A febre do momento nas redes é a hashtag #meuamigosecreto, que denuncia atitudes de homens machistas, sem revelar nomes. Tanto no Facebook quanto no Twitter, a hashtag está sendo super comentada e divulgada.

A “brincadeira”, que propõe dar dicas como nas revelações de amigo secreto, na verdade está falando muito sério, pois é um meio de denunciar o machismo velado presente no cotidiano, e ainda abre o diálogo sobre relacionamentos abusivos, preconceitos e todo tipo de lixo que se mantém impregnado na sociedade.

A campanha coincidiu com o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher, que tem como proposta a reflexão e a busca por soluções para esse persistente problema. Esse dia foi escolhido no Primeiro Encontro Feminista da América Latina e Caribe realizado na cidade de Bogotá em 1981. Apesar de fazer tempo, a data nunca teve muita visibilidade. Porém, cada vez mais as pessoas estão usando as redes para divulgar suas ideias e propor a luta por uma sociedade mais justa, então este ano a data foi lembrada em diversas publicações.

Nos últimas anos, a segurança ganhou enorme visibilidade e jamais esteve tão presente nos debates, tanto de especialistas como do público em geral. A segurança das mulheres sempre foi um problema e ao ser debatida incentiva a luta pela busca de soluções.

Desde criança as meninas são orientadas a não andarem sozinhas, sempre alertas, qualquer presença estranha é motivo de desconfiança e medo. O noticiário está cheio de barbáries feitas às meninas desde a mais tenra idade, até senhoras idosas. E ainda muitos são os casos que não vão a público, ficam apenas registrados nas delegacias, ou nem isso, apenas guardados em segredo.

Praticamente todas as mulheres já sofreram algum tipo de assédio, seja a mais comum cantada na rua, até casos mais sérios de violência. A despretensiosa cantada, dependendo do lugar e da forma que é feita, pode gerar desde desconforto até o pânico das mulheres. E entre a cantada e o estupro existe uma enorme variação de abusos que, por vezes, fazem com que muitas mulheres evitem sair às ruas.

Em Tubarão/SC não é diferente. A Delegacia da Mulher informou que só este ano foram registradas 28 ocorrências de ataques na rua a mulheres, desde ato obsceno até estupro, sendo que este último foram 13 casos. Esses foram os casos identificados, ainda tem os que são registrados como lesão corporal ou como injúria, por exemplo, e se misturam com os outros. E também outros tantos episódios são guardados em segredo, seja por medo ou vergonha da vítima. Segundo o IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — , apenas 10% dos estupros no Brasil são denunciados à polícia. Ainda de acordo com o IPEA, 88,5% das vítimas de estupro no Brasil são do sexo feminino e dessas, mais da metade estão abaixo dos 13 anos.

Na cultura brasileira, as meninas são educadas a não “provocar”. E os meninos? Não seria mais inteligente e eficiente educá-los a respeitar? No Brasil ainda prevalece a cultura do estupro, como se a violência fosse um instinto natural masculino, então o abuso é algo esperado. O delegado, Dr. André Mendes, afirma que é um problema conjuntural de educação, ele acredita que a solução está em educar tantos os meninos quanto as meninas, para que o homem deixe de ser predador e que não veja a mulher como objeto para seu consumo.

Dr. André Mendes, delegado em Tubarão/SC. Foto: Amanda Becker

O direito de ir e vir deveria garantir que todas as pessoas tivessem liberdade de locomoção. Mas em relações às mulheres, esse direito está longe de ser efetivo. Elas acabam se limitando por medo do que podem encontrar no seu caminho. E isso está tão enraizado que muitas entendem como algo normal, pois “sempre foi assim”. Por isso, o delegado ressalta que se não mudar a forma como também as meninas são educadas, elas vão continuar acreditando que é natural ao homem atacar, e essa é uma visão que deve ser extinta.

O delegado ainda alerta que o mesmo homem que censura a roupa de uma mulher, aquele homem que separa as mulheres entre as que são dignas de casar e as que servem apenas para “usar”, é o homem que acredita que algumas mulheres não merecem respeito, portando se sente na liberdade de falar obscenidades, passar a mão e por vezes violentar, como se essas mulheres existissem para seu usufruto.

Outra situação cada vez mais comum que o delegado aponta, é a dificuldade de aceitar a rejeição que muitos homens têm. Um homem se aproxima de determinada mulher e se ela não aceita sua investida, ele entende como uma ofensa, se torna agressivo, insultando e por vezes parte para a agressão física.

[As pessoas] tem que entender que nem toda a violência que se fala é a violência física

Segundo o Dr. André Mendes, qualquer tipo de constrangimento pode e deve ser denunciado. O delegado explica o procedimento na delegacia ao receber uma denúncia: além do depoimento da vítima, é investigado o local onde o crime foi cometido, refazendo os passos da vítima, em busca de evidências e possíveis testemunhas, que no caso de estupro é difícil haver.

É também oferecido suporte psicológico à vítima e, quando necessário, ela é levada ao hospital. A delegacia não tem serviço de acompanhamento psicológico, é feito uma avaliação da situação da mulher — até para usar como evidência no caso de processo — e se for necessário, ela é encaminhada para tratamento com terapeuta.

