Um Domingo de T.I.V.

5:45 da manhã, caindo a brisa característica dessa época em João Pessoa. As vezes, mesmo que o dia abra o conhecido sol de 32 graus, nessa época do ano aparece essa garoa. Na moto o frio afeta, mas é ameno se comparado. Já senti frio maior que esse na vida. Já senti frio maior que esse na alma. 21C não é nada. Chegar na repartição pela manhã não é o meu habitual, Meu turno começa sempre as 12h, mas hoje serão 12h só que de trabalho - 6 as 18 - o que não vem a ser algo inédito pra mim. Botar a farda, pendurar a roupa úmida e aguentar as piadas da rapaziada. Chegou por último... A minha sorte [nesses casos] é ser bom de resposta. Café , bolacha, um rádio tocando musica cristã, conversa sobre o cotidiano, o que vimos no jornal. De mim para os demais colegas essa manhã há uma diferença de no mínimo 20 anos de idade. Aos 33, aqui, eu sou o bói. Gastamos cerca de meia hora nesse ritual. Mais 20 min pra o pessoal bater um café da manhã decente. Cuscuz com galinha guisada, ou carne guisada, ou invés de cuscuz, arroz.

Dia de domingo, efetivo pequeno. O supervisor é o mesmo, pro TIV e pra rua. Chovendo até o momento, café feito. Me encosto na porta pra fumar um cigarro. Pra deixar passar o dia....

O público no início da amanhã não é dos mais variados. Basicamente crentes, trabalhadores em regime de escala e autoridades públicas. PM, GM, e nós Amarelinhos. Sem muita confusão, povo acanhado, dia nublado. Café é toda hora. De manhã minha função é a de Rádio Comunicador. Recebo as queixas por telefone ou por rádio e transmito para os responsáveis pela área onde o ocorrido em questão se deu. Das ocorrências da manhã, uma curiosa. Um veículo capotou em baixo do viaduto da BR que passa sobre a Av. Tancredo Neves. Equipe entrou em contato para que fosse avisada a polícia, o SAMU já havia sido chamado. Vários populares ao redor do carro, para ajudar a vítima? Não. Para saquear as pequenas peças do carro. Retrovisores, frisos laterais, até o para-choque estava sendo mirado. Ao chegar no local, a equipe do SAMU constatou que a vítima apresentava sinais de embriagues, e alguém - não sei porquê - falou bem alto; “vai ter que fazer bafômetro”. A vítima, ao ouvir o recado, milagrosamente saiu sozinho de dentro do veículo, levantou-se e correu tão rápido que nem um maratonista alcançava. Deixou carro, documentação, deixou carteira, celular, deixou tudo. Deixou até os atendentes do SAMU de toca, e de cara!

Próximo as 10h, começa a chegar o guerreiros, os praieiros, a turma da farofa. Muito meninos correndo, todo mundo de pouca roupa. Alguns já destrinchando um pedaço do galeto ali mesmo na plataforma. Lambendo os dedos para aproveitar até a graxa... Alguns já emborcando suas latinhas. Não vendem bebidas na Integração, não abertamente. Se perguntar na encolha pode até ser que você arrume, mas no normal, não. Tem também quem já esteja na cachaça; “Eu comecei foi ontem, guarda. Já vou chegar na praia quente. Pode chover canivete”. Esse é o espírito, eu acho. Tem que ser muito bagaça pra topar esse rolê assim de boa. Cada um acha seu modo de ser feliz.

Por volta do meio-dia, o sol que aparece já é bem mais efetivo. Sobe um calor de 29°C, E a categoria praieiros domina a integração. Hora do almoço, da troca de turno da equipe, eu vou &dobrar. Dois turnos não é fácil, por mais tranquilo que seja você termina exausto. Vou ligar para a pequena e saber como ela está. Se alguém desse casal estiver bem, já está valendo!

Turno da tarde já começa tenso. Primeiro que foi resenha pra conseguir garantir que minha quentinha viria, liga pra não sei quem que não sei o que lá pra autorizar... Disse logo pelo rádio “alguém vai ter que resolver isso ai que eu não vou tirar 12h de turno na fome”. Resolveram, mas não trouxeram. O idiota que se prontificou junto ao supervisor pra trazer, depois que conseguiu o dele, sentou-se e tratou de apreciar sua bóia, enquanto eu e os dois agentes de limpeza que apoiam o TIV passávamos fome. Cheguei lá pra pegar o meu tava a beleza sentada bem de boa comendo. Ouviu logo um esculacho, tenho certeza que o resto de prato desceu a pulso. Cabra safado rapaz! a única tarefa do triste era descer com o rango pra cá, acabou me dando o trabalho de sair atrás, se não eu só almoçava de 14h. Tá doido! Já comi na raiva, mas deu pra sustentar. E a galera da limpeza, coitados, que muitas vezes não têm direito nem de reclamar, se sentiram representados. Comemos os três, como se faz num domingo em casa. Quem tá no mesmo barco afunda junto, ou nada!

Por volta das 15h começa a treta. Os mofis e as novinhas voltam da praia com a cabeça cheia de mé, e tudo corajoso. “Venha mizera, que eu vou lhe furar”, gritou um bói pro outro instantes antes da GM chegar e por os dois pra fora, no cacete. Puta merda, não é legal de ver, mas você prefere que aconteça ao ver um jovem de uns 14 anos esfaquear outro na calçada. Melhor ver os dois levando tapa. Até as 18h a situação só vai piorar, tem jogo no Almeidão e isso significa que a Torcida Jovem do Botafogo vai lotar a plataforma I, com gritos de guerra e bandeiras tremulantes, dando pal em quem passar com camisa de outro time. A PM envia duas patamos, os GM manda 3 motoqueiros pra reforço. Fica ou clima de gato e rato. Da janela de trás da cabine da pra ver os bóis fumando, bebendo e cheirando (pó e loló). De repente o bote. Se der tempo de livrar o flagrante na bolsa das meninas, bem. Se não, já viu! O lance de jogar na bolsa das meninas funciona não há revista em mulheres, já que não há soldado do sexo feminino. Os menores sabem desse detalhe, só mulher pode revistar mulher. “Pra todo sistema, tem um esquema”, esse é o deles.

A situação vai ficando mais crowdeada quando já é bem próximo da hora de sair, e depois de um dia inteiro de T.I.V. eu me sinto cansado demais para interferir em algo ou sequer formar alguma opinião sobre toda aquela muvuca... Acendo um cigarro, com um copo de café pra deixar terminar o dia...

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