Eu sou uma pessoa real

Se eu, brasileira loira de olhos azuis e estudante universitária, entrasse em um bar ou até mesmo em um vagão de trem, metrô ou qualquer outro lugar em que as pessoas podem te julgar e analisar, ninguém jamais me classificaria como minoria. Ninguém, exceto se por alguma razão tais pessoas vissem meus aparelhos auditivos.

Sim, as aparências enganam. Sou acima de tudo deficiente auditiva, ou de acordo com o modelo social da deficiência, uma pessoa com deficiência auditiva. Essa é a primeira palavra que me vem à cabeça quando me pedem para me descrever. Nunca foi mulher, brasileira, loira ou qualquer outra palavra que possa ser usada nessa situação, e nenhuma dessas palavras seriam segunda, terceira e assim vai. Nenhuma.

A segunda palavra é invisível. Eu sempre disse que uma das deficiências mais invisíveis é a auditiva, pois veja bem, a pessoa com deficiência visual é facilmente identificada através dos óculos escuros ou bengala para cegos (embora seja errado dizer que a bengala serve somente para os cegos) ou até mesmo pela forma de estar usando alguém como guia. A pessoa com deficiência física é reconhecida facilmente pelas próteses, cadeiras de rodas ou muletas e afins. A pessoa com deficiência intelectual é reconhecida pelos gestos corporais, atitudes, fala e outros. E a pessoa com deficiência auditiva? Muitos só percebem que alguém é surdo quando esse usa alguma linguagem de sinais ou até mesmo tem dificuldades extremas de falas. Mas e eu?

Sou capaz de contar nos dedos a quantidade de pessoas que descobriram por acaso que eu era deficiente auditiva. Todo o restante acabei contando ou alguém contou a eles. Alguns descobriram porque prendi o cabelo ou porque bateu vento no meu cabelo. Raríssimos descobriram porque em algumas situações, eu não ouvia eles me chamando. Em alguns lugares, fui capaz de viver mais de 3 anos sem uma única pessoa perceber.

E ainda assim, sou considerada um role model* pelo fato de eu estar cursando audiovisual, por ser capaz de falar inglês, além do português, e conseguir entender espanhol, por eu ter sido voluntária na San Diego Comic Con, por eu ter conseguido isso e aquilo. E ainda assim, sofro com a invisibilidade.

Muitas pessoas dizem que eu sou o role model delas por tudo isso, e eu fico então me questionando se eu sequer sou considerada uma pessoa real e normal, porque para mim, do meu ponto de vista, eu não faço nada de extraordinário. Não sou a Mulher-Maravilha para ser role model. Eu levo uma vida absolutamente normal com zero pingo de feitos extraordinários.

Como mencionei, sou estudante de audiovisual e semestre passado, o meu 5º semestre, era o semestre de propor temas e desenvolver o projeto de documentário que seria então realizado no 6º semestre se fosse aprovado durante o pitching**. Eu fiz uma proposta de tema, mas infelizmente não passou por falta de pessoas. O tema? Preconceito invisível. Algumas pessoas vieram me falar que adorariam estar nesse projeto, mas já estavam em outros ou tentando passar o próprio. Outros vieram dizer que esperavam o projeto passar, mas dizendo também que eu era uma inspiração ou uma pessoa que eles admiravam.

Momento da verdade? Eu sabia que não ia passar. Por uma razão muito simples: estou numa sala que A) sou invisível para a grande maioria (consigo contar com os dedos de uma mão quem veio atrás para conversar sobre a minha perda auditiva e o meu mundo de deficiente auditiva) e B) nunca se manifestou de forma positiva ou negativa em relação à minha luta por mais direitos e dignidade humana ou até mesmo passa por cima quando falam “Eu defendo a igualdade de gênero” ou até mesmo “Eu defendo a igualdade de gênero e racial”. E nas estrelinhas, é uma frase que me faz sentir invisível, porque não estou ouvindo “Eu defendo a igualdade” e, portanto, não me sinto incluída na sua luta.

E ainda assim, propus. Propus porque eu queria dar uma chance ao projeto, uma chance para essas pessoas me provarem errada. Propus como um desafio para essas pessoas me provarem que elas tinham consciência da minha luta e também das imensas falhas e lacunas da sociedade em que vivemos.

No fim das contas, elas me provaram certa e me deixaram bastante decepcionada. Não diria triste, mas decepcionada que ninguém pareceu se importar ao ponto de dizer “Eu quero fazer parte da sua luta” diretamente ou indiretamente. Sequer alguém disse “Eu estou consciente da sua invisibilidade e quero saber como posso ajudar você na sua luta”. E decepcionada por ter percebido que novamente estou estudando com pessoas que irão perder a oportunidade de entender o meu mundo, que tenho quase certeza que irá ser o mundo deles daqui a algumas décadas, se não antes.

