Bate Papo Leite Materno Vale Ouro: Informação sob a luz da vida real!

O primeiro bate papo do projeto Amá trouxe três especialistas para impulsionar a conversa. Foi a oportunidade de ouvir tantos aspectos pouco abordados sobre o tema e debater com o público a partir das histórias de cada um.

Nossa convidada Beatriz Sevilha, fonoaudióloga, abordou quais são as implicações de bicos, chupetas e mamadeiras na amamentação e porque as crenças e mitos levam ao desmame precoce. Ela esclareceu que mãe e bebê nascem prontos para a amamentação, mas isso não quer dizer que seja automático e fácil. Existe um período de ajuste entre os dois, com atenção para a organização e prontidão do bebê. Requer orientação, apoio e prática para funcionar bem para ambos. A pega errada no peito não só pode machucar a mãe, como impede a nutrição adequada do bebê. Há muitos casos em que as mulheres sentem dores e demoram a buscar ajuda. É comum que nessas situações haja o desmame. A mãe não aguenta mais amamentar e se vê obrigada a complementar as mamadas com fórmula, porque o bebê não suga o suficiente para seu desenvolvimento pleno. Uma das participantes frisou: “Todo mundo fala que amamentar é sofrido mesmo, então parece que a gente tem que aguentar dor porque é normal.” Não é! É muito importante que a mãe busque ajuda ao primeiro sinal de incômodo. Quando se sente que alguma coisa não está redonda na amamentação, é porque não deve estar mesmo e só tende a piorar.

Esse começo cheio de dúvidas e desafios é também o lugar da insegurança. “A criança depende da mãe, está chorando, perdendo peso. Sem informação e apoio ela desiste de amamentar.” Beatriz contou o caso de um pai de recém-nascido que, observando aflito a dificuldade da esposa ao amamentar seu filho, propôs à médica: Eu vou à feira, compro uma batatinha, amasso bem e dou para ele comer. “Esse pai propôs isso por amor. Pais desejam que seu filho seja saudável, nutrido. Se recebem uma avalanche de informações desencontradas ou equivocadas é muito fácil desistir de amamentar”.

No momento de ajuste e aprendizagem entre mãe e bebê, palpites reforçando para a mãe que seu leite é fraco ou insuficiente podem ser avassaladores para a autoconfiança materna. Lembrando que a produção de leite é um processo físico e emocional. Informações equivocadas (ainda que bem intencionadas) e falta de apoio empurram a amamentação exclusiva ladeira abaixo.

Dados científicos mostram que bebês que convivem rotineiramente com suas avós maternas têm 51% mais chance de ingerir água e chá no primeiro mês de vida.*

É preciso estar informado antes de aconselhar na amamentação ou dar chupeta e mamadeira no Chá de Bebê: a sucção no seio promove o desenvolvimento orofacial. Isso quer dizer que bicos sintéticos, por mais que tentem imitar o formato humano, não oferecem o mesmo tipo de exercício muscular. “Na mamadeira o bebê suga como um pistão e esse movimento além de não proporcionar o desenvolvimento adequado para a ingestão futura de alimentos e para a fala, trará prejuízos como deformidades no palato e na arcada dentária.” A chupeta só faz com que o bebê continue sugando (sem ser alimentado), o que acentua os prejuízos no desenvolvimento. A mamadeira pode ser mais fácil de sugar do que o seio, porque não requer esforço. Se naquele momento de dificuldade, de peito machucado, de bebê que não engorda, a mamadeira e a chupeta forem a saída, o risco do desmame aumenta. A produção de leite da mãe é estimulada via sucção do bebê. Se o bebê não mama, o leite secará.

“Amamentar pode ser cansativo, mas não é para ser sofrido”, completou Carô Tenório, nossa convidada organizadora da Hora do Mamaço em Campinas. Carô falou sobre solidão na maternidade e o ato de amamentar como tabu. “Eu não gostei de estar grávida, só que nunca me senti à vontade para dizer isso. Eu amo meu filho, mas não amo viver a gravidez. É necessário desmistificar a maternidade e o modelo de mãe ideal. Ser mãe te destitui de ser mulher. Bastou meu filho nascer para eu virar ninguém. Tanta gente vive no pós parto um estado de tristeza e angústia e é aí que está a importância da rede de apoio que pergunta à mãe: o que você precisa?, sem julgar.” Isso é se colocar no lugar do outro. É a danada da empatia que tanta falta faz na vivência da maternidade. “Sentir a dor do outro não é como a enfermeira que diz: Mãezinha, você precisa descansar, pode deixar que eu dou a fórmula. Ao contrário, a empatia mora no acolhimento e no incentivo à capacidade da mãe.”, reflete Carô.

