Liberté, egalité, fraternité, propagandé

A França era um país onde a maioria esmagadora, 98%, vivia na base de pão preto, passava frio e não tinha perspectivas. Na verdade, tinha uma perspectiva certa: se emperebar com a falta de saneamento básico enquanto uma minoria de 2% era isenta de impostos e vivia no bem bom.

Nesse cenário surgiram alguns pensadores iluministas — Voltaire, Locke, Montesquieu — que criticavam o governo absolutista e sugeriam alternativas. Os revolucionários tomaram as ruas e derrubaram a Bastilha, prisão política para onde eram enviados todos aqueles que ameaçavam o atual governo. Na ocasião só tinha 8 presos lá, mas você saca o poder simbólico do ato, certo? A Bastilha representava a monarquia francesa e ela tinha caído. Vive la Révolucion!

Só que mais ou menos.

O povo ficou preso entre o pânico e o horror, via que não existia mais lado do bem e lado do mal. Os revolucionários discordavam entre si e tinha aqueles líderes raivosos que tinham lido muito Maquiavel. Resultado, mais de 17 mil cabeças rolaram na guilhotina entre 1794 e 1795.

A divisão era tipo assim:

  • Girondinos: nobreza liberal e baixo clero. Eram a favor da revolução, mas temiam o radicalismo — sentaram-se à direita da sala de reuniões. Quando penso nos Girondinos lembro do Ewan McGregor naquela série da BBC — Scarlet and Black (se você não se interessa pela história, talvez se interesse no Ewan nu.) Essa conexão não é bem certa, pois a série se passa anos depois da revolução, mas a mentalidade do personagem é a mesma.
  • Jacobinos: pequena burguesia e a massa popular (também conhecidos como sans-culottes (porque não usavam calções chiques como a nobreza)) — sentaram-se à esquerda da sala de reuniões. Entre os Jacobinos havia as facções mais ok e as mais radicais.
  • Absolutistas: eram a alta nobreza e o alto clero que eram da opinião da Rainha Maria Antonietta: “Os imbecis [referia-se a burguesia]! Não veem que nos servem!

Tudo aqui serve pra contextualizar o trabalho do Jacques-Louis David, em A Morte de Marat.

Jean-Paul Marat era um dos principais membros da Convenção Nacional — órgão que governou a França nos dias mais violentos da revolução. Marat era um jacobino inflamado, diretor do jornal L’ami du Peuple. Seus pontos de vista extremos lhe renderam muitos inimigos. Tipo, uma vez ele foi, digamos, impetuoso com muitos figurões numa publicação do jornal. Temendo represálias ele foi obrigado a se esconder nas catacumbas de Paris, onde contraiu uma doença de pele que o forçava a ficar boa parte do dia dentro de uma banheira para aliviar a ardência. Ele tinha uma banheira adaptada em forma de bota no escritório onde trabalhava e recebia pessoas, e usava um pano embebido em vinagre na cabeça. Na minha opinião, um freak.

Marat foi assassinado a facadas nessa mesma banheira por uma jovem girondina chamada Charlotte Corday que, óbvio, foi guilhotinada poucos dias depois.

Logo após o assassinato, o pintor Jacques-Louis David, jacobino e amigo pessoal do morto, foi encarregado de pintar um memorial para a ocasião.

Ele restringiu as características fúnebres e ornamentais da cena às suas essências. Por exemplo, o cenário ornamentado do escritório foi substituído por um fundo escuro, a banheira especial foi simplificada e o corte da facada nem parece fatal. A água vermelha da banheira e a arma do crime são discretas. Adicionando drama à cena tem o braço flácido sem vida pendendo ali na frente, quase como o de Jesus Cristo em Pietá, e Marat muito mais jovem e inocente que seus 50 anos e sua personalidade cítrica. O estilo neoclássico rigoroso de David transformou Marat em um mártir da revolução, e, assim, propaganda produziu grande arte ~para variar~.


(Hoje em dia a gente pode visitar as Catacumbas de Paris sem correr o risco de pegar uma pereba.)