Mãos

Tem dias que a gente fica na espreita da vida, esperando uma rima pra sentir que esvaziou o que tinha pra falar pra ela, mas tudo o que vem é um texto, desses bem bagunçado num bloco de nota de celular mesmo, essa merda já não sai da nossa mão. Por falar em mão, um dia desses eu queria pegar na sua, dizem que as extremidades do nosso corpo deixa vazar toda a energia que estamos sentindo. Mentira, eu que inventei isso, mas se inventei foi porque senti. Se esse mundo é uma grande invenção de teorias infinitas, cada um tem o direito selado e carimbado pelo comitê dos universos dos sentidos de inventar a sua própria. Essa é a minha. Na mão a gente sente, na mão a gente treme, a gente esconde, soca, esbraveja, sua, ama, entra, absorve. Dia desses eu queria a sua. Minha mãe sempre me disse que eu seria muito rica porque minha mão não parava de coçar desde criança. Mãe, essa teoria não tem funcionado, mas algo de importante nasceu na minha mão mesmo, tão importante que não é dinheiro. Às vezes eu acho que eu sei o que é, aguça quando sinto meus dedos dando forma a algo que conecta a minha mente ao coração. Que saudades de escrever, é isso. É por isso que ela coça. “Vai Aline, escreve pra você”. Tá bem, mão. Tô aqui escrevendo e tenho até uma história. Ela começa com a cumplicidade perene que o meu corpo todo sonha, mas termina quando a vida, aquela lá do começo desse texto, diz pra eu voltar mais tarde. No mundo que eu vivo, as configurações de cumplicidade foram atualizadas para superficialidade.

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