No livro de culinária! Capítulo 1: Leite Materno

Amá Leite Materno
Sep 7, 2018 · 6 min read

O texto que segue é a livre tradução do primeiro capítulo do livro “Ñam Ñam — Manual para alimentar a un pequeño omnívoro”, da chef argentina Narda Lepes. Peguei o livro para espiar belas fotos e dicas do que dar de comer ao meu filho de três anos, quando fui surpreendida: capítulo 1_Mucha Teta.

Não sou exímia consumidora de livros de culinária, muito menos expert em cozinha, mas tenho interesse em abordagens para crianças em qualquer assunto. E esse livro materializou da melhor forma o que eu acredito: leite materno é tão importante que precisa ser tratado como interesse público.

Na história alimentar de todos nós, o capítulo 1 deve ser mesmo Leite Materno.

Quanto mais peito, melhor

Simples assim: durante os primeiros seis meses de vida o bebê só mama no peito. Nem água, nem nada. Peito. A Organização Mundial de Saúde (OMS) denomina lactantes os bebês até os dois anos. Então, seis meses só de peito, depois, tudo o que puder de peito combinado com algumas comidas.

Ok, peito. Quando? A cada quanto tempo? Quando quiser e em livre demanda, que em geral é frequente. Isso facilita a produção de leite e se sente menos dor nos mamilos. O bebê mama mais e tem melhores padrões de crescimento. Além disso, dar o peito permite que o bebê receba estímulos sensoriais como calor e cheiro, que ajudam em seu desenvolvimento. Dar de mamar gera um profundo vínculo com a mãe.

O peito é mais econômico, não precisa de preparação e se pode amamentar em qualquer lugar e em qualquer momento, sem necessidade de equipamentos, de carregar utensílios, de esterilizar mamadeiras ou de aquecê-las. Fácil e barato. Não é como queremos que seja tudo?

E o mais importante: produz efeitos favoráveis sobre a saúde do bebê e da mãe a curto, médio e longo prazo.

Quando alguém me dizia: “Dar peito te escraviza”, me soava um discurso feito. Me escravizavam outras coisas. Dar o peito foi o que mais cômodo aconteceu comigo. É rápido, está sempre pronto. Se o que queremos no final é que nossos bebês estejam saudáveis… Bem, um sistema imunológico forte se constrói mamada após mamada.

A primeira semana é essencial para o êxito da “Missão Mamada”. Durante os primeiros dias a mãe necessita ajuda para fazer frente à alguns probleminhas do bebê como o choro, o sono (ou a falta dele, melhor dizendo), os vômitos e a insegurança no êxito da lactância. E como se isso fosse pouco, de repente todo mundo opina sem parar.

Que eu fiz? Escutei à uma só pessoa: a enfermeira que melhor me tratou, que me deu confiança, a que nem era muito simpática, mas parecia saber do que falava.

Nesse momento todo mundo, incluindo os profissionais, tem uma opinião diferente: “Dê o peito a cada duas horas”; “Mais para lá”; “Mais para cá”; “Agarrou”; “Não agarrou”; “Segura o peito com a mão em forma de C”; “Não, com a mão em forma de U”…Y assim. Minha filha se prendeu ao peito e, desde esse instante, não escutei a mais ninguém.

Meu instinto me disse: livre demanda, quando a bebê quiser. Alguns pediatras dizem outra coisa, mas acontece que a OMS diz livre demanda.

A princípio Léia chorava um segundo e eu em seguida colocava o peito em sua boca. Sentia que era o melhor que eu podia fazer. O melhor que eu tinha. Em 90% dos casos chorava por isso, estava com fome. A livre demanda não é desordenada. A livre demanda foi deixar que minha filha marcasse seus tempos, e assim nos ordenamos. A princípio foi a cada duas horas, às vezes menos. Mas aos dois meses, as mamadas eram a cada três horas, e tudo ficou mais fácil.

O doutor Llama Figueroa (aliás, o encantador de bebês) foi muito claro. Se o bebê tem a barriga cheia, dorme. Se não tem, não dorme. E Léia comia e dormia.

