A Tristeza do Fim
9 de janeiro de 2013. Prosa meio inflamada, de quem acabou de descobrir autores diferentes. Passou por algumas revisões e só. Enjoy.
Nas noites mais frias, eles sempre cantavam. Cantar era o que aquecia e reunia todo mundo em volta daquela meia dúzia de pratos simples de marmita. Era baião, por vezes chamuscado ao lado da fogueira, debaixo das vozes e perto de pernas que eram esticadas sempre que os vaqueiros davam pausas dramáticas na história. Valêncio tinha apenas doze anos quando viu seu pai largar o temperamento de homem calmo e assumir as virtudes de um cavaleiro arturiano (embora seu pai não pudesse nem começar a explicar o que era uma távola). O menino pensava, a princípio, que os homens se reuniam para cantar e que isso bastava – mas cantar não era o suficiente para seu pai. Após algumas serenatas e jogos de palavras, ele tomava uma pequena dianteira em relação à sua cavalaria pessoal e passava a promulgar o verdadeiro sentido daquelas reuniões. Começava contando de sua velha dor no peito, da fome do gado e de outras coisas corriqueiras, tudo para preparar os homens para uma de suas histórias. Era um mestre nisso.
O pai de Valêncio não sabia, mas um mestre também poderia ser escravo — de sua boca e língua, principalmente. Quando começou a reunir os homens da fazenda para passar a noite fora, tudo que queria era uma desculpa para ver estrelas e conversar. Bem verdade que podia conversar e ver quantas estrelas quisesse em casa, apenas não era a mesma coisa. Havia algo no ar, no cheiro daquela terra vermelha, que o preenchia de felicidade, como um balão que se enche de ar quente e demora a descer. Para a desventura de seu Amaro (era esse o seu nome), assim como o balão, ele também tendia a esvaziar. Valêncio cresceu assim, no meio de repentistas sem muito traquejo, contudo excelentes contadores de histórias – histórias essas em que ele dormia antes do fim do segundo ato.
Valêncio, por vezes, tinha de imaginar a continuação das histórias que ouvia e dar sentido aos finais que sonhava, já que não era sempre que lhe faziam a bondade de resumir o que havia perdido. Mal sabiam que assim lhe nutriam com o gosto de inventar. Acabou crescendo talhado para histórias, conhecendo inícios, meios e fins para explicar tudo que poderia existir – sem nunca perceber qualquer coisa de concreto no mundo. Inventar era a única coisa que Valêncio sabia fazer, e isso não parecia caminho para direção nenhuma. Ele gostava assim. Não tinha interesse por trabalho e achava qualquer esforço uma perda de tempo, pois preferia aproveitar os dias descobrindo mais sobre o povo que o cercava. Deixou florescer um amor intenso por gente simples e passou a observar as criaturas tão cheias de vida que antes funcionavam apenas como engrenagens; engrenagens de uma máquina funcionando dentro da fazenda.
Tomava notas mentais, e estas ficavam esculpidas em sua alma como mármore. Fazia de sua cabeça um observatório e as pessoas a sua volta eram estrelas, constelações – ou corpos estelares maiores do que isso. Eram signos e histórias de sua própria mitologia.
Valêncio não via graça em falar ou discutir com ninguém. Procurava o silêncio e encontrava no mugido grave dos animais e no canto das aves mais calmas o seu ritual de preparo antes de se embrenhar no meio do sertão e cantar suas histórias, para inventar as lendas que tinha para dizer sobre sua terra. Quando o pai morreu, sobrou ao filho um violão e um punhado de roupas. Pensou que era para lembrar do homem que o ensinou como fascinar os rostos na escuridão, mesmo diante da voz rouca e desafinada. A voz do pai, ao cantar, se tornava uníssona com o mais barulhento dos oceanos e nenhuma das conchas que sua mãe guardava em casa podia fazer ressoar, no corpo inteiro de alguém, o que Amaro fazia. O violão seria então sua herança. Começou a aprender sozinho, de péssimas e esquisitas maneiras, percebendo que não demoraria a agradar os amigos de seu pai como este fazia. As roupas, infelizmente, a mãe de Valêncio passou para frente. Ela não tinha o mesmo apreço pelo modo como aquele punhado de homens ocupava o seu tempo. Pensava nas histórias como um resquício da juventude imperdoável de seu marido e o encanto produzido pelo filho a fazia questionar frequentemente se o único propósito da herança de Amaro era servir como uma lembrança fria de um homem decente, honesto, porém sem talentos especiais. Afinal, do que adianta saber falar se não sabe escrever? Por não saber sentir, a mãe de Valêncio não viu mágica em lugar algum e chamou de misticismo a catarse que acontecia no meio do sertão. Ela não era como o pai e o menino, que viviam sua vida para contar causos. Foi na noite em que sua mãe foi levada de vez pelo câncer que Valêncio percebeu que a vida (a vida em si, não só a dele) só fazia sentido se também fosse uma história. Uma elevada e grandiosa aventura, maior do que toda a estrutura mal formada de seus ossos poderia sustentar. Valêncio nunca parou para analisar a verdadeira compleição de sua própria alma.
Quando o tempo para pagar as contas chegou ao fim, o rapaz se propôs a levar tudo o que possuía para longe dali. Na verdade, não sabia se algo ali era seu. Resolveu botar o violão, os cordeis e os folhetos, tudo misturado com a comida e a espingarda do pai, dentro de uma rede para seguir com ela pela estrada por sabe Deus quanto tempo. Demorou para perceber que talvez não fosse chegar a lugar nenhum assim, pois tudo constituía um certo risco para alguém como ele. A cabeça maquinava perigos inexistentes e se ocupava disso por horas, sem perceber que a noite caía e o dia cogitava não retornar.
O tempo de sentir fome não veio, nem o de sentir medo, já que seu estômago acordou de repente com a sensação de que o devoravam ali mesmo. Tombou após alguns passos de lucidez e deu de cara com o nariz na areia, despedindo-se da cartilagem e sujando o interior das narinas. Valêncio sonhou por horas a fio sobre sua casa, seu pai e países que nunca havia visitado. Sonhou sobre o tempo e sobre a matemática de povos que nunca conheceu; sonhou sobre o mar, sobre Deus e todas as rimas que conhecia. Sonhou a história de sua vida uma dúzia de jeitos diferentes, até chegar no jeito certo. Seu coração parou antes do fim, segundos antes do clímax. Quem sabe, com suas convenções fora do comum, ele tivesse preferido assim. Tinha uma teoria de que finais nem sempre são como se esperam, mas estavam invariavelmente lá, como a última gota de uma tempestade que ele nunca iria ver cair.