A Mala, A Hanna e a bagagem vilipendiada do fascismo

Em meados de maio passado, uma amiga engravidou e precisou desocupar o quartinho de livros para reforma-lo para o bebê. Lá fui eu, e confesso que fui com segundas intenções, pois sabia que algumas daquelas tralhas iriam encontrar novo lar em minhas prateleiras. Ao fim de quase uma semana de trabalho, meu “prêmio” foi uma caixa com cerca de vinte livros. Alguns livros eram meus conhecidos; Outros, para mim inéditos, mas que sempre me despertaram interesse. E somente um livro era totalmente desconhecido: “A Mala de Hanna, de Karen Levine”. Estava novinho, ainda com capa plástica. De início, recusei. “Leva pra você, esse livro tá aqui faz tempo, era do meu irmão, mas ninguém quer ler”, foi a resposta que recebi ao devolver o livro para a prateleira. Acabei aceitando o presente, ainda que receosa pelo fato de o livro ser um best-seller e possuir todos os prêmios e atestados de qualidade que os livros sem qualidade nenhuma geralmente possuem. Ao chegar em casa, abri o tal livro. Confesso que achei o assunto atraente: A história de uma garotinha morta pelo Holocausto. Mas, ao mesmo tempo, a história me parecia tão óbvia… Parecia-me só mais uma tentativa de abordar um assunto esgotado que comove milhões. Depois de algumas folheadas e zero vontade de começar a ler, arquivei o best-seller em minha estante. Fiquei com dó, mas naquele momento tinha outras prioridades literárias.

Dias depois, o tal livro acabou nas mãos do meu marido. Ele pegou o livro, leu algumas páginas, mas também não se interessou em começar a leitura. “Isso acontece todo dia em algum lugar do mundo”, concluiu ele. Enquanto ele justificava seu desinteresse e apatia pelo apelo emocional do assunto, nosso filho de cinco anos pegou o livro. Já na primeira foto, a da capa, ele perguntou “quem é mãe?”. Respondi que era uma menininha que viveu há muito tempo atrás, na época da guerra. “O que aconteceu com ela?”, perguntou ele logo em seguida. “Ela morreu na guerra”. “Por quê?”. “Por que um homem malvado a matou”. “Mas por que deixaram esse homem malvado matá-la?”. “Por que ele é malvado e ele não gostava dela”. “Por que ele é malvado?”, “Por que tem guerra?”, “Por que ele não gostava dela?”.. .Em menos de um minuto os por quês eram tantos — e difíceis de responder- que tive que encerrar o assunto e esconder o livro. E assim ele ficou escondido por alguns meses, devido ao meu desinteresse, à descrença de meu marido, e ao incômodo das perguntas indignadas de meu filho.

