Empiricus: um jeito neoliberal de ganhar dinheiro quase religioso
Faz algum tempo que recebo em minha caixa de emails informes da Empiricus, uma empresa que distribui conteúdos sobre o mercado financeiro, realizando o trabalho de consultoria de investimentos. O detalhe é que em nenhum momento fiz qualquer tipo de cadastro, será que alguém me “vendeu”?
Geralmente são informes de atividades que visam “ensinar” o potencial investidor a ganhar dinheiro sem muito esforço. O último conteúdo que recebi é intitulado “A Jornada de sua Liberdade Financeira”. A empresa em seu site diz que disponibiliza conteúdos gratuitos e pagos como esse enviado por uma consultora.
“Oi, tudo bem? Aqui é a Luciana Seabra. Vou ser o mais direta possível com você: Daqui a duas semanas, na segunda-feira do dia 17/9, às 8h30, vou lançar em primeira mão o projeto financeiro mais importante da minha e da sua vida: A Jornada da SUA Liberdade Financeira.O objetivo é único: fazer VOCÊ alcançar a SUA liberdade” — diz um trecho do email, que mais parece um chamado de algum programa de TV evangélica.

O Hall dos rentistas imobiliários
Ganhar grana sem esforço a partir de aplicação em fundos imobiliários, os FIIs. Parece até uma fala de Jordan Belfort,o personagem do filme “O Lobo de Wall Street” interpretado por Leonardo de Caprio.
O “Renda Imobiliária” promete ajudar na formação do seu império imobiliário. “Receba TODO MÊS R$ 1.823,53 de aluguel”, essa é a chamada da série “Renda Imobiliária”para o propenso cliente comprar uma aula, acompanhada de um conteúdo especial com a indicação de três fundos imobiliários escolhidos pelo consultor Daniel Malheiros. Na chamada, a Empiricus informa que 10 mil pessoas já aderiram à sugestão.

Os FIIs são fundos que captam recursos no mercado para investir, é claro, em empreendimentos imobiliários. O investidor não compra a propriedade inteira, compra apenas pedaços dos imóveis administrados pelo fundo, imóveis esses que serão alugados a terceiros.
Problemas com a Apimec
Segundo, a Money Times, um veículo de informes do mercado financeiro, em matéria publicada em novembro de 2017, a Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), entidade que regula os analistas de investimentos, divulgou hoje a suspensão de três analistas da empresa pelo prazo de 30 dias ao identificar que alguns email-s enviados a investidores com “garantia de retorno” não alertavam corretamente sobre os riscos envolvidos. Os três notificados foram Bruce Barbosa, Gabriel Casonato e Felipe Miranda.
Ainda na reportagem, segundo Eduardo Bocuzzi, relator do processo, e os membros do CSA (Conselho de Supervisão do Analista de Valores Mobiliários) Alexandre Gartner e Geraldo Soares Leite Filho, os textos continham expressões como “garantias de retorno” com o objetivo de alcançar novos investidores.
Em sua defesa, ouvida pela Money Times, a Empiricus alegou que a denúncia é contraditória, pois reconhece que os e-mails enviados eram acompanhados de “Alerta” em destaque e fonte idêntica a utilizada no corpo do e-mail. A CSA alegou que o aviso não é suficiente para advertir os investidores e que ele foi feito de maneira genérica.
A empresa lembra também que os e-mails não são a atividade própria dos analistas e, portanto, não estariam sob a instrução da CVM ou do código de conduta da Apimec.
“Os e-mails marketing não possuem os requisitos caracterizadores de um relatório de análise, visto que não referiam a valores mobiliários específicos ou sobre emissores de valores mobiliários determinados e não possuíam conteúdo que pudesse influenciar investidores no processo de decisão futura”, argumentou a Empiricus.
Terrorismo econômico para conquistar clientes
Fundada em 2009, a Empiricus começou a ganhar visibilidade no período eleitoral em 2014 quando o analista financeiro, Felipe Miranda , também sócio da Empiricus, vendia o “peixe” de que o país entraria no caos. Miranda fez uma análise polêmica onde cravou: “o fim do Brasil estará decretado caso a presidente Dilma Rousseff seja reeleita”. O dono da empresa ganhou muito dinheiro vendendo o fim do mundo, um vídeo seu chegou a ter mais de 14 milhões de visualizações. O resto é história, passando pelo impeachment de Dilma e chegando aos dias atuais de Temer e ascensão da direita no Brasil com a radicalização do neoliberalismo.
Ganhar dinheiro fomentando cenários obscuros virou uma especialidade da empresa como escreveu de forma critica o consultor André Bona, em texto publicado no Blog de Valor, ao analisar a atuação da Empiricus.
“Se uma empresa vive de vender relatórios — como é o caso — então, dependendo de sua conduta, poderá sempre fazer comunicações alarmistas com intuito de chamar a atenção. É isso que me parece ocorrer com o caso da Empiricus. Constantemente nos extremos: ou tudo é uma grande oportunidade única ou o fim do mundo é daqui a alguns segundos. E, é claro, nos relatórios você tem a resposta para tudo isso” — disse em texto publicado em outubro de 2017.
Bona é bem direto em dizer que a empresa adota sem maior parcimônia o conflito de interesse. “Logo, há um flagrante conflito de interesses na postura da Empiricus, na medida em que as suas chamadas alarmistas se confundem com o seu produto, simplesmente por se tratar de um sistema que se retroalimenta: primeiro o alarme e depois a solução” — critica.
No site da empresa, a uma tentativa de explicar qual sua área de atuação do que efetivamente de que sobrevive o negócio. “Não somos um banco, nem uma corretora. Vendemos assinaturas, onde publicamos ideias com as melhores sugestões de investimentos, em várias estratégias diferentes. De A a Z. Diariamente, também impactamos mais de 1.800.000 de pessoas com conteúdo de finanças e investimentos (…)Migramos o foco dos engravatados do mercado para o varejo, para o brasileiro comum. A dentista, o advogado, a engenheira, o professor, o aposentado, a comerciante”.
Ainda em sua página é explicado que “a única fonte de receita da Empiricus é proveniente da comercialização de suas assinaturas, ou seja, não administramos o patrimônio de nenhum assinante, o que nos dá o conforto de atuar livremente e sem qualquer conflito de interesses” — explica a empresa que informa ter 180 mil assinantes.
O fato é que a Empiricus usa de uma estratégia bastante agressiva em seu marketing, minha caixa de email que o diga…
P.S No dia que encerrei esta reportagem Marcos Eduardo Elias, ex-sócio da Empiricus, preso na Suiça, foi extraditado para os EUA sob acusação de desviar mais de US$ 750 mil de contas de brasileiros em Nova York.
