Artemisia Gentilinda

Artemisia Gentileschi nasceu bem nascida, família artística e rica, em Nápoles, final do século XVI.

Aí você pensa:

Uhul, arquitetura barroca.

Uhul, espartilho.

Aham.

Faz tempos que nascer mulher não é vantagem. E se naqueles dias você, além de nascer mulher, nascer inteligente, talentosa e forte, vish — Deustecrie, saúde, boa sorte.

A Artemisia era uma que nasceu inteligente. Talentosa, passou muito tempo no atelier do pai, onde aprendeu a desenhar, misturar tintas, pintar. Suas obras ganharam destaque porque ela tinha um domínio ousado da técnica de chiaroscuro e grande influência caravaggista. Ela tentou entrar em diversas Academias de Arte para se aperfeiçoar, mas foi rejeitada em todas — porque era desprovida de phallus.

O pai contratou o tutor Agostino Tassi para que Artemisia pudesse continuar a desenvolver sua arte. Só que em vez disso, Artemisia foi estuprada.

Naquele tempo, se uma jovem bem nascida como ela era estuprada, a melhor opção era se casar com o estuprador. Era o que a sua família queria. Era o que a sociedade esperaria de você. Mas, para sorte ou azar da moça, logo descobriram que Tassi já tinha uma esposa (que, inclusive, ele tinha conseguido através de outra história de estupro).

Com essa descoberta houve escândalo, denúncia e julgamento para que Artemisia, a vítima, pudesse comprovar sua inocência. Ela foi submetida a diversos exames e ao thumbscrew.

Um thumbscrew é isso aqui:

Isso aí. Uma pintora teve os dedos esmagados, porque acreditavam que se ela continuasse contando a mesma história depois de submetida ao thumbscrew, estaria falando a verdade.

Ufa, não,

Ela não ficou com sequelas motoras nos dedos.

Aconteceu que Tassi foi condenado a um ano de prisão (sentença que ele nunca cumpriu). Artemisia se mudou para Florença, onde conseguiu o mecenato dos Médici, tornou-se pintora oficial da corte e foi finalmente aceita na Academia de Arte Florentina.

Das 57 obras catalogadas da Artemisia, 49 retratam mulheres fortes, em cenas de vingança, de ousadia e de poder. O melhor exemplo são essas aqui, inspiradas na história bíblica da Judith decapitando Holofernes com a ajuda de uma criada, uma espada, vinho e seduction:

Mais tarde, no século XX, ela passou a ser encarada como heroína feminista.