Cadê você no Burnout?

É final de ano, aquele velho e bom momento de reflexões e definitivamente a melhor hora para dividir esse meu primeiro relato aqui.

Há alguns meses passei por um processo de ‘paralisia geral’ na minha vida, coisa que os psicólogos e psiquiatras têm diagnosticado como ‘Burnout’. Uma palavra bacana que na verdade também traduz a usual expressão ‘deu P.T.’ (não o partido, longe disso)

A expressão científica, na verdade, é da década de 70, estabelecida pelo psicanalista Herbert J. Freudenberger, e traduz aquele momento em que o indivíduo entra num “estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”. Foi esse de fato o meu diagnóstico. E aposto como você tem ouvido muito sobre isso recentemente.

Mas que merda!

Logo eu, um cara bacana, ponderado, equilibrado, com aquela vida-pura-curtição-comilança-e-alegria do Instagram!

Esgotamento é para os fracos, mas eu…

Bem, eu achava que estava segurando a onda, mas não.

Óbvio.

Já dá para começar a refletir sobre isso se fizermos uma rápida radiografia dos dias de hoje e dos impactos frequentes que todos temos vivido. Tem a grave realidade econômica e política do país e a falta de perspectivas positivas no curto e médio prazos; temos as inúmeras pressões cotidianas que nos afligem no ambiente de trabalho, familiar, afetivo, em todas as relações do nosso dia a dia; tem a excessiva velocidade da informação que nos pressiona a cada olhada no celular e que não conseguimos alcançar. Isso só para citar o básico.

Mas quem é dotado de pelo menos algum traço de teimosia segue adiante, topa o desafio e não aceita derrota.

Bonito isso. Bonito mesmo.

Afinal, aprendemos desde pequenos que fracasso é para os fracos. Todo dia nos deparamos nas nossas redes sociais com inúmeros quotes em posts de auto ajuda que nos convencem ainda mais disso. Mas o fato é que, por mais que alguns se recusem a acreditar, para tudo na vida, tudo mesmo, há limites. E isso é simplesmente natural, orgânico, da máquina humana — corpo e mente.

Chega a hora para qualquer um em que os neurônios vão parando de funcionar, que o sono não chega, que a melancolia se torna muito presente, que a irritabilidade fica a flor da pele e descamba fácil para agressividade. Deixamos de enxergar qualquer coisa minimamente atraente em todos ao nosso lado. A maquiagem não resolve, o sexo não funciona, enfim, é a hora em que nada mais está bom. Mas ainda assim insistimos, ignoramos tudo isso, chamamos de fase, cansaço, algum ‘stress localizado’.

Aí então é a vez do corpo te dar recados… a dor de cabeça constante, a sinusite, a dor nas costas, o torcicolo, a psoríase… E por fim, do além, vem o universo e te joga na cara de maneira absolutamente contundente tudo isso que você ignorava. No meu caso foi na forma de um vexatório tombo na calçada, em plena esquina da Av. Paulista com a Augusta, assim ‘de maduro’, como dizem no interior, na frente de um zilhão de pessoas circulando e que me rendeu um ligamento de tornozelo rompido e dois meses de robofoot com muletas.

Voilá! A casa caiu!

No dia achei péssimo, hoje só agradeço.

Agora olhando para trás, era óbvio que muita coisa estava errada, que o tombo foi um tanto simbólico, e naquele momento tive que encarar o limite

Para deixar claro, meu episódio decorreu também de outros problemas além do ambiente profissional, mas sem sombra de dúvida a questão do trabalho respondia pela maior parte desse desgaste mental. Mas para além dos detalhes das circunstâncias, a reflexão que faço aqui vai além dos simples fatos.

Repito, para tudo na vida, há limites. E o primeiro engano é cair no lugar comum de apontar o dedo para os outros, terceirizando nossa tragédia. Que tal então achar um espelho agora e refletir calmamente se está feliz com o que está vendo?

Mais ou menos né?

Pois é, o caminho errado começa assim, mais ou menos, médio, morno. Do tipo ‘não tá lá essa coisas, mas ok’. Foi assim que me vi acostumando com a ideia de uma rotina frouxa, cedendo espaço para tudo o que não era eu, mas que me trazia uma viciada zona de conforto.

Refletindo hoje, meses depois, distante do ambiente de trabalho e sob os cuidados com a saúde a que me propus, vejo o quanto a rotina toda torta na qual estava não só me adoeceu, mas de alguma forma me desfigurou e distanciou de mim mesmo, da minha própria identidade. E quero deixar claro aqui que gosto muito da minha profissão, sei que desempenho muito bem, obrigado, mas naquelas condições não estava rolando mesmo!

Veja bem, isso aqui não é papo de gente que abraça árvore, tampouco é algum tipo de discurso ‘drama queen’. É simplesmente fato. No meio daquela vidinha estava faltando só uma coisa — eu mesmo.

Neste momento começa um grande exercício de resgate, que se vale de todos aqueles clichês que sabemos que são bem verdade — desapego de tudo o que não tem mais valor, desintoxicação de gente negativa, autoconfiança para desengavetar aquelas ideias paradas há anos, autoestima para acreditar nas nossas potencialidades, e muita verdade e sinceridade com tudo e todos. Parece mais fácil escrever do que fazer, ok. Mas só escrevo agora por que fiz e continuo fazendo um pouco de tudo isso a cada dia.

Overall, o que acho importante aqui é dizer que devemos ter sim coragem de dar aquele primeiro passo nesses momentos limite, nessa hora do cansaço extremo, do vazio, da falta de propósito e que vale muito a pena.

Então, chute o balde!

Mande à merda essa vidinha morna, doente e fraca que está levando.

Faça o mundo parar e desça antes que o bonde capote.

É possível, é libertador e é honesto, apesar dos arranhões que vão surgir no caminho. Por que antes de conseguir viver bem com tudo e todos a nossa volta, precisamos viver bem com nosso espelho, e um pouco de catarse cai muito bem para todos. Depois a gente volta mais forte, mais seguro. E sendo minimamente responsável, você não vai morrer não, e se tiver ao menos dois neurônios, vai aprender algo, além de ter história para contar no futuro.

Se achou?

Então vai que é tua….

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