O Pianinho FC e o jogo de nossas vidas

O torcedor do Pianinho é um apaixonado.
É meio adolescente, desesperado, aflito.
Parece que a gente vai morrer ou é o mundo que vai acabar de vez.
Mas basta uma bola roubada e um gol no último minuto para nos lembrar que estamos vivos.
Bem vivos.
O corpo torna-se puro reflexo da emoção que toma conta da alma.
E a gente desafia a torcida rival, a perna cansada e até mesmo a lógica.
Se existem Deuses do futebol, eles pararam na tarde do último domingo para ver Pianinho 3 x 3 Sociolombra.
Quem esteve no Ginásio sabe que o clima era diferente desde os primeiros minutos.
Era uma Pianinho que sabia sofrer, sabe-se lá porquê, mas o time estava intenso, mordido.
Não era o nervosismo de quem pode colocar tudo a perder, era a vontade de quem leva pras quadras e campos o mesmo espírito de luta com que toca a própria vida.
E o futebol, tantas vezes metáfora da vida, nos ensina que não dá pra começar ganhando sempre.
Gol da Sociolombra.
E agora?
Mais uma derrota!
Por que, meu Deus?
O torcedor sofre, reza, quase entra em campo.
Até que Tiago iguala o placar.
E como um alento pro sofrimento que ainda viria, Negueba, com sua costumeira classe, vira o jogo.
Tá tudo muito fácil…
O Pianinho não é assim!
Depois só dá Sociolombra.
A torcida empurra o time da sociologia.
Eliabe, solitário como são todos os goleiros, salva o que pode.
Mas, como é ingrata essa profissão.
Alguns segundos e tudo muda.
A Sociolombra não só empata, como vira o jogo.
É hora de quem tem fé acionar seus Deuses e quem não têm, confiar na sorte, porque ela parece premiar as histórias mais bonitas.
Eu juro que aquela quadra parecia ter quinhentos metros.
Do primeiro toque de Kieza até o chute no gol, o mundo parou um pouco.
Parou porque havia um coração incrédulo, mas consciente de que aquela história não pararia por ali.
E quando Kieza contar sobre esse dia para os filhos, o gol parecerá sempre mais bonito.
Se o gol é o clímax do futebol, a disputa de pênaltis é desfecho dramático digno de tragédia grega.
Começa com um medo absurdo, mas depois não nos resta mais nada além de acreditar.
Acreditar em Kieza e seu oportunismo de artilheiro, em Hildo e sua capacidade de se reinventar, em Negueba e o talento de um garoto que parece jogar bola há quinhentos anos.
Acreditar na liderança de Rodolpho, na garra de Tiago, na segurança de Vitor e na calma de Dênis.
Defender o time numa disputa de pênaltis é carregar um piano nas costas.
Mas Hugo está concentrado, abandonado na meta vazia, entregue ao destino.
Ensaia uma reza e até eu que nunca fui religiosa faço minhas preces.
E olha, Hugo, parece que alguma força maior nos ouviu.
Você foi atrás de cada chute e cada bola parecia te procurar.
Acabou.
Ou melhor, começou.
Começou a história do Pianinho nos Jogos Gerais da UFRN.
E a classificação veio com a cara do time.
O retrato de quem já apanhou muito, mas é teimoso e cisma em continuar.
Antes dos Gerais ainda tem a final do CCHLA contra a Barca, nosso maior adversário.
Dia desses eu ouvi a frase “Grandes homens não nascem grandes, mas tornam-se grandes”.
Talvez ela resuma bem o que é o Pianinho: um time que se torna maior a cada jogo.
Que venha o clássico e que venham os Gerais!
