Ester I: Obambulare

“From childhood’s hour I have not been. As others were, I have not seen. As others saw, I could not awaken. My heart to joy at the same tone. And all I loved, I loved alone.”

Elevator ascendamus ad finem. Não, não é assim. Pervenire in tecto?”, disse num sussurro a garota ajoelhada na grama do Condomínio Lua, o mais feio da cidade. Era Ester e tinha acabado de apanhar a mochila, sem ânimo para carregá-la nas costas. Havia também desistido de subir pelo playground, onde estava, e agora arrodeava a entrada do prédio, passando por debaixo do arco de madeira e percebendo que seus pelos do braço estavam todos arrepiados ao entrar. Era como se o corpo estivesse reagindo à intensa frequência de energia negativa ali. O termo correto seria energia pesada, porque energia não é inerentemente má, como um filhote de barramute às vezes é. O que ela vinha sentindo nos últimos dias era simplesmente sobrecarga, uma das consequências de se viajar sozinha.

Alastor havia explicado em uma das tardes de aula que todo mundo é capaz de evocar para si coisas boas ou ruins. É o mesmo fundamento que fazia uma pessoa subir metros acima do chão ou obliterar as rãs do pátio do castelo com um gesto de mão ou até mesmo absorver a chama de uma lamparina. Ester precisava apenas acreditar e o seu cérebro modestamente treinado fazia o resto, completando os passos seguintes como se fosse algo automático. Era assim que se executava magia, pelo menos na forma como ela fora ensinada. A maioria das pessoas, medíocres em sua perspectiva de vida, canalizava seus sonhos e sua energia vital basicamente para coisas como dinheiro e outros excessos. Ela achou aquilo a parte mais decepcionante de se aventurar pelo mundo. Mas por mais deplorável que aquilo fosse, Ester não havia sido treinada para ser insensível. Quando o apartamento 504 tentou alcançá-la, ela atendeu ao chamado.

Se dependesse apenas dela, chegar até o apartamento seria assombrosamente fácil, porque estava acostumada em sair e retornar ao seu quarto quando lhe convinha. Infelizmente, subir ao andar que queria não estava sendo uma tarefa simples. As palavras de encantamento não serviram sequer para levantá-la do gramado, muito menos levá-la ao quinto andar. Ester agora se via (literalmente, pois encarava também um espelho) diante do elevador, pois não sabia o que precisava fazer para acertar o feitiço de levitamento.

Lá dentro, viu que as paredes, estreitas e próximas demais, refletiam as chapas de vidro por um número infinito de vezes e lembrou que achava engraçado o fato de espelhos simplesmente funcionarem, sem influência externa nenhuma. Se a humanidade sumisse, os espelhos não moveriam um centímetro de sua superfície para ver se alguém estava ali. Eles agora apenas refletiam o péssimo estado em que Ester se encontrava e o seu parecer sobre si mesma não podia ser mais sincero: as bochechas e o nariz, antes corados feito um pomar e manchadas por sardas, estavam agora cheias de cavidades oleosas que brilhavam. Sem contar que ela havia perdido quatro ou cinco horas de sono em sua nova rotina e também alguns quilos que a deixaram magra feito uma vassoura, deixando frouxo os jeans e afastando qualquer sombra de autoestima. De resto, ela gostava das roupas que estava usando e seu cabelo resistia bravamente aos quatro dias sem lavar, ainda calmos sob os ombros. A blusa estava um pouco suada, pois era difícil encantar coisas usadas (fizera uma visita ao brechó no coração do centro da cidade, após passar a tarde buscando por um certo grimório por mais de dez sebos). A calça se descosturava logo em cima das alpargatas amarelas que ela calçava, formando emaranhados de fiapo e complementando o seu visual de uma adolescente normal.

O elevador estacionou e abriu suas portas para que Ester saísse no quinto andar. Ela sentiu medo de ir parar no poço subterrâneo do prédio (algo que não aconteceria se ela tivesse pronunciado transiliam domus, o feitiço cujo nome só agora retornava à sua cabeça), pois uma enxurrada de sensações agourentas começava a permear o elevador, vinda dos corredores. Algo remexia na mochila, dando com tudo nas suas costas cansadas. Era um sinal de que precisava chegar logo, pois os artefatos dentro da bolsa já alertavam perigo.

