As primeiras 24h.

Um pesadelo. Aliás, vários.


As primeiras horas com a ideia na cabeça foram aterrorizantes. Uma verdadeira guerra entre razão & emoção. E essa guerra não durou apenas 24 horas.

Ainda que eu me ache uma pessoa razoavelmente esclarecida, com acesso à informação, compreensiva e sem preconceitos, infelizmente, a emoção falou mais alto. Talvez fosse aquela sensação de “a ficha caiu” e o estado de choque subsequente. Na primeira vez que fiz o teste anti-HIV, durante a conversa com a conselheira do CTA, lembro que ela me perguntou: “O que você vai fazer se o teste der positivo?”. Com naturalidade, respondi: “não vou me desesperar, porque sei que é uma falta de responsabilidade minha e existe tratamento”.

Mal sabia a mentira que estava contando para mim mesmo.

Ainda estou tentando descobrir as razões que me fizeram só chorar quando cheguei em casa. Durante o percurso uma respiração pesada, cabeça baixa, olhos ardendo e um nó na garganta. Já deitado na cama minhas lágrimas não paravam de cair.


Dizem que quando a gente está perto da morte passa um filme da nossa vida na cabeça.

Comigo foi quase isso, só que mais devagar e sem final feliz.

Acho que não contei muito sobre mim até agora.

Sou nascido no interior do RJ e saí de casa aos 18 anos. Vim para a capital do estado fazer faculdade. Filho de mãe solteira, duas irmãs, crescido em uma família em que se tornou natural que as mulheres fossem empregadas domésticas e os homens fossem para a construção civil. Estudei em escola pública toda a minha vida e hoje sou o primeiro da família a entrar em uma Universidade — também pública. Prometi para mim mesmo ascender socialmente, crescer intelectualmente, voltar para a minha cidade natal e oferecer um presente melhor para minha mãe, minhas irmãs, minha avó e tias — todas que formaram o que eu sou hoje. Precisei conciliar trabalho em call-centers e faculdade desde o começo, já que minha família não tinha como me manter — e eu também não exigia isso dela. Morei de favor nos primeiros meses longe, porque não tinha como pagar aluguel. E no meio desses três anos fora de casa, com visitas esporádicas, minha avó ficou viúva, fez uma cirurgia no coração, minha irmã caçula saiu de casa e foi morar sozinha, minha mãe foi diagnosticada com esquizofrenia e aposentada por invalidez. E eu aqui sem poder fazer nada.

Poderia ser uma história invetada para causar comoção, mas não é. E essa é a primeira vez que publico assim. Para os amigos eu minto, para os colegas eu a escondo e tendo viver fingindo que tudo está naturalmente bem.

Foram exatamente essas lembranças citadas que vieram na minha cabeça durante muito tempo. E elas não vieram de uma única vez. Para piorar: vieram aos poucos.

E a cada lembrança um choro, olhos vermelhos, dor de cabeça e a sensação de ter meus projetos ceifados.

Meu lado racional não ajudava muito. Lembrava-me apenas que eu poderia morrer antes dos trinta anos de qualquer doença que se apoderasse do meu sistema imunológico. Lembrava-me também do sofrimento que eu poderia causar à minha família, do uso constante de remédios para o resto da minha vida, da bateria de exames periódicos e do cuidado quase extremo com o contato.

É claro que eu tenho noção absoluta de que esse quadro pode e vai mudar com o tempo. A informação será a minha maior aliada.

Só vai depender de mim.