Sinais e Símbolos
Escrito por Vladimir Nabokov em inglês e publicado em 15 de maio de 1948 pelo The New Yorker.
I
Pela quarta vez em quatro anos, eles foram confrontados com o problema de qual presente dar de aniversário para um jovem que era irremediavelmente desarranjado da cabeça. Desejos, ele não tinha nenhum. Objetos feitos pelo homem para ele eram colônias do pecado, vibrantes de uma atividade maligna que apenas ele podia perceber, ou então confortos rudes para os quais uso algum podia ser encontrado em seu mundo abstrato. Após eliminarem alguns artigos que poderiam ofender ou assustá-lo (qualquer tipo de aparelho eletrônico, por exemplo, era proibido), seus pais o trouxeram um presente singelo e inocente: uma cesta com dez diferentes geleias de fruta em dez pequenos jarrinhos.
Na época de seu nascimento, eles já eram casados por um longo tempo; uma porção de anos havia se passado e agora eles estavam bem velhos. O cabelo pesado e grisalho dela já estafara-se. Ela vestia vestidos pretos e baratos. Diferente de outras mulheres de sua idade (como a senhora Sol, sua vizinha do lado, cujo rosto era todo rosado e violeta de maquiagem e cujo chapéu era um cacho de flores de beira do rio), ela possuía um pálido semblante vulnerável aos defeitos que a luz da primavera revelava. Seu marido, que em sua terra natal havia sido um empresário de moderado sucesso, era agora, em Nova York, completamente dependente de seu irmão Isaac, um verdadeiro americano de quase quarenta anos. Ele mal o via, e o apelidara de “o Príncipe”.
Naquela sexta, no aniversário do filho deles, tudo deu errado. O trem subterrâneo perdeu a energia entre duas estações e, por um quarto de hora, não podia se ouvir nada exceto o bater constante de seus corações e o farfalhar de jornais. O ônibus que tiveram de pegar estava atrasado e os manteve esperando por eras; quando chegou, estava lotado de colegiais tagarelas. Começou a chover enquanto andavam pela estrada marrom que levava ao sanatório. Lá, esperaram novamente, e, em vez de seu menino invadir a sala como geralmente fazia (seu pobre rosto manchado de espinhas, mal barbeado, rabugento e confuso), uma enfermeira, que conheciam e não ligavam muito, aparecera e explicara clara e finalmente que ele tentara tirar a sua vida mais uma vez. Ele estava bem, disse ela, mas uma visita de seus pais poderia perturbá-lo. O lugar era tão miseravelmente desorganizado, e as coisas se perdiam ou misturavam-se tão facilmente que eles decidiram não deixar seu presente no escritório e sim trazê-lo da próxima vez que viessem.
Do lado de fora do prédio, ela aguardou seu marido abrir o guarda-chuva e então tomou seu braço. Ele continuava limpando a garganta de um modo especialmente ressonante, como sempre fazia quando ficava melancólico. Chegaram à parada de ônibus do outro lado da rua e ele fechou o guarda-chuva. A poucos metros dali, debaixo de uma árvore dançante e molhada, uma pequena ave pelada se contorcia impotentemente em uma poça.
Durante a longa viagem à estação de metrô, ela e seu marido não trocaram uma palavra e toda vez que ela olhava para as suas mãos (a pele manchada, com veias saltando), apertando e contraindo o cabo de seu guarda-chuva, sentia a pressão crescente de lágrimas. Enquanto olhava em volta, tentando fixar a mente em algo, sentiu-se levemente chocada, numa mistura de compaixão e encantamento, ao perceber que um dos passageiros, uma garota de cabelo negro e unhas do pé sujas e vermelhas, chorava no ombro de uma mulher mais velha. A quem aquela mulher lembrava? Parecia Rebecca Borisovna, cuja filha havia se casado com um dos Soloveichik — em Minsk, anos atrás.
Da última vez que o garoto tentou fazer aquilo, seu método fora, nas palavras do médico, uma obra-prima de inventividade; ele teria sucedido caso um paciente invejoso não houvesse pensado que ele estava aprendendo a voar – e o impedisse bem a tempo. O que ele realmente queria ter feito era abrir um buraco no seu mundo e escapar.
