Sei que não há objeto aqui destituído de valor

Sei que não há objeto aqui destituído de valor. Ou será que fui eu que comecei a criar narrativas para cada um deles? Sei que fiz disso um longo trabalho, um processo quase analítico de mapeá-los, quase intuitivo de ouvi-los responderem em sua mudez de objetos. Encontro rastros dele, do homem com quem vivo, e de outras mulheres. Já aprendi que não se pode odiar uma mulher sem odiar si mesma. Então também são rastros meus e imagino que uma delas, atenta, também pode achar os meus rastros, que aqui são mais visíveis ou mais camuflados.

Tornei-me uma arqueóloga de objetos cotidianos. O processo consiste em estar atenta e comparar. Já encontrei pentes e espelhos, fluidos, fotografias, fios de cabelo e papeis. Sinto-me em processo de colonização, deixo que esses objetos sem valor ocupem-me, invadam-me, saqueiem-me. Às vezes o que encontro é ainda mais sutil: objetos e móveis fora de lugar denotam que alguém esteve aqui depois que sai e antes de quando cheguei.

Pois há as mulheres atuais e as mulheres antigas. Das atuais, fica o rastro. Das antigas, fica o museu que é esta casa. Fico aqui tateando essas formas, batendo os dedos sobre elas para saber se são ocas, se me respondem. E respondem. Contam-me histórias sobre seu passado com esse homem, como foram capturadas até que se tornassem uma cadeira, um quadro, um abajur.

Em uma de minhas escavações, encontrei um álbum com fotos do que foram essas mulheres. Talvez seja pela imagem que a transformação se faça. Houve, inclusive, a foto de apenas dois pés, metonímia de alguma delas, que, com certeza, serviu para consertar alguma cadeira com um apoio em falta. Porque não se pode se desfazer de uma mulher, então é preciso poupar, transformá-las em objetos úteis, quando já não podem mais ser objetos úteis sendo apenas mulheres.

No porão, aonde nunca fui (porque de lá jamais retornaria), há os restos, aquilo que não pode ser reaproveitado, mas que também não poderia ser jogado fora sem que se tornasse a prova de um crime. Não sei ao certo o que são esses restos, mas há sempre o cheiro de algo em decomposição.

É impossível pensar que a casa me pertence de alguma maneira, como ele gostaria. Sei que, um dia, eu mesma pertencerei à casa. Estarei na parede, sustentada por um prego; ou no armário, pronta para vesti-lo com minha pele. E esperarei que outra me fareje até que possa dizer a ela a tempo: fuja.

Quando ele se vai, os objetos começam a se comunicar e, em um desses momentos, ouvi boatos de que há a possibilidade de rebelião. O abajur ameaça pôr fogo em tudo, os quadros se precipitam para a queda, o relógio ameaça parar, com a pretensão de frear também o tempo, e o burburinho começa.

Os objetos se desentendem, e, de repente, o debate deixa de ser sobre uma rebelião e passa a ser sobre como se sofre mais sendo sustentada por apenas um prego na parede, e outro objeto diz que é infinitamente mais sofrível ser o pé da cama e sustentar o peso dele e de outras mulheres que, um dia, também se tornarão objeto desta casa. Os objetos jamais entram em consenso e logo ele volta, então é preciso novamente ficar em silêncio.

Uma das noites, enquanto ele dormia, acordei com um dos sussurros do rádio à pilha, uma das suas ex-mulheres que falava demais. Ela não conversava com as outras mulheres-objetos mas com os restos delas, aquele que vivia no porão. Encolhi-me com medo de ser tragada. Mas uma das mulheres-objeto, não relembro qual, disse que era seguro, que eu poderia me locomover porque era noite, e a noite abraça todas as mulheres em sua subjetividade.

Passo por passo, desci até o porão. Jamais saberei explicar o que é que vi. O resto de uma daquelas mulheres havia se ligado com outro resto de outra mulher, que se ligara com outro, de outra. O que vi era um grande monstro feminino, com um sem-fim de seios, bocas, vaginas, mãos e dedos. O monstro não me viu, com seus infinitos olhos. Mas subiu as escadas, silencioso, até a casa. Com suas infinitas mãos e infinitas bocas, foi devorando os móveis, a geladeira, o teto, as lâmpadas, os enfeites e os souvenires, parte por parte, todas as mulheres-objetos, até que não restasse nada.

Já empanturrado, o monstro deitou-se sobre os escombros e ficou. E foi se deformando até que dele saísse uma e mais uma mulher. Todas, uma atrás da outra, quase sonâmbulas, foram saindo, cambaleantes e fracas, para despertar para a vida que haviam deixado.

Quando o monstro se desfez por completo, o homem acordou de seu sono. E não havia casa, sequer roupas, sequer espelho. Havia apenas um homem sem casa. Ou talvez nem sequer houvesse um homem.