Todo dia (já) era(s) dia de índio

“Antes que o homem aqui chegasse
As terras brasileiras
Eram habitadas e amadas
Por mais de 3 milhões de índios
Proprietários felizes
Da Terra Brasilis
Pois todo dia era dia de índio”

De beleza melancólica e nostálgica, a letra acima é uma composição de Jorge Ben Jor (imortalizada numa new wave tropical da maluquete Baby do Brasil) que faz justiça histórica aos habitantes originais do Brasil. Hoje, Dia do Índio, é uma daquelas tantas datas que mais merecem reflexão do que comemoração.

Se pensarmos na realidade do Brasil, inevitavelmente acabaremos mais por recordar a história de conquistas dos povos europeus a culturas primitivas e o enfraquecimento étnico desses povos através de quatro séculos. De 1500 a 2016, a galera da tanguinha, pena e cocar foi varrida para a porta dos fundos da nossa história patética.

Antes da chegada dos conterrâneos do Cristiano Ronaldo, os índios ocupavam toda a extensão do Amapá ao Rio Grande do Sul, principalmente em áreas próximas ao mar, rios e córregos. Aos gaúchos, saibam: ir a Tramanda é uma indiada (“programa de índio”) das antigas.

O contato com os brancos rolou no emblemático século 16, com a chegada de Cabral (e seu social media expert em textões cult, Pero Vaz de Caminha), as missões religiosas e a dispersão do exército pelo território. De lá para cá, conhecemos bem o processo de impeachment, de exclusão e marginalidade a qual foram submetidos nesses mais de 500 anos.

TAVA TRANQUILO, TAVA FAVORÁVEL: aí chegou a capitânia do Cabral fazendo sinal do hang loose

De acordo com dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), desde 1500 até os 70s a população indígena brasileira decresceu afú e muitos povos foram extintos.

No entanto, o quadro começou a mudar nas últimas décadas do século passado. A partir de 1991, o IBGE incluiu os indígenas no censo demográfico nacional – dizem que por conta do lobby da canção ‘Vamos Brincar de Índio’, da Xuxa. O contingente de brasileiros que se considerava indígena cresceu 150% na década de 90.

Mesmo assim, se fizermos a comparação avaliando a densidade populacional, em 1500 o contingente de índios era de 3 milhões (100% da população). Já em 2010, segundo o último censo, o total é de 817.962 (0,26%).

O principal problema enfrentando por indígenas é quase um inimigo íntimo. Algo que vai ao encontro da evolução natural ao manter contato tão próximo e inevitável ao homem branco: a da perda da identidade cultural. Ou seja, alguns grupos estão perdendo os costumes e as tradições por conta das adoráveis xaropices tecnológicas do branco (e por causa do álcool, também).

DIGA “UGA-BUGA”: paradoxalmente, mesmo em eventos que celebram a cultura do índio, como os Jogos Tradicionais Indígenas, no Pará, selfies são algo comum

M’BYÁ-GUARANI: OS ÍNDIOS QUE SABEM QUE NASCERAM PRA SE FODER

“Na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer 
Enquanto o outro ri”

Tim Maia falava de suas tretas amorosas em ‘Azul da Cor do Mar’. Mas bem poderia estar falando dos habitantes originais da Tijuca.

Por terem sido historicamente perseguidos, expropriados, catequizados e escravizados, os M’byá-Guarani optaram por amarrar o bode em locais de difícil acesso, longe do não-índio (o temido “homem branco”), principalmente na Mata Atlântica costeira do país, de sul a sudeste.

Na crença dos M’Byá, rola uma cosmologia um tanto quanto curiosa. A mais significativa é que fala sobre um grande dilúvio que destruiu a “Terra Perfeita” (Yvy Tenondé), mas não exterminou a tribo. Isso porque os M’Byá teriam recebido uma nova chance dos deuses, ao passo em que uma nova terra a eles foi concebida. Porém, esse novo lar, a Ywy Pyau, é imperfeita, fazendo com que passem por dificuldades e provações nessa vida.

Infelizmente, parece um crença um tanto quanto plausível.

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