A psicóloga Larissa Bernardo, da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Tubarão/SC, explica que a grande maioria das mulheres que ela avalia são vítimas de violência doméstica, pois são os casos mais recorrentes e também envolve toda a família, portanto, a avaliação psicológica é feita para ter evidência no caso de processo, ou até para auxiliar na reestruturação social e familiar. O IPEA aponta como as principais consequências da violência sexual são estresse pós-traumático, transtorno de comportamento e transtorno mental, além dos casos em que se contrai DST’s e gravidez.

A antropóloga Mariane Pisani é doutoranda da USP. Foto: arquivo de Mariane Pisane

Os dados relacionados à violência contra a mulher sempre assustam. A antropóloga Mariane Pisani traz alguns números alarmantes sobre essa situação no Brasil: a cada 5 mulheres, 3 já sofreram algum tipo de assédio. 77% das mulheres relatam sofrer agressões em casa semanalmente, para isso não existe um recorte de classe social, são mulheres desde a periferia até a alta classe. Nesses casos o agressor geralmente é um homem que ela tem ou já teve um relacionamento afetivo. Em 2014, em todo o Brasil, 53 mil mulheres sofreram algum tipo de violência. Dessas, 51%, em torno de 26 mil mulheres sofreram violência física, ou seja, apanharam de um homem. 16 mil sofreram violência psicológica. Outras 5 mil sofreram violência moral. Outra estatística que serve de alerta é que entre 1980 e 2010 foram assassinadas no Brasil 93 mil mulheres. Desses feminicídios, 43 mil, ou seja quase a metade, ocorreram só na última década.

Ao contemplar esses números, e baseada em sua pesquisa relacionada às mulheres, Mariane também vê que a violência contra as mulheres se dá pela educação machista. Assim como o delegado, ela acredita que é com a educação que esse cenário pode mudar.


Foi realizada uma pesquisa com 80 mulheres em Tubarão, na faixa de 18 à 24 anos. Elas responderam um formulário anônimo, que ainda está disponível aqui. O objetivo da pesquisa foi ter um recorte mais específico entre as mulheres de Tubarão para saber como estas reagem ao terem que andar sozinhas pelas ruas, e ver se está de acordo com os números nacionais. A pesquisa foi feita de forma anônima para que as mulheres se sentissem confortáveis em responder questões bem pessoais, como que tipo de violência sofreram e como se sentiram.

Algumas das informações obtidas foram usadas para desenvolver os infográficos abaixo.

Pesquisa feita com 80 mulheres em Tubarão/SC. Infográfico: Amanda Becker
57,5% não /42,5% sim. Pesquisa feita com 80 mulheres em Tubarão/SC. Infográfico: Amanda Becker
Ponderamos que a ideologia do patriarcalismo e sua expressão machista — disseminada de forma explícita ou sub-reptícia na cultura, nos meios de comunicação e no Sistema de Justiça Criminal — reforça determinados padrões de conduta que muitas vezes levam à violência de gênero e, em particular, aos estupros. Tal fenômeno assume uma dimensão preocupante no Brasil, tendo em vista não apenas as suas consequências, de curto e longo prazo, sobre as vítimas, mas sobre a sociedade em geral. Além das perdas de produtividade, a violência que nasce, sobretudo, dentro dos lares, reforça um padrão de aprendizado, que é compartilhado nas ruas.

IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2014.


Muitas são as histórias de mulheres que sofreram algum tipo de abuso nas ruas. Umas histórias são mais pesadas e com fim mais trágico, outras são “apenas susto”. Mas cada acontecimento fez com que estas mulheres se sentissem como presa fácil de homens nas ruas. Aqui estão alguns depoimentos que ilustram o quão corriqueiro são os assédios e mostram o motivo do medo ao andar sozinha.

Bruna era ainda uma menina quando viu pela primeira vez as partes íntimas de um homem. Ela voltava da escola quando um estranho, se tocando, parou ao seu lado, chamou sua atenção fazendo gestos obscenos, falando coisas desagradáveis e a convidou para “participar”.

Mariana tinha 13 anos quando foi perseguida por um homem na rua, provavelmente esperando um momento propício para se aproximar. Ela foi corajosa e encarou o desconhecido, que desistiu das investidas.

Esta adolescente percebeu que não existe hora segura para uma mulher andar sozinha nas ruas quando um homem desceu do carro para abordá-la. Mesmo demonstrando que não estava interessada e dizendo que precisava ir embora, o homem insistiu.

Ela, que prefere não ser identificada, já era mãe de família, 35 anos, e não podia andar livremente pelo centro. Um homem, de idade avançada, insistia em persegui-la. O estranho falava obscenidade e uma vez até a puxou pelo braço.

Lendo tantas histórias e ouvindo esses relatos, me veio à memória alguns episódios infelizes que se passaram comigo também. Resolvi, então, compartilhar uma das minhas histórias.


Essa realidade de violência contra as mulheres faz com que muitas tomem a iniciativa de se unir para se proteger e lutar na intenção de mudar essa situação, para que um dia todas possam sair às ruas sem restrições, donas do próprio corpo, como deve ser.

