Me vê um amor e uma porção de fritas, por favor.

Quando foi que enlatamos os nossos sentimentos? A gente aprende de tudo nessa vida e mal percebe que aprende também a sentir. Sentimos educadamente, é proibido sentir fora das regras. Pega a listinha, vamos ver se esse sentimento aqui tem tudo pra ser uma paixão de verdade: tem borboletas no estômago? check; tem sorrisos fáceis? check; tem músicas que lembram o crush? check; vontade de se verem toda hora? tem sim, senhor. Pronto, ta aí nossa listinha da mais autêntica-enlatada paixão que conseguimos achar nesse mercado improvisado de emoções.

https://branditative.wordpress.com/2012/07/14/andy-warhol-and-his-muse-the-campbell-soup-can/

É como se tivéssemos perdido a capacidade de sentir à medida que aprendemos a “sentir”. A gente colocou uma certa natureza no sentir, uma essência transcendental a própria ação de sentir, uma determinação prévia de como se deve sentir. Hoje sentir é uma joia rara, sentir se tornou um projeto para além do aqui e do agora, esperamos e esperamos que o sentimento venha enlatado de determinada forma e o agora passa sem que tenha a nossa autorização para que possa ser vivenciado.

Mas a vida grita, cansa de não ser ouvida e há horas que as nossas expectativas sobre o que sentir explicam pouco ou quase nada do que a gente vive. Por que eu não estou morrendo de ódio de tal pessoa em tal situação? Por que eu sinto que eu te amo sem nunca ter te visto? Por que eu sinto saudades de histórias que ainda não vivi? O erro tá em você que sente errado, não fez a checklist, não conseguiu encaixar a vida nessa equação de expectativas que criamos sobre o mundo. Odeia, ama e tem saudades de forma mal educada. Não é normal, isso não pode ser de verdade.

E não é que a gritaria da vida pode nos acordar desse sonambulismo, desse autonomismo das emoções. Parece que quando erramos em sentir, acertamos. Quanto mais errante, mais os caminhos duros dos “verdadeiros” sentimentos se amolecem. Quanto mais desconfiamos do que nos foi ensinado e mais confiamos no inominável aqui e agora, mais nos autorizamos a sentir e a ser. Parece que se suspendermos tudo aquilo que a gente espera dos nossos sentimentos a gente finalmente consegue sentir.

Nunca entendi aquela coisa de “amei mais fulano do que beltrano”. Colocar o amor em unidades métricas com variáveis objetivamente comparáveis: mais carinhoso, mais bonito, mais gentil, mais charmoso, tudo isso era mais e melhor em fulano e mesmo assim parece que esse recorte universalizador e genérico de fulano o transformava em uma ideia de fulano, comparável com beltrano à medida que essas variáveis podiam ser comparadas. No entanto as variáveis e o próprio fulano se perdem conforme os reduzimos, racionalizamo-los nas vivências e nas percepções que tivemos com essas entidades e, de novo, criamos uma expectativa sobre a manifestação dessas coisas na nossa relação com elas.

Esse processo todo de esperar que o mundo se repita de forma análoga ao seu passado com ele não passa de uma industrialização das emoções e da existência, a gente se tornou eficiente e producente na padronização de emoções sem se deixar surpreender com a vivência e o mundo que desabrocha novamente a todo instante.

Aprendemos o que é o amor romântico vendo novela, ouvindo música, filmes, vendo as pessoas de mãos dadas na rua, com as histórias da família, com Camões, no carnaval e sem perceber acabamos por enlatar uma forma de sentir, a gente sente mais ou menos aquilo que a galera chamou de amor, então deve ser isso mesmo, deve ser amor de verdade, tudo aquilo que divergir dos padrões que criamos é mentira e uma coisa não pode ser verdade e mentira ao mesmo tempo. Pois é, o mundo não é tão sólido como uma porção de fritas.

Essa lógica de consumirmos o mundo nos afasta de uma possibilidade de produção autêntica da nossa vida, não que a vivência possa ser previamente idealizada e planejada para ser colocada em prática posteriormente, a existência precede a essência, a vida urra sempre mas é preciso estar atento para o tamanho da nossa surdez e é aí que podemos nos autorizar a um certo artesanato das emoções.

Assim como o artesão constrói cada detalhe do seu artesanato, é preciso também que nos deixemos abertos a viver as emoções em seus detalhes, por vezes contraditórios em suas belezas grotescas, em suas breves infinitudes, em suas farsas verdadeiras.

Cada aqui e agora é autêntico, até a mais monótona rotina é policromática, basta existirmos, basta ininterruptamente desaprendermos a consumir essas emoções enlatadas como se fossem mais uma porção de fritas.