de que, com esforços de planejamento decisisvos, a humanidade pode resistir ao horror de Medéia, substituindo-a pela construção de uma Gaia artificial. O aceleracionista incondicional rejeita tal postura conceitualmente, não por desdém moral, mas por conta do caráter transparente da sua futilidade. Como os tipos de excesso solar que ela personifica, e como o Universo como um todo, a modernidade sai do controle. A sua tendencia em direção a um crescente retorno da IA, mercados, e todas as suas outras características cibernéticas, reflete precisamente o incontrolado caráter suicida/libinal que corre desenfreado sobre ela Radicalmente concebida neste sentido, a hipótese de Medéia ajuda a sublinhar o caráter transcendental do “aceleracionismo enquanto crítica do primado do secundário.” Ela fornece uma ecologia aceleracionista rigorosamente desequilibrada.

Tudo isto está bem longe, claro, da maior parte das nossas experiências cotidianas. Mas ela possui implicações importantes para a nossa compreensão do capitalismo contemporâeno enquanto uma ordem social megamecânica, uma compreensão operada de acordo com o diagrama conceitual transcendental da aceleração. O homeostato reinou durante a primeira fase da cibernética: o sistema que regula a si mesmo, comando-controle militar. A aceleração espontânea reina sobre a segunda: redes resilientes e crescentemente melhores, sistemas distribuídos que fogem ao controle dos seus nós. Isto, não a homeostase, é a arquitetura da modernidade cibernéticamente concebida e reflete o processo virtualmente-ontológico de derrubada [overthrown] que o aceleracionista incondiconal situa no coração do seu entendimento da realidade Se nós levarmos a sério a análise do último Marx, a história do capitalismo moderno não é homeoestática, mas, no máximo homoertética: “ciclos de oscilação delirantes sob uma linha tendencial exponencial de taxas descendentes de lucro e alienação do capital determinados pelo batimento cardíaco de crises de superprodução. Para entender estas implicações, Medéia funciona bem melhor que Gaia. Nós não estamos quebrando o homeostato. O homoestato sempre esteve faltando.