O interfone

Poucas coisas são mais irritantes do que o toque de um interfone. Nem o telefone celular, nosso fiel companheiro, consegue interromper a rotina com tanta eficácia.
Quem nunca acordou de manhã cedo assustado, com o interfone disparando, só para descobrir que era alguém pedindo doação? Ou testemunhas de Jeová trazendo a boa nova? Tirar alguém da cama no domingo de manhã para oferecer uma boa notícia é como chutar a canela do sujeito para lembrá-lo de quem tem perna.
E sempre tem chance de ser um engano. “Pronto?” “Alô, é da casa da dona Odete?” “Não.” “Hein?” “Não tem essa pessoa aqui, não.” “Desculpa aí, foi engano.” Que bom, se não fosse a explicação eu jamais saberia.
Ou um trote — quem nunca apertou todos os botões do interfone e saiu correndo? Você lá, perguntando quem é, e o autor longe dali, rindo à beça. Não importa se você estava apertado para ir ao banheiro, ou se tinha acabado de começar a dar banho no cachorro.
Aliás, já reparou como o interfone tem uma estranha mania de tocar quando você acaba de fechar a porta do banheiro? Os mais calculistas esperam você tirar a roupa, abrir a torneira do chuveiro e molhar a pontinha do pé na água gelada. Outro dia li um estudo provando que em um condomínio suficientemente grande, o interfone tem três vezes mais chance de tocar no apartamento dos casais que preferem transar de dia.
Mas o pior mesmo é o interfone não deixar você chamar alguém na rua. Devia ter um jeito de você tocar de dentro da sua casa e soar lá embaixo, na portaria, para chamar quem estivesse passando lá fora. Já pensou? “Alô?” “Oi, você é o entregador de pizza?” “Quê? Não, só estava passando e tocou aqui o interfone.” “Ah, tá. Beleza, foi engano.” E você rindo lá em cima, do alto do seu apartamento, saboreando sua vingança.
Pelo menos o mundo seria mais justo assim.
