O close errado da Vogue Brasil e representatividade
Antes de mais nada, vou usar trechos de um artigo que escrevi a alguns semestres atrás para a faculdade sobre o discurso midiático da representação das minorias. E queria colocar uma frase importante da Kelly Scoralick:
Na contemporaneidade, vivemos ainda o emergente discurso da valorização da humanidade e do respeito pela diferença.
(O meu artigo pode ser lido aqui)
Não sei quando foi liberada a imagem, mas hoje (24/08), minha timeline explodiu com o close errado da Vogue Brasil, em uma campanha dos Jogos Paralímpicos chamada Todos Somos Paralímpicos. Não viu? É essa imagem aqui:

Observou bem? Que bom, porque eu vou discutir sobre isso. E vou tentar expor a problemática dessa imagem, mas com certeza, algumas coisas vão escapar ou não terei pensado nelas. Mas vamos lá. É uma campanha bastante insensível em vários aspectos, além de ter um leve tempero de falso apoio aos deficientes, sejam quem eles forem. Quantas vezes já fomos usados para que atores ou celebridades se auto promovessem no processo? Quantas vezes fomos usados como exemplos de inspiração sem sermos valorizados como pessoas reais? (Discuti um pouco disso aqui)
Em primeiro lugar, é preciso entender que existe uma discussão à respeito da forma em que a representatividade justa deve ser concretizada na televisão, cinema e etc. Um grupo defende que o que mais importa é que tais minorias estejam expostas, não importa os meios. Outro grupo defende que o importante é que a representatividade seja feita de forma adequada, a fim de evitar repercussão de conceitos negativos relacionados às minorias, além de permitir incluir e valorizar.
É daí surge a problemática da Vogue Brasil e é também por isso que está rolando uma discussão em diversos posts da vida no Facebook. Eu discordo que todas as minorias devem estar expostas, não importando os meios. Eu acredito que esses grupos devem ser valorizados, respeitados e incluídos nessas campanhas. Somente dessa forma eu vou me sentir representada, ou seja, no dia que eu ver alguém exatamente como eu, nascida deficiente auditiva, na televisão ou no cinema ou em uma campanha publicitária.
É daí que surge a representatividade justa, que não é feita através dos outros. Meu trabalho e meu esforço não é valorizado quando alguém, sem deficiência, faz um papel de deficiente. Um dos argumentos contrário a esse que apresentei é: “Ah, mas usar atores mais conhecidos, mesmo que não sejam deficientes, traz um apelo maior”. Sim, traz um apelo maior. Mas à que custo?
O custo é simples: a não visibilidade, o recado de nós deficientes não merecemos estar em uma campanha dessas, o nosso esforço e trabalho é desvalorizado, a ideia de que existem apenas deficiências visíveis, a pseudo representatividade (afinal, eles estão ali representado algo que eles não são), assim como não ter nenhum “role model” para se inspirar ou a não exposição dos deficientes que constantemente batalham todos os dias para conseguirem trabalho ou condições de viver. O mundo é cheio de deficientes e minorias que tentam trabalho. É curioso observar que muitos entendem a problemática da prática blackface e whitewashing praticada por Hollywood, mas não conseguem entendem a problemática de ter um ator cis fazer papel de trans, ator sem transtorno mental fazer papel de personagem com transtorno mental, ator não deficiente fazer papel de deficiente e por ai vai.
Outro argumento contrário também bastante usado: “É mais fácil se identificar com estereótipos”. Pera aí, oi? Em 2016, ainda tem alguém que defende o uso de estereótipos? Estereótipo é preconceito. Não preciso de mais preconceito para me atrapalhar a vida, já basta de gente achando que eu não posso dirigir, não sou capaz de fazer faculdade, não sou capaz de trabalhar com audiovisual, não sou capaz de viver independentemente, sou retardada e etc. Não preciso que esses estereótipos/preconceitos continuem existindo. Pelo contrário, preciso que eles deixem de existir, para que eu possa viver minha vida sem medo.
Eu não quero que essas campanhas usem pessoas que a maioria se projeta nelas ou considerem ídolos. Quero que usem pessoas que as minorias idolatra ou considerem como uma esperança de que elas são capazes de chegarem no mesmo lugar. Não quero ver as pessoas ídolos da maioria roubando essa fagulha de esperança, não quero ser representada através do outro que não tem nada a ver comigo ou que nunca viveu quaisquer experiência que eu vivi.