O sistema de suas ilusões havia sido tema de um elaborado artigo em uma revista científica, que o médico no asilo havia dado para que eles lessem. Mas, muito antes disso, ela e seu marido haviam descoberto por si mesmos. “Obsessão referencial,” o artigo chamara. Nesses casos bastante raros, o paciente imagina que tudo acontecendo ao seu redor é uma referência velada à sua personalidade e existência. Ele exclui pessoas reais de sua conspiração – pois se considera muito mais inteligente do que outros homens. Uma natureza fenomenal o acompanha por onde ele vá. Nuvens no céu aberto transmitem umas às outras, por meio de lentos sinais, informações incrivelmente detalhadas a seu respeito. Seus pensamentos mais íntimos são discutidos ao cair da noite, em alfabeto manual, por árvores negras que gesticulam. Seixos ou manchas ou marcas de sol formam padrões representando de alguma forma terríveis mensagens que ele deve interceptar. Tudo é um criptograma e de todos ele é o tema. Alguns dos espiões são observadores imparciais, como superfícies de vidro e piscinas tranquilas; outros, como casacos em vitrines de lojas, são testemunhas preconceituosas, no fundo, violentas; outros, novamente (água corrente, tempestades), são histéricos ao ponto de insanidade, tem uma opinião distorcida dele e interpretam grotescamente suas ações. Ele sempre deveria manter a guarda e devotar cada minuto e módulo da vida para decifrar a ondulação das coisas. O próprio ar que ele exalava era indexado e arquivado. Se pelo menos o interesse que ele provocava fosse limitado às imediações – mas que nada! À distância, as torrentes de escândalos ferozes aumentam em volume e volubilidade. As silhuetas de seus corpúsculos sanguíneos, ampliados um milhão de vezes, flutuam sobre vastas planícies; e mais adiante, enormes montanhas de intolerável firmeza e altura resumem em termos de granito e abetos lamuriantes a verdade máxima de seu ser.
II
Quando eles emergiram do trovão e do ar imundo do metrô, as últimas partículas de sujeira do dia se misturavam com as luzes da rua. Ela queria comprar peixe para a janta, então entregou a ele a cesta de jarros de geleia, mandando-o ir para casa. Ele andou até a terceira parada e então lembrou que havia entregado a ela suas chaves mais cedo.
Em silêncio, sentou nos degraus e em silêncio se levantou quando, dez minutos passados, ela chegou, marchando pesadamente as escadas, sorrindo palidamente, balançando sua cabeça em desaprovação à sua tolice. Eles entraram em seu flat de dois quartos e ele foi logo para o espelho. Puxando os cantos de sua boca com seus dedos, com um sorriso horrível e parecido com uma máscara, ele removeu sua nova placa dental desesperadoramente desconfortável e cortou as longas presas de saliva conectadas a ela. Ele leu seu jornal russo enquanto ela colocava a mesa. Ainda lendo, comeu os alimentos descolorados que não precisavam de dentes. Ela conhecia seus humores e também ficou calada.
Quando ele foi para a cama, ela permaneceu na sala de estar com seu baralho de cartas sujas e seus álbuns velhos. Através do largo quintal onde a chuva tilintava no escuro contra as latas de lixo desgastadas, janelas estavam sutilmente acesas e em uma delas um homem de cuecas com seus cotovelos levantados podia ser visto deitado inerte em uma cama desarrumada. Ela abaixou a veneziana e examinou as fotografias. Quando bebê, ele parecia mais surpreso do que a maioria dos bebês. De uma página do álbum, uma babá alemã que eles tiveram em Leipzig e seu noivo rechonchudo caíram. Minsk, a Revolução, Leipzig, Berlin, Leipzig, a fachada de uma casa inclinada e fora de foco. Com quatro anos, em um parque: mau-humorado, tímido, com a testa enrugada, desviando o olhar de um esquilo animado como faria com qualquer outro estranho. Tia Rosa, uma velha senhora atarantada, angular, de olhos arregalados, que vivera em um trêmulo mundo de más notícias, falências, acidentes de trem, metástases cancerígenas – até que os alemães a mataram, junto com todas as pessoas com quem ela se preocupava. Seu primo, agora um famoso jogador de xadrez. Ele, novamente, com oito anos, já difícil de entender, com medo do papel de parede no corredor, com medo de uma certa imagem no livro que mostrava meramente uma paisagem idílica com rochas ao pé de uma montanha e a roda de um carro velho pendurada no galho de uma árvore sem folhas. Aqui ele tinha dez: o ano em que eles saíram da Europa. A vergonha, a pena, as dificuldades humilhantes, a criança feia, cruel e atrasada que ele era na escola especial. E então veio uma época em sua vida, coincidindo com uma longa convalescência após a pneumonia, quando aquelas suas pequenas fobias que seus pais haviam teimosamente atribuído como excentricidades de uma criança prodigiosamente talentosa evoluíram para um denso emaranhado de ilusões logicamente interativas, tornando-o totalmente inacessível a mentes comuns.
Isso, e muito mais, ela aceitara – pois afinal, viver também significava aceitar a perda de uma alegria atrás da outra, porém sequer alegrias em seu caso – meras possibilidades de melhora. Ela pensava em infinitas ondas de dor que por uma razão ou outra ela e seu marido tinham de aguentar; dos gigantes invisíveis machucando seu garoto de alguma forma inimaginável; da incalculável quantia de candura contida no mundo; no destino dessa candura, que era esmagada, ou desperdiçada, ou transformada em loucura; de crianças negligenciadas murmurando melodias para si mesmas em cantos sujos; de belas ervas que não podem se esconder do fazendeiro e tem de ver a sombra da sua varanda símia deixar flores mutiladas em seu rastro, ao aproximar-se a escuridão monstruosa.
III
Já era meia noite quando da sala de estar ela ouviu seu marido gemer; e chegou cambaleando, vestindo sobre seu pijama um velho sobretudo com colarinho de astracã que ele preferia ao seu belo roupão azul.
“Eu não consigo dormir”, gritou.
“Por que você não consegue dormir?” ela perguntou. “Você estava cansado.”
“Eu não consigo dormir porque eu estou morrendo,” disse ele e deitou-se no sofá.
“É o seu estômago? Você quer que eu chame Dr. Solov?”
“Sem médicos, sem médicos,” ele grunhiu, “para o diabo com médicos! Nós precisamos tirá-lo de lá rápido.Ou então ele será responsável. Responsável!” ele repetiu e se pôs a sentar, ambos os pés no chão, batendo na testa com seu punho fechado.
“Tudo bem,” ela disse quieta, “nós vamos trazê-lo para casa amanhã de manhã.”
“Eu gostaria de um pouco de chá,” disse seu marido e se retirou para o banheiro.
Se curvando com dificuldade, ela apanhou algumas das cartas e uma fotografia ou duas que haviam caído do sofá para o chão: valete de copas, nove de espadas, às de espadas, a empregada Elsa e seu namorado bestial. Ele retornou com bons espíritos, dizendo em voz alta:
“Eu já pensei em tudo. Nós vamos lhe dar o quarto. Cada um de nós irá passar a noite perto dele e a outra parte nesse sofá. Por turnos. Nós vamos fazer o doutor vê-lo pelo menos duas vezes por semana. Não importa o que Príncipe diz. Ele não vai ter muito a dizer porque vai sair mais barato.”
O telefone tocou. Era uma hora pouco usual para o telefone deles tocar. Seu chinelo esquerdo caiu e ele tateou por ele com seu calcanhar e pé enquanto ele permanecia no meio da sala, e infantilmente, embasbacou-se de banguela a mostra para a sua esposa. Sabendo mais inglês do que ele, era ela que atendia a ligações.
“Posso falar com Charlie?” disse uma garota de vozinha aborrecida.
“Qual número você quer? Não. Esse não é o número certo.”
O telefone foi gentilmente colocado no gancho. Sua mão foi até seu velho coração cansado.
Ele sorriu um sorriso breve e imediatamente continuou seu monólogo animado. Eles iriam trazê-lo assim que amanhecesse. Facas seriam mantidas em uma gaveta trancada. Mesmo em seu pior, ele não apresentava perigo algum para as outras pessoas.
O telefone tocou pela segunda vez. A mesma ansiosa jovem de voz atonal perguntava por Charlie.
“Você tem o número incorreto. Vou lhe falar o que você está fazendo: você está discando a letra O em vez do zero.”
Eles sentaram para seu inesperado chá da meia noite. O presente de aniversário continuava na mesa. Ele bebia ruidosamente; seu rosto estava corado; de vez em quando ele fazia um movimento circular em seu copo erguido para que o açúcar dissolvesse mais rápido. A veia na lateral de sua cabeça careca onde havia uma grande marca de nascença aparecia conspicuamente e, apesar dele ter se barbeado naquela manhã, cerdas prateadas exibiam-se em seu queixo. Enquanto ela o servia outro copo de chá, ele colocava os óculos e re-examinava com prazer os pequenos jarros luminosos vermelhos, amarelos e verdes. Seus úmidos lábios desajeitados soletravam suas marcas eloquentes: uva, damasco, ameixa, marmelo. Chegou em macieira quando o telefone tocou novamente.