
O primeiro dia do resto da minha vida
No dia 25 de Setembro de 2014 eu descobri que tenho HIV: é assim que minha história recomeça.
Por enquanto eu não vou me identificar. Acho que será melhor assim. Essa realidade ainda é muito nova e como não é possível prever a repercussão disso, parece mais coerente ficar no anonimato. Digo apenas que tenho 21 anos, sou solteiro, carioca e universitário.
Aquela era a segunda vez que eu realizava um teste anti-HIV na vida. O primeiro tinha sido há aproximadamente três meses e o resultado foi negativo, mas a conselheira do hospital — de acordo com os dados que eu passei sobre as minhas últimas relações sexuais — me aconselhou a refazê-lo porque eu estava em um período chamado janela imunológica. Com esse dado, já é possível saber que eu me infectei por via sexual e não por uso de drogas injetáveis ou transfusão de sangue. Mas isso não importa.
O fato de o primeiro exame ter resultado negativo já me deu muito alívio porque eliminava a possibilidade de contaminação com diversos parceiros ao longo de cinco anos de vida sexual ativa — já que ninguém é perfeito e acaba fazendo sexo sem camisinha às vezes. Daquele primeiro exame em diante eu tinha me comprometido a usar camisinha sempre e o fiz, mas isso não me protegeu dos riscos.
Meus dois testes foram feitos em um CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) — que é diferente de um simples centro de diagnóstico. Por isso, no meu primeiro comparecimento passei por uma consulta informativa onde uma profissional de saúde me alertou sobre todas as formas de contágio. E essa consulta foi bem educativa. Dependendo do CTA, esse profissional pode ser psicólog@, médic@ ou enfermeir@.
“Você sempre acha que sabe demais, até que descobre que não sabe tudo.”
Contei essa história porque ela fez o teste ser um pouco mais tranquilo da segunda vez. Eu estava certo de que não havia possibilidade de contágio porque a exposição ao vírus ocorreu com um parceiro com quem eu já tinha transado no período de diagnóstico do primeiro teste. Era quase um cumprimento de protocolo. Pelo visto eu estava errado.
“Dessa vez o teste deu positivo.”
Se existem momentos em que é possível não pensar em nada, esse é um deles. Não pensei, não chorei, não falei. Deve ser isso que as pessoas chamam de estado de choque. Devem ter se passado longos 30 segundos até que uma enxurrada de pensamentos começaram a inundar minha cabeça. A psicóloga começou a cumprir seu trabalho me dizendo palavras de conforto e de domínio da razão, mas eu só conseguia pensar:
Quem? Como?
Eu vou morrer.
É assim que começa esse blog. Ele é a minha ferramenta para superar, confessar, relativizar e naturalizar meu atual estado. Vou fazer dele um segredo público e tentar usá-lo para informar, conscientizar e ajudar amigos que podem ser negativos ou positivos como eu.