Da margem do rio

Você estava tão perto que eu conseguia sentir o cheiro do seu hálito, sua respiração no meu cangote e a textura fina da sua barba nas minhas bochechas. Não consigo me lembrar exatamente quando, mas uma manhã eu acordei e você estava do outro lado rio. Mesmo com margens estreitas eu não conseguia te enxergar do outro lado. Havia uma neblina tão densa que ouso dizer que você puxou algumas nuvens do seu céu nublado e as trouxe para o nosso caminho.

Não conseguia mais ver a sua feição, não conseguia mais ver se você ria ou chorava, e não havia vestígios da sua respiração lenta e quente ou do seu cheiro de sabonete Phebo. Eu estava no escuro. Sozinha e no escuro.

Pensei em nadar, mas as algas se enrolavam nos meus braços, quase me afogando. Pensei em seguir andando, uma vez que o rio era raso, mas o fundo lamoso ia me puxando para baixo, feito areia movediça. Pensei em parar de existir e em começar do novo e em simplesmente te esquecer para sempre. Pensei em todas as possibilidades de conseguir viver nessa ressaca de você. Mas a neblina não baixa nunca.

Às vezes me pergunto se um dia vou sair da margem desse rio. Há dias que eu quase enxergo o outro lado e tenho a nítida impressão que você não está mais lá. Tudo bem, eu entendo. Aqui, na margem do rio, é solitário e falta amor.

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