Arte de tirar o ar

Se você nunca parou pra pensar no processo criativo da escultura (no sentido tradicional michelangelesco da palavra), reflita agora por um momento.

Vamos então concordar que é uma atividade física, psicológica e financeiramente extenuante. Exige um estúdio equipado, faz a maior sujeira, a matéria prima é cara e complicada de transportar, um modelo amador (tipo um parente ou amigo) pode ficar reclamando de ficar parado muito tempo na mesma posição, um modelo profissional pode ser caro, um modelo pode sumir (ou engravidar, ou perder um braço) no meio do projeto, exige que o artista passe horas sem fim em pé, exige músculo, e, bem, obviamente, exige talento. Além disso tudo, existe a pressão de não arruinar o material no processo: no caso de trabalhar com pedra, um toque mais fortinho do cinzel pode quebrar tudo, e, no caso da argila, ela pode secar ou congelar, e aí o trabalho já era.

Em Paris, fin-de-siècle, a maioria dos artistas não podia pagar por estúdios aquecidos, o que significa que durante as noites de inverno mais rigorosas as esculturas de argila precisavam ser aquecidas a cada pouco. Tinha que molhar, cobrir, colocar trapos úmidos, baforar, fazer o que fosse pra que elas não congelassem. O escultor Jean-Louis Brian ilustra esse drama perfeitamente bem, pois na tentativa de evitar que sua escultura Mercúrio congelasse, ele a cobriu com o único cobertor que ele tinha e morreu de hipotermia bem do lado da escultura inacabada.

O mundo da arte ficou chocado com essa história, claro, e o Salon de Paris até deu uma medalha de honra para aquele Mercúrio, mas a realidade dos escultores daquela geração não mudou em nada.

Ainda bem que algumas décadas depois veio a arte conceitual, né, e agora a gente pode chamar uma vassoura ou um urinol industrializado de escultura e ninguém mais precisa morrer congelado pra gente ter arte pra colocar no museu.

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