Babenco, a lei do mais cru

Morre o argentino-brasileiro Hector Babenco e encerra o ciclo brilhante do cara que fez meu filme nacional preferido: o tenro (porém duro) ‘Pixote, a lei do mais fraco’ (1981), um dos grandes tratados sobre a vida de abandono nas ruas das metrópoles.

Antes disso, em 1977, o diretor já havia abordado o anti-heroísmo marginal em ‘Lúcio Flávio, passageiro da agonia’. E, décadas depois, retratou de forma definitiva nosso sistema prisional com o degradante ‘Carandiru’ (2003), um novo clássico do cinema brasileiro.

Difícil apontar outro dos nossos que tenha abordado com igual relevância e riqueza artística a crueza de tais submundos como Babenco.

Analisando sua obra, é curioso sacar como toda produção artística de retrato social feita há décadas no Brasil ainda leva a pecha — ou virtude, talvez — de manter-se atual. A questão da ~delinquência juvenil~ das favelas dos grandes centros, ora vejam, é rigorosamente a mesma desde 1981 (ano em que nasci). Os “meninos de rua” ainda estão nas ruas. Sobrevivendo do jeito que dá.

O sistema sádico de ressocialização de piás infratores mostrado no filme, a antiga Febem, é a graduação do ensino fundamental de Pixote — interpretado por um moleque miserável da perifa que anos depois morreu de acordo ao script da vida real — e de seus pares para o conhecimento de drogas, prostituição, maus-tratos, tortura, superlotação e fuga do cárcere.

Persona de si mesmo: Fernando Ramos da Silva, o Pixote, em seu habitat natural

Mas mesmo em meio a tanta crueldade da vida animal urbana, Babenco teve a sensibilidade de enquadrar a beleza na relação de amizade de um menor e “uma bicha que não pode esperar nada da vida”. Essa é a cena do link, rodada num fim de tarde no Arpoador que encerra à capela com ‘Força Estranha’, do Caê.

Gracias, Hector. Adiós.

Post scriptum

Em São Paulo ano passado na divulga de ‘Os Oito Odiados’, Quentin Tarantino citou Pixote durante coletiva.

Fonte: Veja (argh! Sorry)