
Shakespeare vive
No dia 22 de julho de 1942, todos os judeus poloneses receberam uma ordem do regime nazista. Seriam “transferidos” para o campo de concentração de Treblinka. Era uma sentença de morte.
Havia algumas exceções, incluindo os judeus que trabalhavam na organização chamada Judenrat. Um desses foi um jovem de 22 anos, Marcel Reich-Ranicki. Ele tinha uma namorada à epoca e e entendeu que eles tinham que casar logo, para que ela pudesse evitar Treblinka.
Marcel, que se transformou depois da Segunda Grande Guerra no crítico literário mais formidável de Alemanha, contou a história décadas mais tarde, no Bundestag, o Parlamento alemão.
‘A cerimônia não demorou. Não me lembro, no meio da confusão, se mesmo nos beijamos. Mas me lembro bem do sentimento do medo e incerteza, do que poderia nos acontecer nos dias seguintes. E ainda recordo a frase de William Shakespeare que me ocorreu no meio de tudo: ‘Ward je in dieser Laun’ ein Weib gefreit?’ — “Terá havido mulher de tal sorte cortejada? Terá havido mulher de tal sorte conquistada?”
Essa história, relatada numa excelente série de programas para a rádio britânica em 2012, mostra a universalidade da obra de William Shakespeare, que faleceu neste dia (23/04) há 400 anos.
A minha experiência de ator não é extensa, mas deixou marcas. O mais próximo que me acerquei à fama foi ter um papel secundário (ou se falo verdade, terciário) numa peça de colégio com Tom Hollander — um ator muito conhecido no Reino Unido — e numa outra com Joss Whedon — produtor, diretor e roteirista em Hollywood. O auge da minha carreira shakespeariana foi ter sido escolhido para terceiro cidadão em “Coriolanus”, papel que não cheguei a desempenhar por ter os meus deveres de casa em atraso…
Shakespeare é um dos maiores artistas de sempre. Se vê isto na clara relevância que tem hoje. Não dá para ler o discurso de Marco Antônio no funeral de Júlio Cesar e não ponderar o cenário político atual no Brasil.
Shakespeare é relevante também no mundo privado: por exemplo, as palavras de Hamlet, no nadir da sua depressão, que escolhi para a campanha “Shakespeare Lives”, uma celebração da obra do mestre:
Shakespeare é o mestre da dualidade; de vilões que são ao mesmo tempo humanos, como o tio de Hamlet, quando ele compartilha o seu remorso, e heróis que são fracos, como o magnífico Rei Lear, perdendo a cabeça com as suas filhas.
Mestre também do cômico no meio da tragédia, como o coveiro que aparece a Hamlet ou o porteiro brincando com Macbeth entre cenas de matança.
Shakespeare é tão generoso com os papéis secundários quanto com os principais. Por exemplo o pai de Ofélia, Brabantio, ou o segundo (nem mesmo primeiro!) assassino, que explica a Macbeth que “meu suserano, sou um indivíduo que os maldosos golpes do mundo e seus embates irritado de tal modo deixaram, que faria não importa o que for para vexá-lo.”
Shakespeare é o mestre do enredo. Ainda hoje, vendo as peças dele pela primeira vez, você ria, suspira, chora. Tão vívida que dura mais que 400 anos. Penso, inclusive, que ele poderia escrever novelas hoje.
Shakespeare nos lembra do que é ser humano, como qualquer artista de excelência, como Velazquez, Bach ou W B Yeats.
Ele era inglês, mas é universal. Mesmo 400 anos depois de sua morte, devemos festejar sua obra. O resto, como ele escreveu, é silêncio.