Escrevi sobre a experiência de Marina Abromovic no Brasil
No documentário Espaço Além — Marina Abramovic e o Brasil, a personagem norteadora foi a espiritualidade, personificada ora nas figuras populares que amparam as religiões, costumes e saberes tácitos da cultura tradicional brasileira; ora na figura da artista envolta num mistério intensificado tanto pelos recursos audiovisuais, quanto pela sua atuação performática. Aceitamos o mistério pois que há o convite de Marina nos dizendo: olha bem para minha dor.
Quem acompanha a trajetória de Marina Abramovic mais de perto, sabe que a nudez dá razão a sua arte. Dessa vez ela desnuda a mulher, a Marina que foi deixada pelo ex-marido para ficar com outra. Aliás, desastres amorosos é um tema recorrente em sua trajetória, desde a performance intitulada The Lovers, onde os amantes, de uma ponta a outra na muralha da China vão encontrar-se num abraço que diga adeus; mesmo no documentário que antecede a este: The Artist Is Present, Ulay (já outro ex de Marina mais antigo), tanto quanto a artista, está presente. Manuel de Barros nos alertou desde cedo num de seus poemas “sem amor é que encontramos com Deus”; sem citar nenhum Deus, dando a cara a bofetadas, Marina vai em busca do sagrado.
Aqui, a fragilidade da artista é ao mesmo tempo o seu escudo, posta que está exposta. A crise que impulsiona o decorrer das imagens é a mesma que vai tecendo o processo de autoconhecimento e descobertas. Em tom confessional, Marina vai narrando cada uma das experiências porque passa nos rituais, nas plantas medicinais, na culinária; ao tempo que avança em sua jornada espiritual. De um lugar para outro a intenção é uma só, acessar a si mesma motivada pelo o que há de mais interno no outro, a espiritualidade. É bonito pensar como a gente brasileira empresta a mulher artista a ordem invisível, a sua fé.
Por outro lado, as ideias estéticas a que o documentário recorre não são inovadoras. Se Arlindo Machado propõe que o artista use os aparatos tecnológicos já pré programados numa perspectiva industrial de produtividade num sentido desviante a isto, o documentário de Marina no Brasil não se distancia de um produto palatável destinado a espectadores mais leigos. As técnicas e os artifícios que concebem as imagens são em muito, tão somente, modelos da linguagem midiática. Pessoalmente, considero os documentários especialmente bonitos por causa do erros, das falhas, das sobreposições e improvisações, como a vida é ela própria; no entanto aqui, isto não aparece.
Ademais, numa perspectiva mais antropológica, mesmo assim cabe o questionamento sobre se a maneira como as entidades que representam a cultura nacional estão sendo beneficiados pela “espetacularização” de suas identidades. E, ainda, se é justo lograr dessas figuras sem nenhum realce político.
