Tão Americano Quanto Torta de Maçã
O fellatio tem uma longa e documentada história, mas não até 1972 — com o lançamento de Deep Throat — onde apareceu, assim por dizer, em companhia educada. Do Velho Oeste até a Velha Casa Branca, o autor explora a emergência do boquete como o ato sexual mais característico da pátria.
Há algo mais trágico do que a despedida final entre Humbert Humbert e Dolores Haze (a sua própria “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne”)? Eles se encontram na moradia lúgubre onde ela retirou-se para virar uma máquina fixa de bebês para uma prole qualquer. Não apenas ela diz a Humbert que nunca irá vê-lo novamente, como também o enlouquece descrevendo as “coisas extravagantes, estranhas e repugnantes” as quais ela fora exposta pelo seu rival odiado, Quilty. “Que coisas, exatamente?” ele pergunta, numa voz calma onde a palavra “exatamente” nos faz ouvir o seu quase impronunciável rosnado baixo de miséria e raiva: “Coisas malucas, coisas repugnantes. Eu disse não, eu não vou simplesmente [ela pronunciou, toda indiferença, um termo asqueroso que, numa tradução literal do francês, seria souffler] seus rapazes ferais…”
Souffler é o verbo “assoprar”. Em seu particípio passado, pode descrever uma leve porém deliciosa sobremesa que, bem, derrete na língua. É dito com frequência, de forma levemente sugestiva, que “você não pode fazer um soufflé se erguer duas vezes.” Vladimir Nabokov falava perfeitamente russo e francês antes de se tornar um mestre sem rivais da prosa inglesa, e sua obra de arte de 1955, Lolita, foi considerado o livro mais transgressivo já publicado. (Talvez ainda seja.) Por que, então, ele não pode se permitir escrever as palavras “chupar” ou “boquete”?
Não é como se Nabokov fosse hesitante. Repare, por exemplo, quando a enteada de Humbert ainda está sob o seu poder (e ele sob o dela):
“Conhecendo a magia e a capacidade de sua própria boca macia, ela conseguiu — durante um ano escolar! — aumentar o preço da recompensa por um encontro afetuoso para três, e até mesmo quatro pratas. Ah, leitor! Não rias quando imaginares a mim, no próprio suplício do prazer, emitindo ruidosamente moedas e mais moedas, além de notáveis dólares prateados como uma máquina harmoniosa e tilintante, atormentada por completo, vomitando prendas…”
“A magia e a capacidade sua própria boca macia…” Poetas eróticas homenagearam durante eras, apesar de substituirem com frequência a palavra “seu”. O menu das opções de um bordel na antiga Pompeia, preservado por séculos de soterramento vulcânico, o exibe em seus afrescos. Era considera, como o pobre Humbert sabia bem, ser digno de pagamento. As gravuras talhadas nos templos da India e o Kamasutra fazem uma menção generosa, e Sigmund Froid questionou se uma passagem nos cadernos de Leonardo da Vinci não demonstraria uma antiga ligação com o que numa “sociedade respeitável era considerada uma perversão abominável.” Da Vinci pode ter preferido escrever em “código” e Nabokov ter escolhido dissolver em francês, como ele costumava fazer quando tangenciava o picante, mas a famosa palavra “fellatio” vem do verbo em latim “chupar”.
Bem, então qual é — assoprar (blow) ou chupar? (Uma piada velha: “Não, querida. Chupe-o. ‘Assoprar’ é mera figura de linguagem.” Imagine o desentendimento que deu origem a esse gracejo.) Ademais, por que o sexo oral teve uma existência dupla por tanto tempo, por vezes subterrânea e em outros momentos ostentada, antes de surgir em público como um ato sexual especificamente americano? Meu amigo David Aaronovitch, um colunista em Londres, escreveu de seu embaraço ao estar na mesma sala que sua jovem filha quando a TV proclamou a notícia de que o presidente dos Estados Unidos havia recebido sexo oral no vestíbulo do Salão Oval. Ele sentiu-se crucialmente melhor, mas ainda tímido, quando a garotinha o perguntou, “Papai, o que é um vestíbulo?”
Acey me contou que ela estava em uma festa e disse a um homem, O que homens realmente querem das mulheres, e ele disse, Boquetes, e ela disse, Você pode ter isso de homens. — de “Cocksucker Blues,” Parte 4 de Underworld, de Don DeLillo.
