Sobre assistir à Olímpiada longe de casa

Imagem: Reprodução/TV Globo

Você lembra do Victor Davis?
 
Acho que você provavelmente não lembra dele não. Mas eu me lembro, e bem.

Estava passando férias no Canadá durante a Olimpíada de Los Angeles, em 1984, os Jogos que foram o começo da era moderna olímpica, com inovações como voluntários e patrocínios que continuam até hoje. O Canadá, ou mais precisamente um tal Victor Davis, nadador, ganhou uma medalha de ouro nos primeiros dias dos Jogos. O país ficou em delírio de alegria. Houve, senão me engano, um “Dia de Victor Davis” em toda a nação para marcar a conquista. 
 
Mas, veja bem, em agosto de 1984, a vitória do Victor não me interessava, não. Só queria saber sobre o destino dos atletas britânicos. Em vão. Nenhum canal canadense, ou seja, nenhum dos dois canadenses à época, transmitiu o successo ou fracasso dos meus compatriotas que não estivessem em um evento de impacto global, como a prova dos 100 metros no atletismo.
 
E assim é, ou pelo menos era, quando você segue a Olimpíada em um outro país. Um britânico no Brasil pode passar horas vendo handebol, um jogo estranho que não faz sentido (porque não usar os seus pés?) em vez de ver “verdadeiros” esportes como ciclismo ou remo, ou vice versa, como é o caso, ainda hoje, de amigas brasileiras em Londres que estão sofrendo imensas saudades da voz de Galvão Bueno e têm que aturar comentaristas britânicos falando sobre as sutilezas do hóquei.
 
Ver a Olimpíada em um país estrangeiro é um exercício de saudade permanente. E isso é bom. Os Jogos, por todo o espírito olímpico, são um exercício de nacionalismo. Por isso as vaias e alegria dos brasileiros nas arenas quando o Brasil está sofrendo ou ganhando contra argentinos. Por isso os hinos nacionais, o campeonato das medalhas, as bandeiras. Por isso as saudades de Galvão Bueno (não estou conseguindo pensar num equivalente britânico, talvez porque não há, nem no meu país nem em qualquer outro).
 
32 anos depois dos Jogos de Los Angeles, a tecnologia reduziu bastante o sentimento de isolação. Posso ver ateletas em 16 (!) canais do Sport TV. Então, além dos nadadores canadenses consigo admirar hóquei, ciclismo, handebol… qualquer que seja o esporte. Com esse acesso ao meu país e aos seus atletas em qualqer lugar do mundo, talvez eu esteja perdendo um pouco as sensações de diferença e novidade, que tive quando viajei para o Canadá em 1984. Talvez eu também esteja perdendo um pouco o conhecimento e a compreensão sobre outros países. Confesso que nunca tinha ouvido falar de Galvão Bueno até os Jogos Rio 2016. No entanto, ainda hoje me lembro bem de Victor Davis.