O exílio do livro durou até julho. Em um churrasco de um casal de conhecidos, eu e meu marido conversávamos com os sobrinhos do tal casal. Conversávamos, até que um deles começou a dizer asneiras políticas. E, aproveitando o ensejo, o outro jovem começou a ostentar um discurso de ódio típico daquela classe média asséptica que tenta, de todas as formas, se privar da realidade social do país. As falas dos dois garotos encontrou amparo em seus colegas, todos defensores da polícia e da intervenção militar no país. Nós educadamente argumentamos que a solução para os problemas não era bem assim, e que o que eles acham que é o problema, é, na verdade, uma consequência gigantesca de práticas elitistas e excludentes. Então, de repente, a garota com quem eu falava retrucou: “Ah, experimenta matar todos os vagabundos pra você ver se não melhora!”. Confesso, fiquei sem palavras. Não sei se foi por não saber como conduzir um raciocínio lógico em uma mente tão precária… Ou se foi por indignação. Sim, uma jovem de, no máximo, vinte e cinco anos, pós-graduanda em uma universidade estadual prestigiada, estava me propondo que o ideal seria exterminar os pobres para acabar com a pobreza. Perante meu silêncio, os outros jovens riram da proposta. “Nunca mais teria funk”, um deles “brincou”. Meu marido perguntou se não seria um pouco inviável e desumano matar pessoas inocentes cujo crime é não possuir um padrão de vida digno. E então, recebemos uma chuva de “argumentos”: “Inocentes? Quero ver quando te assaltarem!”; “Mas o mundo não comporta tantas pessoas assim, a pobreza existe pelo excesso populacional”; “Pobreza é fraqueza de caráter”; “Não precisa matar, é só prender os vagabundos que não querem trabalhar e ficam sugando o Estado”. Cada argumento era replicado de maneira a mostrar o absurdo daquilo tudo, mas as tréplicas eram mais e mais assustadoras. Jovens, graduados, com poder aquisitivo invejável, que só falavam em trabalho, honra, prisão, repressão, lei, ordem, combate a isto ou aquilo. Privilegiados que pensam que seus privilégios são direitos, e consideram “vagabundos” quem não possui tais privilégios. Em certos momentos, pensei estar conversando com jovens militantes da juventude nazista, todos tão convictos, tão cheios de ódio, com noções de história e filosofia tão distorcidas. Acabei me calando, pois conservadorismo me cansa. Também por ser difícil demais fazer enxergar olhos que se fecham por vontade própria. Mas meu marido, Zaratustra que é, insistiu em discursar para os egos elevados. Não prestei atenção na conversa. Meu pensamento repousou nos olhos da garotinha Hanna na capa daquele livro que rejeitei. Pensei que, talvez, uns oitenta anos atrás, alguns jovens alemães também achassem que a solução das mazelas alemãs seria exterminar as vítimas e ostentar os causadores. Talvez tenham sido os jovens que acreditavam no “trabalho como virtude” que apregoaram o “Arbeit macht frei” nos campos de concentração? Voltei de meus devaneios com meu marido falando que tudo o que eles defendiam era, na verdade, fascismo. Os rapazes riram da colocação e refutaram com ironias. Permaneceram incrédulos: Afinal, eram todos graduados! Quem poderia saber mais do que eles, não é mesmo? A moça ouviu meu marido sem rir. Mas embalou um “Mas o fascismo já foi, não tem nada a ver com o Brasil atual”. Por fim, desistimos da conversa. Ou melhor, “fomos derrotados”, “fomos calados” porque pessoas que pensam dessa forma encaram simples troca de ideias como briga (e adoram calar quem pensa diferente). Aceitamos que “nosso pensamento mudará quando formos assaltados” e que “temos que levar um bandido pra casa antes de defender direitos”. Mas nós dois saímos de lá com a impressão de que aquele best seller bobinho merecia muito ser lido.

E lemos. A primeira fui eu, nos intervalos de trabalho e da maternidade, com todo o trabalho de esconder o livro que meu pequeno tanto queria ver. O livro narra a trajetória da mala pertencente à garota judia Hanna em dois tempos: No ano 2000, no Japão, quando Fumiko, a diretora de um museu sobre o Holocausto, recebe a mala para expor; E durante a segunda guerra mundial, quando Hanna é vitimada pelos nazistas. Desse modo, ele mostra a ascensão do nazismo através da história da judia Hanna e de sua família, e também a trajetória de Fumiko e todo o seu esforço em fazer com que Hanna e o terror do nazismo sejam sempre lembrados. O fim do livro é, claro, trágico: Hanna morre na câmara de gás. Fumiko, profundamente comovida, inicia uma batalha de “conscientização e sensibilização” contra um mundo moderno, acostumado com a barbárie, que segue engolindo absurdo após absurdo. Bem, o livro, de fato, não é uma obra-prima da literatura. Como todos os best-sellers, é bem simples, direto, apelativo, óbvio. Mas ao contrário dos demais best-sellers, ele possui uma mensagem incrível. Imensa, pesada. Uma mensagem tão óbvia que se torna inédita: O fascismo ainda está por aí. Como a mala de Hanna, o fascismo ficou guardado durante anos, encerrado, como modelo repulsivo de barbárie. Como a mala de Hanna, o fascismo foi exposto durante anos, e de tanto ser exposto, acabou comum, imperceptível. Incapaz de comover. E de tão banal, acabou ficando forte; De tão invisível, acabou ficando tão presente nas relações modernas neoliberais, como uma bagagem de passado “extraviada” a todos os cantos tocados pela globalização. E hoje o fascismo já não é uma simples bagagem vilipendiada exposta em museus: Ele se infiltrou nas virtudes dos “cidadãos de bem” em diferentes graus. Tornou-se “bagagem cultural” da cultura de massa. Transformou-se em “uma simples opinião” que “deve ser respeitada” devido à “liberdade de expressão”. E ele continuará negligenciado, até que novamente nos vejamos seguindo um “mito”, sem direitos e cheios de deveres, matando milhares de “vagabundos impuros”. Essa mensagem que o livro me deixou desmontou totalmente minha impressão inicial de que o “fascismo é um assunto esgotado”. A cada página que lia, sentia aquela bagagem fascista incômoda muito presente em meu dia-a-dia, e aqui mesmo, em terras tupiniquins. Sentia que aquela bagagem de passado já havia se instalado em vários cômodos de vários lares brasileiros E, pior: Uma vez instalada, como se livrar dela? Como lutar com algo que se tornou tão familiar, tão comum, e, portanto, (aparentemente) tão inofensivo? Fiquei incomodada com essa dúvida. Por dias. Meu asco por aquela bagagem crescia a cada notícia política que ouvia. Confesso, cheguei a ficar paranoica: Estava acontecendo tudo de novo! Meu marido ria de minhas “teorias da conspiração”. Ria, até ler o tal livro bobinho.