Eu admiro a letra maiúscula aqui, e você? Mas eu acho que Acey (que no livro é um pouco Deecey) fornece uma pista. Por um bom tempo, o humilde boquete era considerado algo um tanto abjeto, especialmente em relação ao donatário, mas também em relação ao recipiente. Muito passivos, os dois lados. Muito sujo — especialmente nos tempos anteriores a escovação e outras formas de higiene. Muito arriscado — que tal o lembrete da terrível vagina dentata (completamente materializada pela dilacerante cena da mordida em O Mundo Segundo Garp)? E também muito afeminado. Os antigos gregos e romanos sabiam o que estava acontecendo, muito bem, mas é sabido que evitavam os praticantes mais entusiastas por medo de seu bafo unicamente. E um homem em busca dessa consolação podia ser suspeito de ser… feminino. A palavra crucial “boquete” não aparece no idioma americano até os anos 40, quando era (a) parte do submundo homossexual e (b) possivelmente devirada da cena de jazz e sua instrumentação oral. Mas nunca perdeu sua suposta origem vitoriana, que era “trabalho debaixo” [NdT: below-job] (cognato, se você preferir, com o agora arcaico “se abaixar”). Esse termo da prostituição londrina ainda tem um leve bocejo de desdém. Por outro lado, teve seus defensores como protótipo da “foda de zipper aberto”: pelo menos no sentido de uma rapidinha que envolve apenas o desfazer de alguns botões. E então há a enervante expressões, “serviço” (NdT: job), que parece indicar uma atividade de troca em vez de um regalo agradável para todos envolvidos.
Fiquem comigo. Eu venho fazendo o trabalho árduo por vocês. A palavra de sete letras “serviço”, com suas insinuações de opção, também faz o termo especialmente americano. Talvez esquecido quando a Londres de Jack o Estripador retrocedeu ao passado, a ideia de uma manha oral foi reexportada para a Europa e muito além por uma grande vinda de soldados americanos. Para estes amáveis companheiros, como muitas madames francesas, inglesas, alemãs e italianas comprovaram, o boquete era o prazer ideal. Era uma ideia sensata e simples em si. Era tido — nem sempre corretamente- como uma proteção contra a catapora. E — isso é especulação minha — colocava a população ocupada e a invasora em seus lugares. “Faz você algum trabalho pra variar, querida. Eu estou ralando aqui.” Certamente na época do Vietnã, o correspondente de guerra David Leitch gravou repórteres trocando notas: “Quando você chegar em Da Nang pergunte por Mickey Mouth — ela faz o melhor boquete na Asia Sudeste.
Em algum momento, entretanto, deve ter acontecido uma fusão onde um ato majoritariamente proibido e de caráter levemente homossexual foi importado ao mainstream heterossexual. Se eu fui preciso até agora, isso não é tão difícil de explicar (e as datas batem, também). O monopólio gay em boquetes era resultado da anatomia masculina, obviamente, e também do desejo de muitos gays em terem sexo com homens héteros. Era amplamente sabido que apenas homens sabiam fazer o “serviço” direito, já que eles eram reféns atormentados do mesmo órgão em uma frequência constante. (O poema underground do Nova-Iorquino W. H. Auden chamado “The Platonic Blow” — mesmo que não tenha absolutamente nada de platônico sobre ele, e adoravelmente usa a palavra “serviço” — é o exemplo clássico aqui.)
Ou seja, isso era um incentivo que o homem gay poderia oferecer ao hétero, que por sua vez poderia aceitar sem sentir que havia feito nada muito “bicha”. Para muitos héteros, a primeira longa tragédia da vida é primeiro descoberta na juventude, quando ele descobre que não consegue realizar a simples sucção em si mesmo. (Em suas apresentações de stand-up, Bill Hicks costumava falar de forma tocante e com frequência desse dilema.) Praguejando Deus, o garoto então cai num abuso febril de qualquer superfície viscosa ao alcance. Um dia, ele sonha, alguém irá se dispor a me ajudar a cuidar disso. Quando foi convocado para o exército e enviado para o além-mar, segundo inúmeras testemunhas de Gore Vidal a Kingsley Amis, ele pode até mesmo encontrar o sexo oral disponível na rede do lado. E então a palavra se espalha. Pode até chegar um dia, ele lenta mas inexoravelmente conclui, onde até mesmo mulheres poderão ser induzidas a isso.
Através dos anos 50, o segredo florescente do boquete ainda estava contido, como uma fagulha do fogo de Prometeus, dentro de uma caniço secreto. (na França ou na Grécia, a um certo conhecimento meu, a gíria costumava envolver “fumar cachimbo” ou “cigarro”. Eu me importo com a associação de incandescência, mas pelo amor de Deus, querida, não o fume. Eu preferiria que você chupasse mesmo.) Se você puder ler Sexus de Henry Miller ou Story of O de Pauline Réage (ambos publicados por Maurice Girodias, o mesmo parisiense ousado que publicou Lolita), você poderia ler sobre oral e outras atividades, mas eis França para você.