O corredor inteiro a distraia com empecilhos. Ela podia sentir entidades, instigadoras e provocantes, se agarrando aos moradores daquele andar, buscando aquela intrusa que veio perturbá-las. Ao 501, não tinha nada a dizer. Ao 502, apenas “boa sorte com a infestação de hsing-hsings”. Ester pensou até em escrever um bilhetinho explicando como deixar a casa menos propícia aos símios azulados da china, mas só poderia fazer isso na volta, quando estivesse mais relaxada. 503… 504. Finalmente, Ester chegara. Dentro daquele lugar, a criança de olhos esmeraldas esperava ansiosa, com os pés em cima da cama.

Ester não precisou bater na porta — era de seu feitio entrar sem ser anunciada. Trouxe a bolsa para a frente, enfiou a mão no espaço aberto do zipper e vasculhou atrás de algo. Retirou uma bolsinha de moedas menor do que a sua palma e deixou cair uma delas no chão. Devolveu o pacote tilintante para a mochila e sentiu alguns dos objetos lá de dentro se manifestando para saírem. Ester garantiu que ficassem todos presos ao fechar a bolsa, imaginando se Alastor teria sentido falta de alguns objetos sumidos do laboratório. Felizmente, ela fez maravilhas com a quantidade de quinquilharia que conseguiu trazer, como a bola de boliche viva na mochila. Talvez não tivesse sido uma boa ideia animá-la com o espírito de um bicho tão maldoso como o dragão, pensou Ester. Mas, com toda a inquietação que se passava na cabeça da garota de quatorze anos, a escolha da criatura era justificada.

A moeda foi para debaixo da porta e lá ficou, grudada. Ester sabia que se tentasse retirá-la antes de ter seu efeito alcançado, provavelmente perderia alguns dedos. Preferiu então não se certificar de que tinha colocado uma moeda tocada apenas uma vez. Apenas se levantou e girou a maçaneta para entrar em um quarto pequeno, um tanto escuro e com cheiro de roupas molhadas. Suas paredes eram de um azul muito claro e focas nadavam nos desenhos, desbotadas. Uma criança pequena parecia dormir na cama, alheia ao resto do mundo.
Ester, entretanto, podia sentir que aquela escuridão não era natural — ou seja, uma lâmpada sendo acesa não bastaria para iluminar. Contrariando os seus instintos básicos (nunca entre num ambiente desprotegida e, principalmente, nunca ajude ninguém sem ser recompensada por isso), ela entrou no quarto e se sentou ao lado da moradora.

– Você está sozinha em casa? — disse Ester.

Agora via que a menina estava acordada, mas sem respondê-la. Parecia anêmica, só que não tinha o físico de uma menina doente. Era uma espécie de véu que a cobria, um filtro como o de uma fotografia antiga que a deixava com a imagem granulada. Haviam também fotos de sorvete de menta e bolo caramelado decorando a colcha da cama, e Ester sentiu a barriga reclamar. Para acelerar a situação, colocou a mão no ombro da menina, ouvindo assim a primeira tentativa de interação.

– Você está vendo? — disse a menina, rolando para o lado e se levantando devagar.
– As coisas não estão muito boas pra você. Sinto muito. Queres conversar?
– Mas eu preciso saber se você também tá vendo.
– É claro que eu tô vendo. Eu tô vendo muito bem. — Ester forçava os olhos acima da cabeça da garota, mas não enxergava nada de especial. — O que eu deveria estar vendo?
– O mar.
E, como se as palavras tivessem amplificado a visão dela no escuro, o que antes era o breu das paredes virou um vasto horizonte marítimo. Uma faixa oceânica havia se aberto por todas as direções, fazendo o quarto balançar e boiar bem no centro do hemisfério. Ester sentiu outro arrepio, mas dessa vez era diferente. Não havia nada de sinistro no novo ambiente, inofensivo e triste.

— Você me chamou de propósito?

A garota respondia de forma letárgica, como se estivesse doente.

— Talvez. Eu não sabia que estava pedindo ajuda, eu só estava…- a menina não conseguiu completar a frase.
— Eu sei como é. Olha, você não precisa se machucar mais, tá? —Sem esperar resposta, ela prosseguiu. — Então esse é o seu quarto. Ele é bem bonito.
— Mamãe não limpa ele faz meses… — disse a criança, levemente sardônica.
— Eu posso te ajudar a limpar, se você quiser. Sabe, eu limpava o meu em dois segundos, e olha que era um espaço enorme.