“É impressionante notar como o nazismo avançou de maneira sutil e banal nas vidas dos personagens da história. Ele se infiltrava como uma serpente que se esgueira pelos cantos, suas ações até causavam algum estranhamento nas pessoas, mas ninguém acreditava que a barbárie aconteceria”, foi assim que Julio resumiu o livro quando terminou a leitura. De fato: Em “A mala de Hanna”, a população de Nove Mesto, Rep. Tcheca, não acreditava que um alemão pudesse dominar suas terras e mudar suas vidas. E quando Hitler o fez, ainda acreditavam que a justiça seria feita, e o Estado — tido por eles soberano — garantiria os direitos e a segurança da população. Os judeus de Nove Mesto, quando obrigados a usar uma estrela em suas roupas, ainda acreditavam que tudo aquilo era passageiro e acabaria em um piscar de olhos. Mas as estrelas se tornaram restrições. As restrições se tornaram agressões. As agressões se tornaram visitas repentinas de oficiais alemães no meio da noite para levar embora um membro da família…. E a crença na justiça e na proteção do Estado ainda se manteve. No livro, inclusive, quando a mãe de Hanna é levada, ela escreve uma carta dizendo que voltaria cumprisse todas as exigências burocráticas alemãs. E de tantos descrentes, fez-se a crença; De tanto desdenhar os fantasmas, eles apareceram. Em uma noite, a cidade de Nove Mesto foi tomada pelos alemães. Os judeus foram levados descaradamente para trens em direção a campos de concentração. A proteção do Estado nunca veio. A justiça nunca foi feita. Neste caso, o ceticismo das vítimas foi tão “causador da barbárie” quanto o fanatismo dos nazistas. Tão culpado quanto o ceticismo dos estudantes direitistas que disseram que “fascismo não tem nada a ver com o Brasil atual”. Ou tão culpado quanto eu e meu marido, que de início consideramos o assunto esgotado e banal “porque isso acontece todo dia em algum lugar do mundo?” Será que nosso ceticismo em relação à barbárie novamente nos vitimará? É possível sustentar a ideia de “contrato social” de Locke e aguardar justiça e proteção de um Estado dominado por grupos econômicos? Há quase um ano, tudo parecia impossível. Mas hoje….Perdendo direitos do dia para a noite, conduções coercitivas, prisões preventivas, um judiciário que não foi escolhido por ninguém mandando e desmandando… Quem garante que as coisas mudem do dia para a noite? Quem garante que não seremos também vítimas dessa arte de tratar pessoas como animais? Percebemos, então, que aquela bagagem tão incômoda tinha uma alça forte para carrega-la: O ceticismo. Ou seria indiferença? Ou ignorância? Tantos nomes podem ser dados para o sustentáculo de uma bagagem tão perversa… “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”, diria Burke. Eu diria que um povo que não conhece o conteúdo de sua bagagem tende a carrega-la por muito tempo, tende a arrasta-la (ou ser arrastado por ela!), tende a etiqueta-la com nomes bonitos e ostentá-la como posse. Em tempos atuais, de “modernos retrocessos” (vide a “modernização das leis trabalhistas”!), o povo tende até a “moderniza-la” com facilidades tecnológicas. Mas esse povo jamais percebe os males que o peso dessa bagagem pode lhe causar. “É, está acontecendo, mas ninguém se importa, não há como impedir”, concluiu meu marido, agora crendo na gravidade dos fatos. “O homem malvado ainda está vivo?”, perguntou nosso filho, se achegando no colo e já folheando o livro. Respondemos que não. Arranquei o livro dele e escondi, para evitar que ele achasse novamente e perguntasse coisas difíceis.