Eu quero alguém que saiba o que é ir dormir sabendo que você jamais irá recuperar a sua audição perdida, sabendo que você nunca mais vai ouvir a voz da sua mãe ou seu pai ou da pessoa que você mais ama ou que saiba o que é ter medo em situações que a maioria não teria medo. Eu quero alguém que entenda os ataques de ansiedade que tenho quando tenho que sair com um monte de gente que nunca vi na vida, principalmente em uma balada.
Quero isso. Não quero alguém que pode ir dormir sabendo que pode acordar com qualquer barulho estranho. Não quero alguém que ouve o alarme de incêndio, que ouve o alarme do forno ou da geladeira, se tem uma ambulância ou bombeiro vindo na rua enquanto você atravessa, e etc.
Quero alguém que tenha passado pelo mesmo preconceito que eu passei, pela mesma dificuldade que passei. Quero alguém que vive minha luta por mais direitos, melhor qualidade de vida, mais inclusão. Quero me ver nelas, me sentir importante, valorizada e reconhecida. Sim, reconhecida. A partir do momento que você coloca Cléo Pires e Paulo Vilhena como pseudo deficientes, você me deu um tapa e cuspiu na minha cara, dizendo em letras garrafais e violentas que eu não mereço ser reconhecida.
É preocupante pensar que a exclusão de minorias como deficientes, LGBT, índios, mulheres, entre outras, se dê pela articulação da linguagem (em conjunto com a linguagem cinematográfica, publicitária e outros) e pelo código utilizado pela mídia, que não deixa espaço para o espectador questionar ou não a falta de representatividade, uma vez que a mídia deveria ser neutra nesse aspecto. E tais aspectos são amplamente distribuídos e praticados em muitas culturas, não somente no Brasil, então não se trata somente de um fenômeno cultural, mas também geográfico, o que implica que não são impedidos pela barreira da linguagem
Um trecho importante sobre isso, também da Kelly Scoralick (em seu texto intitulado “A representação das minorias marginalizadas no telejornalismo”):
A identidade é simplesmente aquilo que se é: sou brasileiro (não sou japonês, não sou americano), sou negro (não sou branco) etc. Já a diferença é aquilo que o outro é: ela é italiana, ela é branca etc. Ambas são criações sociais e culturais, “são resultado de atos de criação linguística, são criadas por meio de atos de linguagem”. A identidade é marcada pela diferença, que é sustentada pela exclusão. Quando dividimos o mundo entre nós e eles, passamos a classificar. Onde existe a diferenciação estabelecida pela identidade e diferença, está presente o poder de incluir ou excluir, de determinar quem está dentro e quem está fora. É uma forma de demarcar fronteiras, de classificar o sujeito e de normalizar. A normalização é uma forma sutil de manifestação do poder e de hierarquização das identidades e das diferenças. É através da representação que a identidade e diferença se ligam a sistemas de poder. “Quem tem o poder de representar tem o poder de definir e determinar a identidade. É por isso que a representação ocupa um lugar tão central na teorização contemporânea sobre identidade e nos movimentos sociais ligados à identidade”
Logo, é preocupante que a maioria tenha chegado ao ponto de estabelecer algum tipo de ideologia que acaba por prejudicar tais minorias, por permitir um meio consentido (e não necessariamente consciente) de propagação de preconceitos ou ideias/crenças concebidas erroneamente e praticadas contra essas minorais, e portanto, a luta pela representação se torna mais difícil por terem uma barreira, tanto ideológica quanto de informação, impedindo o avanço progressivo dos direitos, acessibilidade, aceitabilidade e outros.
A linguagem visual, por ser uma linguagem que é pouco processada pela sociedade no geral, de forma consciente, acaba então tendo um impacto mais profundo do que uma linguagem verbal, já que a existência de um grupo minoritário na televisão acaba por instaurar mudanças graduais de mentalidade e aceitação dos mesmos. A linguagem visual tem o papel de transpor e tornar visível aqueles que são invisíveis no dia a dia, comprovando que eles realmente existem.
Porém, enquanto a maioria e consequentemente discurso midiático ainda for mantido por estereótipos, preconceitos e ideias pré-concebidas erroneamente, alterações não serão propostas e tais aspectos negativos continuarão a serem propagados, gerando detrimento da imagem de diversas comunidades e gerando dificuldades reais e concretas para tais. O discurso deveria trabalhar a favor da inclusão, cidadania e informações, mas ainda existem interesses sociais e preconceitos que inviabilizam dar uma voz a tais minorias e consequentemente a quebra desse ciclo vicioso já estabelecido e praticado por décadas e décadas pela maioria.