A Arte de Jogar Pedras


Ouvi dizer que você quer escrever. Não apenas boas histórias, mas as mais excelentes que puder. Você quer tirar as coisas que passou uma vida acumulando e destrinchá-las até não reconhecer mais. Depois disso, ir remontando tudo, como uma criança brincando de construir um castelo de lego (talvez a metáfora do Mario Vargas Llosa, sobre o escritor de ficção ser uma stripper ao contrário, que vai colocando peças de roupas na história até ninguém reconhecer que ali por baixo está o autor seja melhor). Aí você pega sua caneta, compra um caderno novo e passa a contar a história do seu herói. Que herói é esse?

Vejamos, ele tem todas as suas melhores qualidades (e apenas os defeitos que você tolera); é um escritor assim como você e passa pelos mesmos dramas que os seus (afinal, Proust, Kafka e Stephen King fizeram a mesma coisa e funcionou, certo?) Qual o problema, então? O problema é que até os seus coadjuvantes são mais adoráveis do que sua personagem. Logo nos primeiros passos para coexistirem, você percebe que nenhum deles parece real (comparando a que realidade? você não sabe, mas a sensação ainda está lá). Não desespere. Não apague tudo. Em algum momento da história, um poeta persa deve ter feito o mesmo questionamento que você: como criar personagens plausíveis? Ele não descobriu, mas isso não significa que você não deva tentar encontrar a sua resposta.

Talvez o primeiro passo seja parar de tratar personagens como uma página em branco. Abordar páginas em branco é uma arte por si só tão exaustiva que deve ser deixada para a hora de escrever a prosa, onde você vai contar a história de verdade. O modo como você deve encarar as personagens é através da experimentação. Não adianta querer sentar e escrever todos os gostos da sua protagonista numa ficha de D&D. E daí se ela gosta de picolé barato e seu programa de TV favorito é Fargo e ela sempre escolhe o Charmander como Pokémon inicial? O que isso nos diz sobre ela? Nada. Listar as informações, se é assim que você decidiu começar o processo de materializar uma figura tão real quanto você ou sua namorada, deve servir para que elas coexistam como uma teia de aranha, que nem os stats do seu jogador no Fifa. Se um ponto se distancia, ele puxa a teia inteira nessa direção, mantendo uma coesão.

O problema é que achar as tais informações, principalmente as relevantes, parece meio complicado. É aí que a experimentação entra: ditar os gostos da personagem nunca vai ser melhor do que dar o tempo necessário para ela amadurecer na sua história ou na sua cabeça. Toda pessoa que escreva tempo o suficiente vai perceber que uma hora a personagem recusa a direção aonde é apontada e força o escritor a seguir outros planos, passando de figura manipulada a pessoa real, uma força da natureza. Esse é o primeiro sopro de vida, que vem quando você começa a se apaixonar e se importar por partes da sua própria imaginação. O engano é acreditar que eles estavam sempre lá. Não estavam. Criar um personagem, mesmo que ele beba de outras influências, é respirar vida em um boneco de madeira. Precisou de trabalho para articulá-lo e agora você deve deixá-lo caminhar com os próprios pés.

Passada a fase de experimentação, onde você deve ter escrito algumas cenas (que não precisam entrar no produto final, inclusive, já que você só quer testar reações) e permitido que a personagem virasse uma parte integral de todos os elementos da sua história, chegou a hora de deixar o seu herói interessante. Você pode reparar, nesse momento, que todas outras personagens são mais interessantes que ele e isso, na minha opinião, é quase sempre imperdoável (a menos que você esteja usando ele para canalizar uma audiência bem maior e permitir que o leitor seja apresentado a um mundo novo como em Harry Potter, Matrix e Senhor dos Anéis). Torná-lo alguém que irá despertar o interesse do leitor significa lhe dar independência, autonomia, sem ser exatamente preciso concordar com os seus atos. A ideia aqui é que entendamos as suas motivações. Desse jeito, você acaba torcendo por gente doente em Happiness e Lolita, por um criminoso em Breaking Bad e Fargo, além de se identificar com um jumento em Sagarana. É tudo sobre acrescentar nuances, torná-lo único. Em vez de dar o seu melhor para o protagonista, por que não dar o seu pior? Guarde o melhor de você para o vilão. Só assim você criará personagens fortes e marcantes (mentira, essa é uma frase de efeito).

Quando estiver na dúvida sobre como trazer à tona as partes mais interessantes de alguma personagem, siga o conselho do Nabokov: “O trabalho do escritor é levar a personagem ao topo da árvore. Quando estiver lá em cima, jogue pedras nela.” Isso evoca a ideia de que é no pior que vemos do que somos feitos. É no pior que descobrimos se nascemos para algo ou não. É no pior que nasce a ficção. Ao colocá-lo em situações difíceis você vê o surgimento do elemento mais importante na ficção, atrás talvez apenas de honestidade: o conflito.