Dias passaram, mas o incômodo permaneceu. Deixamos de usar a nossa alça indiferente da bagagem fascista, mas ela ainda estava lá, de alguma forma, em todos os lugares que passávamos, pesando as relações sociais cotidianas. E pesava tanto que não se movia com os gritos de “fascistas, nazistas, não passarão” vindo das manifestações. Não se acovardava diante dos milhares que foram às ruas na greve geral. Era como um forte invencível: Mesmo quando muitos desfizeram a alça cética que a carregava, ela ainda estava ali, presente nos policiais à paisana, na mídia burguesa, na classe média asséptica, nos pobres conservadores sem razão. Percebi que havia um imenso esforço da esquerda em imobilizá-la, em trancar a tal bagagem fascista com fortes correntes para que ela jamais revele seu conteúdo perverso. Mas trancar uma bomba atômica impede que ela exploda? Faz dela menos bomba, menos destruidora? Lembrei-me do meu filho. Da curiosidade que aquele livro e aquelas fotos causavam nele, de modo que ele estava sempre tentando pegar o livro para ver e conhecer melhor. Não seria o mesmo que as pessoas fazem com este fascismo que buscamos esconder? A curiosidade por algo tão proibido, tão impronunciável, também não contribuiu para que muitos busquem conhecer o fascismo? E se quem é contra o fascismo evita falar sobre ele… Quem fala sobre ele são seus defensores, e, portanto, pessoas que irão apresenta-lo de maneira deformada, justificada. E se ele é apresentado de maneira editada, cheio de apelos, eufemismos e elogios de intelectuais fabricados, ele passa a ser uma verdade para quem o busca. E somando a indigência intelectual de nossos tempos, a indiferença, o ceticismo e a imensa propaganda que a direita possui em suas mãos, o resultado é assustador. E pode se tornar pior. Foi então que me dei conta que o melhor seria abrir a bagagem. O melhor a fazer é revelar incansavelmente seu conteúdo nefasto para todo o mundo. Fazer um esforço imenso, como o de Fumiko, para sensibilizar as pessoas sobre os horrores do passado e sobre o perigo da história se repetir. Falar a respeito dos interesses ocultos, e como muitos foram levados à barbárie por mera propaganda. Fazer comparações com o passado, denunciar esse ódio anabolizado pela mídia. Se possível, induzir as pessoas a se colocarem no lugar de Hanna, mostrar que NADA impede que elas venham a estar no lugar de Hanna um dia. E, se possível, fazê-las entender que elas são gente como as pessoas que elas odeiam, sentem dor da mesma forma, adoecem da mesma forma, sorriem e sofrem da mesma forma, morrem da mesma forma…. E poderiam, portanto, viver da mesma forma. Por que não? Seria utopia demais desapegar de nossos fardos? Talvez. Mas seria uma vida mais leve, sem pesos, sem alças, sem etiquetas. Sem ódio. Sem guerras.

Logo que me dei conta que o melhor seria “esvaziar” a bagagem, o fiz. Bom, na verdade, tentei. Em todas as malas fascistas que encontrei. Resultado? Acabei ignorada. Debochada. Vilipendiada. Tornei-me uma presença desprezível, invisível. Tão invisível quanto a mala nazista era inicialmente. Decifrei-a, mas ela me devorou. E mesmo esvaziada, não ficou mais leve, não ficou menos presente, nem menos nociva. Hoje somos duas bagagens decorativas nos lares cheios de ilusões. Incômodas, pesadas e invisíveis. Eu, a sem alça, cheia de verdade; A outra, cheia de uma barbárie que só aumenta. A diferença é que a segunda é mais visitada do que a primeira. A segunda é carregada sempre a todos os cantos, por um povo que acostumou a ser gado. “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”, diria meu poeta itabirano, Zaratustra nato, discursando às paredes e oferecendo uma rosa ao povo que pede asfalto. Bem, é triste, é verdade. Mas, enfim, sigamos sem ênfase, vilipendiados, leves, oferecendo rosas ao gado. Parafraseando o espanto de meu pequeno quando mostrei a ele todas as fotos do livro e toda a história: “Mãe, por que é que o mundo é assim?”