Resgatando a Observância do Dia do Senhor — Uma Abordagem Panorâmica

Observação Preliminar: esse breve artigo se trata de um resumo e adaptação do livro “O Dia do Senhor”, de autoria de Joseph A. Pipa, publicado pela editora Os Puritanos.


Devemos iniciar essa reflexão ponderando sobre o fato de que o dia do Senhor é um dos dez princípios imutáveis os quais o homem corrompeu. Nesse breve artigo, desejo fazer uma abordagem panorâmica a respeito do tema para percebermos a importância desse princípio, e então, resgatarmos nosso amor e zelo pelo dia do Senhor, o shabbat cristão.

Antes de qualquer coisa, devemos nos surpreender em observar que o princípio moral do dia do Senhor não tem sua origem nos dez mandamentos (registrados em Êxodo 20). Antes disso, em Gênesis 2.1–3, pelo seu próprio exemplo, Deus fornece duas características elementares desse dia: dia de descanso e dia santo.

Êxodo 23.12 deixa evidente que esse dia é um dia de descanso. Todavia é preciso perceber que a questão não é apenas a cessação do trabalho em si. O descanso desse dia se trata de um santo descanso. Os puritanos chamavam-no de o Dia da Feira da Alma. Ou seja, aquele dia em que descansando nosso corpo, nos preocupamos em alimentar nossa alma abundantemente. A metáfora é precisa: assim como há um dia em que vamos à feira comprar mantimentos para nosso corpo, o dia do Senhor é o dia das transações espirituais. Isso ilustra a santidade desse dia, pois tendo sido ele estabelecido para abençoar o homem (cf. Mc 2.27), o propósito essencial desse dia de adoração e serviço espiritual gera seus frutos espirituais que santificam o homem nutrindo sua alma.

Em Êxodo 20.8–11 temos esse princípio eterno surgindo na TORAH. O curioso é que o 4º mandamento é o único em que a palavra “lembra-te” está emparelhada. Isso mostra que a observância desse dia não é algo eminentemente judeu, pois está vinculada à criação. Podemos, inclusive, tirar disso o princípio que um dos propósitos do dia do Senhor é lembrar que Deus é criador e redentor soberano (ver Êx 31.17 e Dt 5.15).

Lembremos que originalmente três mandatos foram fornecidos antes da queda: o mandato social (onde o homem deveria se relacionar com seus semelhantes), o mandato cultural (em que o homem deveria dominar sábia e amorosamente a criação) e o mandato espiritual (onde o homem deveria cultivar seu relacionamento com Deus). Gênesis 2.16–17 registra esse último. E o dia do Senhor serviria como um meio pelo qual o relacionamento com Deus seria alimentado e fortalecido. Números 28.9–10 mostra o shabbat como um vigoroso dia de adoração, e o Salmo 92 é intitulado “Cântico para o Dia de Sábado”. Todos os textos mostram que propósito principal do dia do Senhor é alimentar nosso relacionamento com Deus.

Êxodo 31.16–17 mostra outra realidade muito importante do dia do Senhor, a saber, que o mesmo serve de sinal do pacto entre Deus e seu povo. Por exemplo, Ezequiel 20.12–20 deixa claro que o shabbat era uma lembrança aos povos vizinhos que Israel era o povo escolhido por Deus para um relacionamento único. Sendo assim, para Israel, o shabbat apontava para duas direções: Para trás, lembrando-lhes de Deus como Criador que após a queda prometeu-lhes salvação por meio de um Redentor. Para frente, lembrando-lhes que pela fé deveriam esperar o salvador prometido. O dia do Senhor sempre foi um sinal perpétuo daquilo que Deus fizera e que ainda iria fazer ao seu povo.

A Circuncisão e a Páscoa foram substituídos, mas dois sacramentos (Batismo e Ceia do Senhor) continuaram sendo um sinal do pacto para o povo de Deus. Do mesmo modo, o dia do Senhor mudou do sábado para o domingo, mas continua sendo um sinal da aliança para o povo de Deus. Nesse sentido, para nós, cristãos, o dia do Senhor também aponta para duas direções: Para trás, para a ressurreição de Cristo, e nos lembra que quando descansamos nele, nossos pecados são perdoados. Para frente, afirmando que Cristo voltará e nós viveremos com ele em perfeita felicidade e descanso para todo sempre.

Finalmente, Hebreus 4.9–10 aponta para a mudança do dia. O autor aos hebreus deseja mostrar que Cristo inaugura uma nova era escatológica. Nesse texto um descanso é prometido para o povo de Deus. Essa palavra descanso sugere uma observância religiosa. A forma verbal dessa mesma palavra aparece em Êxodo 16.30, Levítico 23.32, 34–35. E em cada um desses textos a ideia é a de guardar o shabbat ou observar o dia do Senhor. O que o autor aos hebreus está dizendo é que seus leitores devem deixar de olhar para trás (judaísmo) e passem a olhar para frente (cristianismo). Eles devem ter esperança num descanso futuro, mas enquanto esse bendito dia não chega eles devem antecipá-lo guardando o dia do Senhor continuamente. Permitam-me enfatizar o ponto: quando guardamos o dia do Senhor estamos deixando claro para todos ao nosso redor o quanto esperamos pelo bendito dia que Jesus voltará. É como se nós o contemplássemos antecipadamente na medida em que observamos o 4º mandamento.

Além disso, esse texto também aponta para mudança do dia. Na Antiga Aliança era o sábado. Mas esse texto, especificamente o versículo 10, aponta para o domingo como dia do Senhor. Como assim? O escritor compara o repouso de Cristo de sua obra de redenção com o descanso de Deus da obra da criação. Em que dia Deus descansou de sua obra? No sábado, e por isso os judeus guardavam-no. E Cristo? Em que dia? No domingo, afinal até que ele ressuscitou, ele não havia concluído sua obra de redenção, e tendo ressuscitado no domingo ele lança o sábado para o túmulo. Por isso devemos guardar o domingo (e com o zelo que os judeus piedosos guardavam o sábado).

Há apoio na Bíblia para essa mudança de dia (do sábado para o domingo)? Veja João 20.26 (“oito dias”, ou seja, domingo). Esse texto aponta para a ideia de que a igreja já atribuía ao primeiro dia da semana uma importância central de culto e reunião. Observe Atos 20.7 e I Coríntios 16.1–2. Ambos os textos usam a expressão “primeiro dia da semana”. Finalmente, veja Apocalipse 1.10 que usa a expressão “dia do Senhor”, que significa um dia exclusivamente do Senhor Jesus Cristo. Ou seja, o domingo — dia da ressurreição.

Portanto, para que haja resgate de uma fiel observância ao dia do Senhor, se faz necessário resgatar o entendimento que o Antigo Testamento dá ao 4º mandamento com todas as suas exigências, bem como a compreensão da transição do sábado da Antiga Aliança para o domingo na Nova Aliança, mantendo, contudo, todas as mesmas exigências do Antigo Pacto. O dia é mudado, não o princípio atrelado ao dia.

Esse dia só será resgatado na medida em que for entendido como a Bíblia o revela, bem como na medida em que a Bíblia ensina como dele fazer uso. Encerro com palavra do puritano Thomas Hooker: “A santificação do domingo não é melhor que a sua profanação?”. Que Deus nos abençoe!