Algumas dessas campanhas são:

A Babi Souza é uma jornalista, recém formada, tem jeito de menina, mas pensa longe. Como mulher, Babi entende bem os perigos que corre ao andar sozinha na rua, e sabe que muitas outras mulheres passam pela mesma situação. Pensando nisso a Babi criou a iniciativa “Vamos Juntas?”.

Babi Souza é jornalista e idealizadora do “Vamos juntas?”. Foto: arquivo de Babi Souza

Qual a ideia do Vamos juntas?

Incentivar mulheres a andarem juntas para se sentirem mais seguras de violência . Além de ser um “vamos juntas” literal, acabou se tornando um movimento que leva a ideia de “vamos juntas mudar a nossa realidade como mulher, sermos mais empoderadas e seguras”.

Como funciona a página?

A página recebe histórias de mulheres que colocaram a ideia em prática e que tiveram um “fim mais feliz” por isso. Elas enviam MUITAS mensagens de todos os cantos do país e uma vai inspirando a outra. Também temos usado esse espaço para trazer informações rápidas porém pertinentes com a relação a segurança da mulher, direito da mulher e emponderamento feminino. O Vamos Juntas se tornou rapidamente um movimento com repercussão nacional e tem ajudado muitas mulheres. Vemos o feminismo atuando fortemente em varias frentes, mas a “sororidade” ainda é uma novidade.
[ Sororidade é o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo]

Como você vê a situação da mulher no Brasil hoje, faltam mais iniciativas como esta?

Acho que a sororidade é mesmo a palavra de ordem do movimento. Pra mim, o diferencial do “Vamos juntas?” é justamente trazer essa perspectiva mais amorosa e esse olhar mais carinhoso pra mulher que tá do lado. Acabamos trazendo muito a mensagem de empoderamento e a discussão sobre o nosso papel da sociedade, mas sempre dentro de um viés que entende que é a nossa união que vai fazer a mudança acontecer. Eu acredito muito que só o amor transforma e que a sororidade é a uma ferramenta muito importante contra a sociedade machista.

Como surgiu a ideia do “Vamos juntas”?

O movimento iniciou no dia 30 de julho. Sempre fui vista como uma jornalista idealista que tem o sonho de mudar o mundo, e realmente tenho. Acho que tenho a responsabilidade de mudar o “meu” mundo e o mundo a minha volta, como acho que deveria pensar qualquer cidadão. Nesse sentido, vinha pensando muito sobre a relevância que eu tinha como jornalista e cidadã. Comecei a estudar e pesquisar sobre colaborativismo e empreendedorismo social. Entrei em contato com a incrível ideia de que as pessoas têm o poder de melhorar as suas vidas através da união e que juntos podemos mais e somos mais felizes. A velha ideia de que a união faz a força e de que ao invés de reclamar, devemos nos propor, juntos, a deixar o nosso mundo um pouquinho melhor. Como já estava em contato com essa forma de ver o mundo, o movimento surgiu como solução colaborativa para um problema real que as mulheres passam todos os dias: violência, insegurança e assédio. Tive o estalo no caminho de volta para casa (quando precisei caminhar pelo centro de Porto Alegre /RS) e junto com uma amiga fiz uma imagem explicando qual seria a ideia do movimento. O objetivo era postar apenas nas minhas redes sociais para contar a essa ideia para as minhas amigas. A repercussão foi tanta que precisei criar a página.

Quem cuida da página?

Nesse momento eu cuido da página com a ajuda de três voluntárias que ajudam a administrar os grupos (temos um para cada região do país) e responder mensagens de meninas que contam suas histórias. Recebemos em média 80 mensagens por dia.

O movimento tem o apoio dos homens? Como tem sido esse diálogo?

2% dos nosso seguidores são homens. Muitos enviam mensagens parabenizando a página e agradecendo por sentirem que suas mães, irmãs e namoradas não estão sozinhas. Eu acredito muito que é uma boa ideia os homens participarem da página e acompanhar os relatos para que tenham uma conscientização sobre como a gente se sente nas ruas. Acho que é impossível resolver um problema de violência contra mulher trazendo pro diálogo apenas mulheres, por isso acho vália a participação deles.

Você consegue traçar um perfil das mulheres que participam do movimento?

48% são mulheres de 18 a 24 anos. Logo mais vamos publicar o resultado de uma pesquisa de duas meninas do Recife que fizeram uma pesquisa sobre o público da página, ainda não posso divulgar.

Pesquisa feita com 80 mulheres em Tubarão/SC. Infográfico: Amanda Becker

Links úteis:

Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

Como denunciar a violência

Não estamos sozinhas: outros relatos

Grupos de apoio em todo o Brasil

Advogados especialistas em assédio em Tubarão

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Reportagem: Amanda Becker / Fotos: Amanda Becker / Imagens: Rafael de Jesus e Amanda Becker / Áudios: Amanda Becker / Edição: Amanda Becker / Arte Gráfica: Amanda Becker / Modelo: Bruna de Bittencourt.