Os quadrinhos de R. Crumb costumavam ter fellation em muitos quadros, mas enfim, isso era a contracultura. Não, a grande exposição ocorre no grande ano de mil novecentos e soixante-neuf, quando Mario Puzo publica O Poderoso Chefão e Phillip Roth traz O Complexo de Portnoy. O livro de Puzo foi um sucesso não apenas pela cabeça de cavalo e a técnica siciliana de peixe enrolado e a oferta que não poderia ser recusada. Ele alcançou grande sucesso no boca-a-boca por causa de uma famosa cena sobre a cirurgia plástica de aumento de vagina, agora popularmente conhecida como “operação Godfather” (perdão por fugir do assunto) e por causa de passagens como essa, com a participação do galã mafioso “Johnny Fontane”:
E os outros caras estavam sempre falando de boquetes, essa e aquela variação, e ele não gostava muito desse tipo de coisa. Ele nunca gostava muito de uma garota depois que eles tentavam dessa forma, simplesmente não o satisfazia legal. Ele e sua segunda esposa finalmente não estavam indo bem, porque ela preferia o velho meia-nove muito mais ao ponto de que ela não queria nada mais e ele tinha de lutar para poder enfiar. Ela começou a caçoá-lo e chamá-lo de careta e o boato se espalhou de que ele fazia amor como uma criança.
Terremoto! Comoção! Telefones tocaram por todo o mundo falante de inglês. Não importa se Johnny Fontane gosta ou não, o que seria isso? E por que diabos é chamado um “boquete”? (As palavras eram, por algum motivo, separadas naqueles tempos (NdT: blow job): eu gosto da forma como elas então se encaixaram confortavelmente depois.) Acima de tudo, repare que foi o sexo normal que virou óbvio e infantil, enquanto o sexo oral era subitamente para homens de verdade. E aqui está Puzo novamente, descrevendo a cena onde uma moça precisando de um novo e elástico interior não está pronta para dormir com seu médico persuasivo, e não está inclinada a agradá-lo de outra forma também:
“Ah, isso”, ela disse.
“Ah, isso”, imitou ele. “Garotas boazinhas não fazem isso, homens másculos não fazem isso. Mesmo em 1948. Bem, querida, eu posso eu posso levar você à casa daquela velhinha bem aqui em Las Vegas que era a madame mais nova de um prostítulo popular nos tempos do velho-oeste. Você sabe o que ela me contou? Que aqueles pistoleiros, aqueles caubóis de mira reta, másculos e viris, sempre pediam às garotas por um “à francesa”, o que nós médicos chamamos de fellatio, o que você chama de ‘ah, isso’”.
Veja a data. Repare também nos caubóis, por outra vez privados de companhia feminina por longos períodos. Agora que sabemos sobre o Monte Boquete, ou do que quer que ele seja chamado, eu acredito que posso dar um ponto para a minha teoria original.
Philip Roth aproveitou o embalo, apesar de ter servido sua culpa e angústia com temperos diferentes. Imperecivelmente tendo seu nome associado com punheta eternamente, suas lutas de Alexander Portnoy feito uma onça ferida, através de seu crescimento, para encontrar uma garota, quão feia fosse, que colocasse o próprio aparelho dentário na coisa dele. Quando ele finalmente persuade a mulher que ele chama de “Macaco” (“uma garota com uma obsessão pel’A Banana”) para fazer certinho, seu sistema inteiro explode numa sinfonia de adoração. “Que traquejo peniano!” ele exclama para si mesmo (consequentemente confirmando a natureza e essência da palavra “serviço”). Por outro lado, sua loira garota Vespa não fará por preço algum, parcialmente por nojo mas também por um vívido medo de asfixia. Portnoy resentidamente pondera a injustiça social daquilo: ela mata patos em ambientes rústicos mas não irá chupá-lo. “Disparar uma arma em um pequeno quack-quack é aceitável, mas chupar o meu pau é muito para ela.” Ele também visualiza a terrível manchete, caso ele insista demais: “Judeu Estrangula Moça Com Pênis … Julgamento Já Planejado.”
Então os anos 60 — os anos 60! — terminaram com o boquete parcialmente hifenado (NdT: blow job) e o assunto como um todo ainda abafado e escondido em roucos sussurros. O elenco de Hair cantava sobre “fellatio” numa lista de coisas como “sodomia” que “pareciam muito erradas,” e o sexo oral era legalmente definido como sodomia em muitos estados da união até que a Corte Suprema derrubasse essas leis apenas três anos antes — Clarence Thomas contra. A expressão coloquial naqueles dias intermediários eram, na minha opinião, a mais crua de todas: “dar cabeça” (NdT: giving head. C’MON!). Você pode ouvi-la na ode monotônica de Leonard Cohen para Janis Joplin em Chelsea Hotel #2, mas também nas letras de Lou Reed e David Bowie. Era um termo “sabido” e marginal, mas conseguiu de alguma forma unir o estúpido ao desprazeroso. Essa situação obviamente não poderia durar muito, e a coisa toda explodiu em 1972, quando alguns amadores reuniram 25 mil dólares para um filme que acabaria rendendo 600 milhões. Não é um país maravilhoso? Esse filme, com atuações de Harry Reems e Linda Lovelace, foi uma das gemas do cinema mais espalhafatosas e menos convincentes já feitas, mas mudou de verdade a cultura e o mundo, talvez até para sempre. É interessante, também, o fato de que Garganta Profunda foi financiado e distribuído pelos membros da família criminosa de Nova Iorque, os Colombo, que ficaram com uma parte exorbitante da grana. Mario Puzo, até então, profeta daquilo tudo, e sem seu profundo insight os Sopranos talvez estivessem ainda chupando os próprios dedos.
O recente e bastante divertido documentário Inside Deep Throat mostra — recriando os tempos paradoxalmente Nixonianos que rebatizaram o Deep Throat para significar fonte em vez de doador — como a América agarrou o cetro olímpico do boquete e o segurou firme. No filme, há a preservada figura de Helen Gurley Brown, a mãe-mór do jornalismo no estilo da Cosmo para jovens moças e autora de Sexo e a Garota Solteira, demostrando sua técnica de aplicação enquanto nos conta como ela evoluiu de não saber nada sobre sexo oral até a realização de que sêmen poderia ser um ótimo creme para a pele. (“É cheio de bebês,” brada ela, incerta sobre o conceito até o último momento.) Ao encerrar, Dick Cavett declara que nós fomos de olhar para uma banca que dizia GARGANTA PROFUNDA, e torcer para que não significasse o que pensávamos, para “as crianças nem consideram isso sexo.” Isso nos deixaria com apenas um problema. Por que dizemos, de algo entediante ou obnóxio, que “chupa” (NdT: it sucks, que é uma droga)? Não deveria ser um elogio?
Há outro motivo possível para que essa antiga forma de fazer amor ter perdido sua associação com o duvidoso e o baixo e se tornou um aperto de mão ideal e americano. Os Estados Unidos são, por excelência, o país da bela odontologia. Como um dos que já foram estirados na sombria cadeira da prática do “Plano de Saúde” britânico, com suas garras cinzas e amarelas, seus aparelhos de fios de aço, seus preenchimentos negros e quebradiços, e suas gengivas sangrentas e atrofiadas, eu me lembro de mal ousar sorrir quando pisei no Novo Mundo pela primeira vez. Por isso quando uma doce garota americana sorria para mim, eu ficava bestificado e derrotado pela adega úmida e quente de sua boca, alinhada com dentes brancos perfeitos e imaculadas gengivas rosas, organizadas em volta de uma língua ternamente, porém inocentemente, enrolada. Oh dó. O que mais haveria para pensar? De maneira a continuar respeitável aqui, apenas direi que nem sempre é tão atraente quando as jovens moças de Albania, digamos, lhe atiram um sorriso descarado que põe sua mente
In order to stay respectable here, I shall just say that it’s not always so enticing when the young ladies of Albania (say) shoot you a cheeky grin that puts you in mind of Deliverance.
The illusion of the tonsilized clitoris will probably never die (and gay men like to keep their tonsils for a reason that I would not dream of mentioning), but while the G-spot and other fantasies have dissipated, the iconic U.S. Prime blowjob is still on a throne, and is also kneeling at the foot of that throne. It has become, in the words of a book on its technique, The Ultimate Kiss. And such a kiss on the first date is not now considered all that “fast.” America was not the land of birth for this lavish caress, but it is (if I may mix my anthems) white with foam from sea to shining sea. In other cultures, a girl will do “that” only when she gets to know and like you. In this one, she will offer it as a baiser as she is making up her mind. While this persists, and while America’s gay manhood is still sucking away as if for oxygen itself, who dares to say that true global leadership is not still within our grasp?
(http://www.vanityfair.com/culture/features/2006/07/hitchens200607)