O Sindados roubou 120 horas minhas com meu filho

O meu filho gosta de colocar barcos de papel em uma vasilha d´água, pra logo depois encharcar os barcos e transformar tudo em um terrível naufrágio. Ele gosta de cantar comigo as músicas do Toquinho, porque são as que eu melhor sei tocar, apesar de não entender muito bem o que é o pedaço de genipapo que ficou entalado no papo do Pato. Mas, verdade verdadeira, eu também não, então a gente enrola junto essa parte da música. Meu filho gosta de brincar de massinha. Essa parte eu odeio, uma confissão só entre eu e você, tenho preguiça da bagunça. Mas é legal quando ele me pede pra fazer um helicóptero de massinha e sai todo feliz com um pedaço mal acabado de arte paterna.

Você deve estar se perguntando o que as minhas brincadeiras com o meu filho têm a ver com o título dessa história. É simples, te explico. Eu trabalho na Hotmart, uma empresa maravilhosa da área de tecnologia em Belo Horizonte. Eu já falei da Hotmart outras vezes aqui, mas, para ficar no essencial, ela é uma empresa MUITO LIVRE. O JP e o Mateus, os fundadores, têm uma convicção bastante óbvia, mas que raramente é posta em prática. O melhor jeito das pessoas performarem bem, é dando a elas a liberdade para trabalharem como acham melhor. Logo, nós não temos imposição de horário de entrada (com raras exceções nos times de atendimento), e podemos trabalhar como acharmos melhor.

Estamos na Savassi, em BH, uma região muito fácil para escolher um lugar legal e rápido para almoçar. O que acontece, atualmente, é que me sobra tempo de almoço. Eu não preciso de uma hora para almoçar. Isso não acontece só comigo. O que motivou o nosso time da área legal a levar ao sindicato a solicitação de permitir aos empregados DA HOTMART a retornarem do almoço com 30 minutos, e não a uma hora já prevista na CLT. Essa é uma possibilidade com a atual reforma trabalhista.

E não, não vou cair na armadilha de discutir se ela é boa ou ruim.

Fato é que ela oferece essa possibilidade, mas de maneira que a empresa precise acordar isso com o sindicato. Acho que faz sentido. Assim, permite ao sindicato fazer o trabalho para o qual ele foi criado: de não permitir que empresas cruéis sacaneiem seus empregados.

Só que não é o caso.

Eu suponho, no mundo das ideias, que conhecer as empresas que constituem a sua base de trabalhadores seja obrigação do sindicato. Quatro pesquisas no Google, a conversa de cinco minutos com qualquer trabalhador da empresa de maneira aleatória permitiria ao Sindados compreender que essa é uma empresa que permite que as pessoas vivam de uma maneira decente.

Mas, não sei se por ideologia ou qualquer que seja o motivo (eles não dão muita satisfação), o Sindados negou o pedido da empresa, assinado por todos os colaboradores, de que um almoço de 30 minutos ia ser legal pra gente.

Ao fazer isso, o Sindados me roubou, em um ano de trabalho, tirando as minhas férias, cerca de 120 horas com meu filho. Esse é o único motivo pelo qual eu gostaria de fazer 30 minutos de almoço. Aliás, eu queria fazer 15. Eu passo umas 3 horas por dia com o meu filho acordado. Meia hora a mais por dia seria um aumento GIGANTESCO do meu tempo com ele. Tempo de qualidade. No cair da tarde. Quando a gente podia ir para a varanda, regar a hortinha, preparar uns naufrágios, e até sujar a casa toda de massinha.

Mas o Sindados acha que sabe o que é melhor para mim. Então todos os dias depois do almoço, vou ficar sentado na cadeira do restaurante trocando uma ideia com a turma, ou vou vir escrever essas linhas por aqui. Afinal, parece que meu tempo com meu filho é menos importante do que as piadocas de depois do almoço. É uma bela mensagem para a posteridade.