Nesse ponto o debate da plateia confirmou o quanto as informações seguras com base científica não são incorporadas à vida das pessoas por pura falta de comunicação assertiva: a amamentação cruzada (quando a lactante dá de mamar para outro bebê que não é seu filho), apesar de ser contra indicada por médicos ainda é muito praticada por solidariedade com outras mães e seus bebês. Por que médicos são contra? Pelo risco de doenças infecto contagiosas (é necessário realizar exames como o de HIV, por exemplo) e porque cada mãe produz o leite adequado para as necessidades específicas e para cada fase de seu bebê. Uma solução seria que as hiperlactantes doassem seu leite aos bancos de leite humano e as mães que não podem amamentar retirassem essa doação. Os bancos de leite têm rígido controle sobre as doações, garantindo a segurança para o consumo do bebê. Além disso, há serviços gratuito de consultoria em amamentação e pasteurização do leite, que permite o armazenamento no freezer caseiro por até seis meses. Daí veio a questão:

Quem sabe da existência de bancos de leite? Boa parte de mães e pais de bebês à termo desconhecem o serviço. Sabe da existência quem usa, no caso, bebês internados por prematuridade ou outras intercorrências. Aqui está um nó daqueles bem complexos (dignos de um post exclusivo): Lactantes desconhecem bancos de leite, por isso não doam. Bancos de leite passam o ano na escassez de estoque, por isso precisam restringir a distribuição do leite só para bebês internados, em alguns casos só para os mais frágeis. Sem estoque não há possibilidade de distribuir leite materno para fora das maternidades, exatamente onde as amas de leite atuam.

“Cobre o peito com um paninho”

Carô conclui sua fala com um tabu que ela combate de perto: o constrangimento por amamentar em público. “É tanta gente e tanta mídia desestimulando a amamentação fora de casa que a mãe acaba desistindo. Amamentar não é ato sexual.”

Apesar do aleitamento materno em qualquer lugar ser garantido por lei, um estudo global realizado pela Lansinoh Laboratórios em 2015 coloca o Brasil no topo da lista do preconceito. Das 13.348 mulheres entrevistadas, 47,5% relataram ter sofrido constrangimento por amamentar em público.

Claudia Lucena, nossa convidada que atua na preparação e acompanhamento de parto, abordou a importância da atenção para a família grávida. “Cabe a todos da família a aceitação do novo ser, por isso é importante a conexão prévia dessa família com as transformações que virão, inclusive com relação à amamentação.”

Como um pai amamentaria seu filho?

“É importante para a família o pai tentar sentir na pele como se dá o binômio mãe-bebê. Um pai bem informado gera nova consciência e possivelmente mais apoio. Esse trabalho diminui a pressão sobre a mãe.” A fala de Claudia puxou o debate para o papel da rede de mulheres que se apoiam, uma situação que não é tão comum na vida contemporânea. “Vivemos em um contexto muito diferente do que viveram nossos pais. Quando eu era criança meus avós cuidavam de mim para meus pais trabalharem. É muito comum que os avós hoje trabalhem e não tenham disponibilidade para ajudar com os netos”, compartilhou o único homem do bate papo. Uma jovem mãe completou: “Eu tento resgatar com minha filha a cultura da amamentação que a minha vó viveu.”

Ficou evidente que espalhar informações sobre o tema, em profundidade e em diversos aspectos é caminho de fortalecimento do suporte social para diminuir o desmame. Cláudia nos chamou a atenção para os casos que são ainda menos falados: “Como lidar com a amamentação quando o bebê tem síndrome de down? Como dar suporte adequado à lactante cujo bebê foi à óbito e ela precisa secar seu leite? São situações específicas, com necessidade de atenção.”

“Amamentar é um assunto que as mães adiam”, disse uma participante que trabalha com gestantes. “Nos cursos de parto fala-se de formulação do leite em pó, mas pouco se aprende sobre amamentação”.

Existe uma meta global para 2025 de 50% dos bebês no mundo serem amamentados exclusivamente até os seis meses de idade (hoje a média mundial é 38%). Como bem disse a dra. Amal Omer-Salim, vice diretora da WABA -World Alliance for Breastfeeding Action, “Isso exige uma vasta combinação de esforços que vai além da amamentação, em vários outros níveis como equidade de gênero, direitos trabalhistas, nutrição e saúde, meio ambiente e desenvolvimento econômico.”

(*) Dados extraídos do Guia Prático de Atualização — Aleitamento Materno Continuado versus Desmame, publicado em abril de 2017 pelo Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Convidadas especialistas no tema

Beatriz Sevilha: Fonoaudióloga, pós doutora em psicologia, docente nas áreas de linguagem infantil e fonoaudiologia hospitalar.

Carô Tenório: Consultora de amamentação, doula pós parto, agente sócio cultural e organizadora da Hora do Mamaço em Campinas.

Cláudia Lucena: Fisioterapeuta, doula, consultora de amamentação e laserterapia. Atua na preparação e acompanhamento de parto.

Apoio: Projeto Oca Campinas: coworking + meninário + oca lab www.projetooca.com.br

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