No momento que meu projeto foi sacrificado, me lembrei do meu último dia no Ensino Médio, em que a minha então professora de inglês fez um discurso que tem me acompanhado até hoje e é uma das poucas coisas que me motiva a continuar batalhando por mais visibilidade. Ela inclusive disse em voz alta que aquela sala que estudou comigo por três anos desperdiçaram uma chance de aprender e serem pessoas melhores. E ao mesmo tempo, eu sentia uma pontada de decepção, assim como uma das piores sensações da minha vida: aquela sensação de ácido na garganta e na boca.

É essa sensação que tenho quando vejo alguém se chamar feminista e dizer que só se preocupa com a igualdade de gêneros, ou quando vejo alguém que diz que militam pela igualdade racial e de gêneros. Nunca, na minha vida, vi alguém dizer que militavam pelos direitos igualitários. Nunca me senti incluída na militância de alguém que faz parte do meu círculo de conhecidos ou amigos. Nunca. E é uma sensação desagradável, tão desagradável quanto perceber que mesmo sendo invisível, você é role model de alguém.

Eu me recuso a ser role model de alguém enquanto eu for invisível, por uma simples razão: ser role model significa que sou a inspiração para alguém, o que me faz não ser uma pessoa real para tais pessoas. Tal ato de inspiração reduz o meu valor como pessoa real. Existe a ideia vendida a nós que ter deficiência é algo ruim, enquanto ensinam a vocês que somos objetos de inspiração. Eu sou uma ideia objetificada e enquanto eu for invisível e não for considerada como uma pessoa real, eu continuarei sendo objetificada em benefício das pessoas que não possuem deficiência. Basta ver aquelas imagens com atletas com deficiência com a frase “Se ele consegue, você consegue!”.

Eu faço nada de extraordinário. Aprendi a viver com os limites da minha audição da mesma forma que alguém sem deficiência aprendeu a viver com os limites da audição dela. Eu não sou excepcional.

Eu sou uma pessoa real. Uma mulher. Uma jovem adulta. Uma estudante universitária. Todas essas classificações deveriam vir antes de três palavras: portadora de perda auditiva. Mas infelizmente, vivemos ainda em um mundo que não está preparado para incluir pessoas como eu ou sequer suportar pessoas como eu.

A filosofia da inclusão parte do seguinte princípio: mudanças beneficiam a todos, sem benefícios exclusivos a um grupo de pessoas, portanto, a sociedade se adapta às necessidades de todos e defende as necessidades de todos. Existe também, nessa filosofia, a valorização da independência de pessoas com deficiência, sem o disfarce de limitações de tais pessoas, já que a limitação é visível, pois ela existe.

O custo é alto para incluir essas pessoas, sim. Mas esse custo eu já paguei com anos de fonoaudiologia, estudos em escola normal, alfabetização em português, aparelhos auditivos e etc. Eu fiz o máximo que eu podia para me adaptar à sua sociedade. Agora, falta você pagar o seu custo em preparar a sua sociedade em me incluir, seja como aliado da minha luta, seja nas pequenas alterações no modo como sua empresa é organizada, seja nas pequenas ações de incluir alunos com deficiência nas salas de aulas, seja colocando legendas no seu vlog, seja colocando transcrição de podcasts que você produz…. Muitas possibilidades existem.

Eu ainda sonho com o dia em que serei igualmente visível, em uma sociedade que não me considera um objeto de inspiração, me sentirei bem-vinda em todos os ambientes possíveis. Mas também quero viver em uma sociedade em que uma adolescente de 14 anos não vai se olhar no espelho e se perguntar o que há de errado com ela. Ou até mesmo, essa mesma adolescente não cresça tendo baixas expectativas em relação a ela mesma e acredite facilmente que ela é capaz de ter um futuro digno e não precise tentar suicídio para escapar de uma sociedade que não inclui ou reconhece ela como deveria reconhecer: uma pessoa real.

* Em inglês, pois não existe uma palavra na língua portuguesa com o mesmo significado, apenas próximos. Preferi deixar em inglês, por acreditar que muitos já conhecem essa expressão.

** Termo usado com frequência na área do audiovisual. É como uma banca de TCC, porém é a discussão de um projeto que está concorrendo a um edital ou nesse caso, a uma vaga para a a realização do projeto no semestre seguinte.

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