Pouco a pouco, Ester começou a entender o tamanho do impacto que o emocional da garota teve no cômodo em que estavam. Talvez ela tivesse se enganado ao pensar que o responsável por aquela situação havia sido um agente ou fator externo, porque a casa não estava infestada por nada realmente ruim. Se estivesse, reagiria diferente de puxar a garota para baixo constantemente e partiria para a artilharia pesada. Para pensamentos verdadeiramente sombrios.
— Qual o seu nome? — perguntou Ester.
— Olívia.
— Bonito.
— Você pode inventar um apelido, se quiser — disse ela. Tinha o olhar perdido, mas respondia tudo com muita lucidez, mesmo com a voz fraca. Parecia uma menina emocionalmente forte. Não é a toa que atraiu a sua atenção, pensou Ester.
— Por que me chamou aqui, Vivi? O que você quer de mim?
— Queria que você encontrasse uma coisa.
— Claro, na hora. Você perdeu onde? Aqui no quarto?
Olivia balançou a cabeça negativamente, agora olhando para ela. Ester aproveitou para ser o mais doce possível, com um olhar protetor que nem sabia possuir:
— Você se lembra onde foi?
— Sim.
— E, se eu pegar, você me faz um favor também?
— Faço.

Ester não precisou ouvir mais nada, nem esperou o ânimo surgir para fazer aquilo. A coragem da menina em estar daquele jeito e ainda conseguir pedir ajuda devia ser tremenda. Ester nunca conseguiria fazer isso se estivesse em seu lugar. Apenas levantou e ajeitou o cabelo de Olivia para que pudesse beijar sua testa. O lábio voltou frio, como o fundo de um oceano.

Sem parar para pegar algo da bolsa, Ester andou até o limite do piso, agora menos manchado de negro e encarou o mar.

— Eu já olhei se tinha algum bicho. Não encontrei nenhuma foquinha. Elas são as minhas favoritas no mundo inteiro — disse Olivia ao ver Ester na borda do quarto.

Caiu pelo que pareciam dez ou cem metros de águas inquietas, afastando-se mais e mais de Olivia e de seu quarto flutuante. Será que ainda estava na rua dos Almirantes? Provavelmente sim, em alguma das tangências de avenidas do quarteirão, nem que fosse um bocado abaixo do subsolo. Puxa, nenhuma pessoa que a encontrou no centro da cidade imaginaria que ela estivesse agora fazendo algo tão difícil como ajudar uma garotinha assombrada por algo tão terrível como um mar que engolisse o resto de sua casa. Ester tentava o tempo todo se distrair com conjecturas assim para não sucumbir ao frio.

A verdade é que seu antigo mestre riria da sua cara se soubesse onde tinha se metido. Nem ela sabia. Aquele não podia ser o apartamento que Ester entrara, pois a moeda colocada no batente impediria qualquer tentativa de deixar o recinto. Uma leve onda de desespero começou a se aproximar de sua cabeça, interrompendo seu padrão respiratório e fazendo-a querer abrir os olhos. Quando desse por si, teria se afogado pateticamente no oceano criado por sua anfitriã. Quando Ester decidiu abrir os olhos, entretanto, percebeu que enxergava perfeitamente e que estava caindo de costas. O topo de sua cabeça foi então o ponto de colisão com algo igualmente duro, e um ferrão de dor foi se espalhou por toda a circunferência de seu crânio. Ela tateou apressada para ver o que era (pois sabia que uma pedra teria aberto sua nuca no meio), fechando as mãos em outra cabeça. Ao se virar, viu Olivia, intacta e enxuta, boiando próxima à areia com o mesmo olhar perdido, mas um sorriso estúpido de felicidade. Ester mal pôde conter a empolgação que irradiava de seu peito. Foi quando percebeu que não era a mesma pessoa que a recebera lá em cima.