La la la la la, dar o peito é lindo, la la la la, tudo é felicidade. Até que… seus mamilos racham e você quer chorar. E chora. Dói muito. Me doía tanto que cantava para que Léia não percebesse (isso acreditava eu… coitada). Era horrível igual. Uma dor impossível. Dá vontade de abandonar, mas só dura três dias. Há que ser forte e aguentar. De toda maneira, isso não acontece com mais da metade das mulheres. Se acontecer com você, como aconteceu comigo, saiba que dura pouco e continuar dando o peito é o melhor para seu bebê.

Na Argentina só 30% dos bebês chegam aos seis meses mamando no peito.(No Brasil esse número não é muito diferente, 39%. Aliás no mundo apenas 38% dos bebês mamam exclusivamente até os seis meses de idade)

A justificativa que dão 35% das mulheres é que o leite secou, mas a produção do leite não é estática. Ela se adapta às demandas da criança: quanto maior a demanda, maior a produção. Quando se agregam outros alimentos entre os três e os seis meses a produção de leite diminui. E por que a maioria crê que seu leite está secando? Porque aos três meses o corpo da mãe aprendeu quanto leite o bebê necessita. Não sobra como antes, os peitos não escorrem leite tão elegantemente como no começo. Os peitos estão mais macios, mas não vazios. Não são tanques, a lactância é um processo contínuo. Já não se sente a “drenada” cada vez que o bebê mama, mas você tem leite igual. Se seu bebê mama pouco, dê o peito à ele mais vezes, quanto puder.

Segundo a OMS menos de 5% das mães NÃO têm leite suficiente para amamentar até os seis meses.

Mães deixam de dar o peito antes do tempo por falta de informação e de apoio. Até quando? Depois dos seis meses o bebê continua sendo lactante e assim será até os dois anos. Ele quer mamar. A partir do momento em que o bebê se senta e sustenta bem a cabeça, vai poder comer um pouco de coisas macias. Quando consegue engolir, tossir e digerir melhor, começa a comer alimentos mais sólidos. Dei de comer à minha filha, em fases, de tudo um pouco, mas o peito, ainda que fosse uma vez ao dia e quase de maneira simbólica no final, dei até mais que dois anos.

Como viajo muito à trabalho e como sei que a última coisa que quero é uma diarreia em outro país, a protegi dessa maneira, dando o peito. Nunca ficou doente. Só resfriados leves, mas sem o nariz verde de mucos. Nunca uma bronquiolite, nunca uma diarreia. Alguns vírus passageiros, nada mais. Estivemos na Amazônia, em uma praia sem luz elétrica, em Cusco, no norte do Brasil, na selva, na neve e em feiras gastronômicas onde Léia provava de tudo. Sempre tranquila. Mamar no peito funciona. O peito cuida dos bebês.

O sabor

A relação que temos com o sabor começa com o leite materno. O que a mãe come muda o sabor do seu leite. Isso quer dizer que é preciso cuidar-se, mas de que? Basicamente do álcool. Dos sabores, no entanto, só se comermos aspargos, uma pizza de cebola ou curry, por exemplo, o sabor vai variar.

Para uma mãe que amamenta o melhor é um menu variado.

Acreditem, o peito ganha de qualquer coisa. Mamar é um instinto muito forte, é um vínculo profundo e é uma fonte de alimento que um pouco de alho não será capaz de mudar. E se a mãe come alho, que faz muito bem, o bebê se acostumará pouco a pouco com o alho.

Os bebês amamentados aceitam com mais facilidade os novos gostos do que os que tomaram fórmula, já que o sabor do leite materno muda de acordo com o que a mãe come.

É bom saber que o leite materno muda seu sabor e sua composição por mais de uma razão. Se a mãe pratica, de repente, muito mais exercício do que o habitual, o sabor do leite será diferente. Até durante a mesma mamada o leite muda: os primeiros minutos têm menos gordura, depois chega o leite mais gorduroso. A composição do leite também varia de acordo com as horas do dia: concentra mais lactose e gordura durante a manhã e mais proteína durante a tarde.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade