Sem melodia

Só quando mandaram mensagem no celular é que entendi. Por isso nenhum som, por isso nenhuma melodia quando ligo o rádio. Já está no noticiário. O Brasil viverá sem melodia. Nas ruas, o povo questiona o fato já consumado e a vida segue. Um homem atravessa a rua desatento. Carros riscam o asfalto e rasgam o ar com suas buzinas aflitas. É a vida compondo suas próprias melodias. Entendi de imediato.

Então eu soube que os jornais mentiam. Ainda havia melodia. E eu saí por aí a procurar, pronta para ouvir os sons do mundo. No ônibus, a moça lamenta seus infortúnios amorosos e exagera como quem escreve em palavras gigantes. Não sabe se ele a ama. Talvez nunca saiba. O amor não tem cifra. O amor não é uma melodia, embora use esse disfarce costumeiramente.

Já eram três da tarde e eu ainda caçava sons de gente. No corredor vazio tudo o que ouço é um TOC TOC seco e apressado. Então passa uma moça magrela como as modelos da TV. Tinha os lábios pintados cor de sangue. Ninguém ouviu a orquestra ritmada do salto alto, ninguém poderia adivinhar que ela passaria. Estavam todos ocupados demais quando o espetáculo aconteceu.

Mas este foi um dia de paz. E eu que tanto já falei e ouvi, fiz silêncio. Só então percebi que a noite tem sua própria melodia. O som dos insones pode ser ouvido em todo o quarteirão. É um coral numeroso, porém harmônico. É um espetáculo solitário também. Nenhum sucesso de público. Os insones arrastam passos pela casa e têm a madrugada como companheira.

E eu já não tenho medo. Encontrarei melodias. Dirão que enlouqueci. Mas descobri que é possível buscar os sons que estão por aí, no coração do Brasil. E quando eu morrer, que seja de amor, disfarçado em ritmo e melodia e belo como uma pérola negra.

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