Antes que pudesse experimentar falar debaixo d’água, Ester viu o corpo de sua nova amiga rumar para longe dela, atraído por uma força invisível.
- Espera. Você não pode ir agora.
Começando a entender, Ester girou nos calcanhares e pegou impulso de volta para a superfície. Fez tudo com surpreendente rapidez, já se acostumando com o nado e percebendo que a altura da água havia diminuído. Ela chegou na superfície em poucos segundos, saltando para dentro do quarto e com a boca tremendo de frio e raiva. Queria atacar a impostora que estava sentada de costas para ela. Foi se aproximar e, ao colocar a mão em seu ombro, viu Olívia, pálida e magra, se virar para encará-la.
- Você conseguiu!
Ester não podia mais atacá-la, pois Olivia tinha o sorriso mais adorável que ela já viu. Na frente, estavam duas janelinhas onde ficavam os dentuços e uma pequena cova de cada lado.
- Como é?! Você tá maluca?
- Me fala — disse ela, levantando para se aproximar de Ester — eu era mais bonita, não era?

E, pensando melhor, Ester percebeu que a menina do fundo sorria sim feito uma boba, uma pessoa que lembrava de algo engraçado para contar no jantar.
- Olivia. Vivi. Aquela era você de quantos meses atrás?
A menina pensou um pouco, fazendo contas mentais.
- Quatro, cinco…
- Aconteceu algo de importante nessa época?
- Sim. A última briga série entre o mano e eu.
- Mano seria… o seu irmão? E o que ele fez? — disse Ester, sentando-se na cama.
- Primeiro ele falou que me odiava, mas isso ele sempre diz quando tá com muita raiva. Depois ele me bateu nas costas quando viu que eu não ia responder às provocações. Aí ele falou que minha mãe disse que queria que eu desse menos trabalho e fosse que nem ele.
- Por isso você ficou assim, não foi?
- Eu passei a andar menos na sala de estar. Comia rápido pra voltar pra cá. Eu não queria atrapalhar.
Olivia dizia tudo com muita naturalidade, cheia de didatismo.
- Eu só escondi o que eles não gostavam de ver. O que era feio, o que era chato.

Ester se levantou, ansiosa. Afastava para o fundo da mente a vontade de chorar e a triste realização de que a garota havia morrido após encontrar uma maneira de se punir, de se fazer desnecessária para a família. Aquela que ela viu no fundo do mar talvez fosse a verdadeira Olivia, com o potencial derramado na maré de sua cabeça.

- Só que não sobrou muita coisa, né? — Ester perguntou, desalentada.
- Eu gostaria de voltar a ser eu. Sabe, eu sei que ainda posso melhorar.
- Você não precisa falar mais nada. Eu… — Ester refazia o caminho para outro mergulho, com a mochila em mãos. Parou antes da borda e tirou a bola de boliche. — Eu fui um pouco lenta para pegar a Olivia de antes lá embaixo, mas dessa vez ela não me escapa.
Entre esfregões de nariz e fungadas, Olivia interviu.
- Deixa a Olivia de antes lá embaixo, moça. Me fala seu nome.
- Meu nome é Ester — disse Ester, limpando o rosto. — E, de verdade, não vai ser trabalho nenhum. Ninguém tem o direito de tirar o teu melhor. Sabia disso?
- Mas eu não te chamei aqui pra isso.
- Mas você queria que eu descesse — disse Ester, antes de ser interrompida por Olivia.
- Para ver se eu ainda estava lá. E é ótimo que eu esteja. Agora você pode me ajudar a esfregar essas… coisas feias do meu quarto — disse Olivia, passando a mão por onde haviam áreas escuras na parede.
- Você vai ver, o oceano geralmente dá uma secada grande quando eu limpo o quarto. Só ando um pouquinho cansada…
Olivia bocejou, mas logo continuou.
— Talvez você até conheça meus pais… Eles não são pessoas ruins. Não mesmo. Só precisam de um pouco de cuidado.
- Que nem a Olivia daqui de cima.
Olivia consentiu, um pouco envergonhada. Ester sabia que tudo que a garota precisava agora de um pouco de atenção. Esse era o único cuidado que Olivia merecia. Mergulharia para resgatar o espírito de ânimo perdido da criança, se isso fosse adiantar de algo. Mas Olivia não precisava ficar mais sozinha ainda.

As duas ficaram ali por muito tempo, não há duvidas. Mas quando Ester saiu do quarto, estava contente de não ter precisado de mais encantamentos. Saiu do jeito que entrou, mas dessa vez sem a bola de boliche. Imaginou que sua nova amiga gostaria de ter agora uma lembrança dela em tempos difíceis, uma que agisse e pensasse como uma foca.

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